Sobre os sindicatos...Lenine

 
 

    Em quarto lugar, os tribunais disciplinadores. O papel dos sindicatos na produção, a "democracia na produção" - diremos ao camarada Bukharim sem espírito de censurá-lo -, são puras bagatelas se não existem tribunais disciplinadores. Mas em vossas teses isto não é visto. Assim, pois, no terreno dos princípios, no terreno teórico e no terreno prático, surge uma só conclusão a propósito das teses de Trotsky e da posição de Bukharin: é uma pena!

    Chego ainda mais a esta conclusão quando considero que não colocais a questão de modo marxista. Não é somente o fato de que nas teses haja uma série de erros teóricos. A análise do "papel e das tarefas dos sindicatos" não é marxista porque não se pode abordar um tema tão vasto sem meditar nas particularidades do momento actual em seu aspecto político. Pois não foi em vão que escrevemos, juntamente com o camarada Bukharin, nas resoluções do IX Congresso do PC da Rússia sobre os sindicatos, que a política é a expressão mais concentrada da economia.

    Analisando o actual momento político, poderíamos dizer que atravessamos um período de transição dentro do período de transição. Toda a ditadura do proletariado é um período de transição, mas agora, temos, como se diz, toda uma série de novos períodos transitórios. Desmobilização do exército, término da guerra, possibilidade de uma trégua pacífica muito mais prolongada do que antes, possibilidade de passar mais firmemente da frente da guerra para a frente do trabalho. Só por isto, somente por isto, muda a atitude da classe proletária em face da classe camponesa. Como muda? Isto é preciso ser examinado com a maior atenção, coisa que não fazeis em vossas teses. E enquanto não o examinarmos assim, é preciso saber esperar. O povo está mais que cansado, toda uma série de reservas que deveriam ser consumidas por algumas indústrias de choque já estão esgotadas, modifica-se a atitude do proletariado em relação aos camponeses. O cansaço da guerra é imenso, as necessidades aumentaram, mas a produção não foi incrementada, ou foi incrementada de maneira insuficiente. Por outro lado, eu indicava, em meu informe ao VIII Congresso dos Sovietes, que aplicamos com acerto e resultado a coerção, quando soubemos baseá-la, antes de tudo, em um trabalho de persuasão. Devo dizer que Trotsky e Bukharin não levaram absolutamente em conta esta importantíssima consideração.

    
    Soubemos colocar todas as novas tarefas da produção sobre uma base devidamente ampla e sólida de trabalho de persuasão? Não, apenas começamos a fazê-lo. Ainda não soubemos atrair as massas. Mas podem as massas passar imediatamente a cumprir estas novas tarefas? Não podem, porque a questão, suponhamos, de que se é preciso acabar com o latifundiário Wrangel e de que para isto são necessários sacrifícios, uma tal questão não requer propaganda especial; mas quanto à questão do papel dos sindicatos na produção - se considera não o problema "de princípio", não as divagações sobre o "trade-unionismo soviético" e outras ninharias, mas o aspecto prático do problema -, não fomos além de começar a elaborá-la, nada mais fizemos do que recriar a instituição para realizar a propaganda na esfera da produção; ainda não temos experiência. Estabelecemos os prémios em espécie, mas ainda necessitamos e experiência. Criamos os tribunais disciplinadores, mas ainda desconhecemos os seus resultados. E do ponto de vista político, o mais importante é, certamente, s preparação das massas. A questão, sob este ponto de vista, já foi estudada, meditada, balanceada? Absolutamente. E nisto está o erro político radical, profundíssimo e perigoso, porque nesta questão, mais que em qualquer outra, é preciso actuar segundo a regra que diz: "medir sete vezes antes de cortar"; mas puseram-se a cortar de sem haver medido uma só vez. Dizem que "o Partido deve escolher entre duas tendências", mas não mediram ainda uma só vez e passaram a inventar a falsa palavra de ordem da "democracia na produção".

    É preciso compreender o significado desta palavra de ordem, sobretudo num momento político em que a burocracia aparece diante das massas com toda a clareza e quando colocamos na ordem do dia a questão relacionada com isto. O camarada Trotsky diz nas teses que, quanto à questão da democracia operária, ao Congresso "não lhe resta mais do que registar o seu parecer unânime". Isto é falso. Não basta registar; registar significa sancionar o que foi bem balanceado e medido, enquanto que a questão de democracia na produção ainda está muito longe de haver sido balanceada a fundo, não está experimentada, não está comprovada. Pensai na interpretação que as massas podem dar, quando se proclama a palavra de ordem da "democracia na produção".

    "Nós, homens médios, homens da massa, dizemos que é preciso renovar, que é preciso corrigir, que é preciso derrubar os burocratas, e tu tratas de desorientar-nos dizendo que nos dediquemos a produção, que destaquemos a democracia nos êxitos da produção; mas eu não quero trabalhar com este pessoal burocrático das administrações, das direcções gerais, etc., mas com outro pessoal." Não deixastes que as massas falassem, assimilassem e pensassem, não deixastes que o Partido adquirisse nova experiência, e já sentis pressa, exagerais o tom e criais fórmulas que são falsas do ponto de vista teórico. E como não serão acentuados estes erros pelos executores excessivamente zelosos! Um dirigente político não responde apenas pelo modo como dirige, mas também por aquilo que fazem os dirigidos por ele. Isto, às vezes, ele não o sabe, e frequentemente não o quer saber, mas a responsabilidade recai sobre ele.

    Passo agora a tratar dos plenos do Comité Central, de Novembro (dia 9) e Dezembro (dia 7), que expressaram todos estes erros não como postulados lógicos, como premissas, como raciocínios teóricos, mas na acção. No Comité Central fez-se uma mistura e uma confusão; era a primeira vez que tal coisa ocorria na história de nosso Partido, durante a revolução, e isto era preciso. A questão reside em que se deu uma divisão, surgiu o grupo "tampão" de Bukharin, Preobrajenski e Serebriakov, o grupo que mais prejuízo causou e que mais embrulhou as coisas.

    
    Recordai a historia da Secção Política Geral do Comissariado do Povo das Vias de Comunicação75 e a do Comité Central do Sindicato do Transporte 76. Na resolução do I Congresso do PC de Toda a Rússia, em Abril de 1920, dizia-se que a Secção Política Geral do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação era criada na qualidade de instituição "temporária", e que "no prazo mais curto possível era necessário passar a normalização da situação. Em Setembro, lia-se: "Passemos a uma situação normal" **. Em Novembro (dia 9) o pleno se reuniu e Trotsky apresentou suas teses, suas divagações sobre o trade-unionismo. Por mais excelentes que fossem algumas de suas frases com respeito a propaganda na esfera da produção, era preciso dizer que tudo aquilo não vinha ao acaso, não tinha sentido prático, constituía um passo atrás e não era possível nos ocuparmos disso no Comité Central do Partido. Bukharin disse: "Isto está muito bem". Pode ser que estivesse muito bem, mas isso não era uma resposta. Depois de acalorados debates foi aprovada uma resolução por dez votos contra quatro, em que se dizia, em forma correcta e cordial, que o próprio Comité Central do Sindicato do Transporte "já havia colocado na ordem-do-dia" a necessidade de "reforçar e desenvolver os métodos da democracia proletária dentro do sindicato". Dizia-se que o Comité Central do Sindicato de Transporte devia "tomar parte activa no trabalho geral do Conselho Central dos Sindicatos da Rússia, fazendo parte dele com os mesmos direitos que os demais sindicatos".

    Qual era a ideia fundamental desta resolução do CC? É clara: " Camaradas do Comité Central do Sindicato do Transporte: cumprir os acordos do Congresso e do CC do Partido não de um modo formal, mas concretamente, para ajudar com vosso trabalho todos os sindicatos, para que não fique nem o rastro da burocracia, de preferência, de vaidades, como a manifestada pelos que dizem: somos melhores que vós, recebemos mais ajuda".

    Depois disto passamos ao trabalho prático. Quando já estava constituída a comissão e se publicara a lista de seus componentes, Trotsky retirou-se dela, impediu o seu funcionamento, não quis colaborar com ela. Por quê? Só havia uma razão: Lutovinov só costuma jogar na oposição. É certo. E Osinski também. Isto é um jogo desagradável, digo conscientemente. Mas isto, por acaso, era um motivo? Osinski organizou perfeitamente a campanha de sementes. Era preciso trabalhar com ele, apesar de sua "campanha oposicionista", e um comportamento como esse, de fazer fracassara comissão, é burocrático, não soviético, não socialista, desatinado e politicamente funesto. No momento em que é necessário estabelecer um limite claro entre os elementos sãos e os elementos nocivos da "oposição", esse comportamento é três vezes desatinado e politicamente funesto. Quando Osinski desencadeia a "campanha oposicionista", digo-lhe: "é uma campanha funesta"; mas quando desenvolve a campanha de sementes, é preciso felicitá-lo. Nunca negarei que Lutovinov comete um erro com sua "campanha oposicionista", da mesma maneira que Ischenko e Shliapnikov, mas isto não é motivo para fazer a comissão fracassar.

    Qual o significado exacto desta comissão? Significava a passagem das divagações com pretensões intelectuais sobre divergências sem substância para um trabalho prático. Propaganda na esfera da produção, prémios, tribunais disciplinadores: disso é que se devia falar, nisso tinha que trabalhar a comissão. Mas foi então que o camarada Bukharin, chefe do "grupo tampão, com Preobrajensk e Serebriakov, vendo a perigos divisão surgida no CC do Partido, pôs-se a criar um tampão, um tal tampão que não encontro um termo parlamentar para qualificá-lo. Se soubesse fazer caricaturas como o camarada Bukharin, mostraria o camarada Bukharin com um balde de petróleo, jogando o liquido no fogo, e poria esta legenda: "O petróleo do tampão". O camarada Bukharin quis criar alguma coisa; não há duvida de que o seu desejo era o mais sincero e "tamponado" possível. Mas não redundou em um tampão, redundou em que não levou em conta o momento político, e, por conseguinte, incorreu em erros teóricos.

    
    Havia necessidade de levar todos esses debates a uma ampla discussão, de ocupar-se de semelhante ninharia e desperdiçar semanas tão preciosas para nós nas vésperas do Congresso do Partido? Durante esse tempo poderíamos ter elaborado o estudo a questão dos prémios, dos tribunais disciplinadores e do entrelaçamento. Teríamos resolvido estas questões com um sentido prático na comissão do CC do Partido. Se o camarada Bukharin queria criar um tampão e não desejava encontrar-se na situação da pessoa que se enganou de porta, teria que haver dito e insistido que o camarada Trotsky não abandonasse a comissão. Se houvesse dito e feito isto, teríamos empreendido um caminho positivo e haveríamos esclarecido, nesta comissão, como deve ser na realidade a direcção unipessoal, como deve ser a democracia, quais são os que devem ser designados para os cargos, etc.

    Prossigamos. Em Dezembro (pleno do dia 7) deu-se o choque com os dirigentes do transporte fluvial e marítimo, que veio agravar o conflito, e como resultado disso no Comité Central do Partido uniram-se oito votos contra os nossos sete. O camarada Bukharin escreveu apressadamente a parte "teórica" da resolução do pleno de Dezembro, tratando de "apaziguar" e de fazer funcionar o "tampão", mas é claro que depois do fracasso da comissão não podia resultar disso nada de proveitoso. É preciso recordar que um dirigente político não responde apenas por sua política, mas também pelo que fazem os que são dirigidos por ele.

    Muito bem, em que consistiu o erro da Comissão Política Geral do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação e do Comité Central do Sindicato dos Transportes? Não consistiu absolutamente em haver aplicado a coerção; ao contrário, nisto reside o seu mérito. Seu erro foi não saber passar, em tempo e sem conflitos, segundo exigia o IX Congresso do PCR, para um trabalho sindical normal, foi não saber adaptar-se, como devia, aos sindicatos, foi não saber ajudá-los, estabelecendo com eles relações em pé de igualdade. Há uma valiosa experiência dos tempos da guerra civil: heroísmo, grande zelo no cumprimento das tarefas, etc. É um aspecto negativo na experiência dos piores elementos dessa mesma época de guerra: a burocracia, a vaidade. As teses de Trotsky, apesar de sua consciência e de sua vontade, não defendem o melhor aspecto da experiência dos tempos de guerra, mas seu aspecto mais negativo. É preciso relembrar que um dirigente político não responde apenas por sua política, como também por aquilo que seus dirigidos façam.

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