Ribeiro Santos

O assassinato de Ribeiro Santos

A primeira coisa que eu gostaria de recordar aqui é que o Partido, na altura, qualificou o assassinato do Ribeiro Santos com uma frase que eu acho que sintetiza tudo e que foi “o revisionismo apontou o alvo, e o fascismo premiu o gatilho”. E foi efectivamente isso que se passou!

Para aqueles que estão na sala, e que não o sabem, num Meeting contra a repressão, numa reunião de estudantes em Económicas para discutir o movimento de pressão muito forte o fascismo, na luta contra a guerra colonial – foi descoberto um individuo que rapidamente percebemos que era um bufo.
Isto, visto que não só o nosso faro anti-bufo era muito apurado, como porque, tendo ele sido agarrado, e tendo dito que era estudante de Agronomia, facilmente se percebeu que não era.
E portanto ele foi logo imobilizado, e foi-lhe metido um capuz na cabeça para não lhe permitir identificar quem falava.
Ora quando nós estávamos a discutir o que é que devia ser feito, entraram pelo anfiteatro (que hoje já não existe) dentro dois indivíduos da direcção da associação de estudantes (que mais tarde soubemos que tinham tido a ideia que se ligasse para a PIDE, para pedir à PIDE que viesse dizer se o PIDE era ou não PIDE?!), o secretário do Instituto, e dois agentes da PIDE, que já vinham com as armas engatilhadas para matar.
Como se viu pouco tempo depois.

Uma posição que os militantes e simpatizantes do Partido tinham face à repressão, e que era a mesma posição que tinham quanto ao porte na polícia, era a de, não falar, não pactuar. Combater sempre. Seguindo o exemplo dado por Ribeiro Santos, nós atiramo-nos aos PIDES; o primeiro foi logo imobilizado, o segundo estava praticamente imobilizado também, quando os mesmos que tinham trazido os PIDES para dentre do auditório desataram a gritar “calma, calma”, e isso gerou uns brevíssimos segundos de alguma hesitação, e foi o tempo suficiente para o PIDE conseguir sacar da arma e disparar dois tiros no peito do Camarada Ribeiro Santos. Nessa altura, o José Lamego atirou-se a ele, agarrou-lhe a mão, e o PIDE foi disparando sempre, e sempre, até ter conseguido virar a arma contra a coxa do próprio José Lamego e lhe ter dado um tiro também. O PIDE tinha uma pistola Walter 9mm, e um tiro de uma arma daquelas tem um enorme poder de derrube, e o José Lamego, apesar de ter uma forte constituição, caiu. O PIDE apontou-lhe então a arma à cabeça e puxou o gatilho e a gente sentiu a arma a bater em seco, isto é, só não matou a segunda pessoa porque já não tinha mais balas.

O Camarada Ribeiro Santos faleceu algumas horas depois e o José Lamego esteve internado sob prisão em S. José, até ter tido alta clínica e ter sido levado para Caxias e aí ser sujeito à tortura do sono durante três meses.
O Partido definiu assim exactamente aquilo que se passou, ou seja, são os revisionistas da Direcção de Económicas que trazem a PIDE para o dentro do auditório, são os revisionistas que acham era demais atacarmos os PIDES e que deveríamos “ter calma”, e que aliás depois do assassinato procuraram justificar o ocorrido com o facto de as pessoas do MRPP terem sido “histéricas”. Há mesmo umas declarações prestadas no processo que decorreu em Tribunal Militar, e ainda um dia havemos de deitar as mãos a isso, pois é um documento para memória futura de denúncia do que é o comportamento desses indivíduos, que foram para o próprio processo atribuir as culpas do assassinato, não aos PIDES, mas aos elementos do MRPP que segundo eles teriam tido a tal reacção “histérica”.
E nós não devemos esquecer estas coisas, porque não devemos permitir não só que a história seja reescrita, como também que as responsabilidades sejam apagadas.

Ora, porque é que foi um jovem que foi a vítima de um assassinato da PIDE? Eu julgo que importaria nós, não é perdermos, é ganharmos alguns minutos a pensar sobre isso. Foi um jovem, exactamente porque naquela altura os jovens estavam a assumir um papel importante. Não sendo uma classe operaria mas, dada a sua posição na sociedade, dada a sua natural generosidade, e natural predisposição para lutar, e se revoltar contra o que é injusto, os jovens estavam a assumir um papel crescente na luta pela liberdade e democracia e na luta contra o regime fascista, contra a guerra colonial.

Mas porque é que foi um jovem militante marxista-leninista? Exactamente porque eram os marxistas-leninistas que estavam na primeira linha desse combate, do combate contra a guerra colonial, do combate contra o fascismo e contra a repressão.
Aliás – já referi isto várias vezes, mas volto a referi-lo porque isto tem muita importância para os tempos actuais – a primeira coisa que me fez aproximar do Partido foi esta: tinha desembarcado na Faculdade de Direito de Lisboa com dezasseis anos de idade, e tinha começado então a assistir a uns debates que eu ao princípio não percebia muito bem (a experiencia que tinha era a do movimento associativo do ensino secundário, e da grande manifestação contra a Guerra do Vietnam em 1968, para além das tradições de luta política da família). Mas o importante foi ter-me deparado com uma pessoa que não só tinha uma capacidade de argumentação absolutamente demolidora (nessa altura o grande representante do P“C”P na Faculdade de Direito era o Alberto Costa, veja bem as voltas que o Mundo dá…), como tinha um humor verdadeiramente “homicida”, mas por outro lado aliava isso a uma enorme capacidade de persuasão e de explicação da razão de ser dos seus respectivos argumentos, e de saber trazer para o seu lado quem ao princípio não o percebia, ou até discordava desses seus argumentos. E essa alguém era precisamente o Camarada Ribeiro Santos!

E assim foi um jovem, e foi um jovem marxista-leninista, que tombou às balas da PIDE exactamente por serem os marxistas-leninistas que estavam na primeira linha desses combates.
Mas se esse assassinato foi uma coisa terrível, enquanto acontecimento pessoal, a verdade também é que o Partido e o Povo souberam fazer desse assassinato algo que o regime fascista nunca mais recuperou, e eu acho que isto é outra lição que também nós devemos reter para os dias de hoje. De facto, uma coisa má, que foi evidentemente o assassinato do nosso Camarada, acabou por ter consequências boas no sentido de que suscitou uma mobilização do Povo como nunca se tinha visto na Cidade de Lisboa, e mesmo no País inteiro.É preciso dizer que o Governo mobilizou todas as forças da repressão para os dias que mediaram entre o assassinato (que foi uma quinta-feira ao final da tarde) e o funeral que no sábado a seguir ao almoço. Houve ameaças de toda a ordem, designadamente aqueles comunicados habituais do Ministério do Interior a garantir que a ordem pública iria ser inquebrantavelmente mantida, um enorme arsenal policial e repressivo no dia do funeral, desde “choques”, polícias cães, cães polícias, em redor do então Largo de Santos, hoje largo Ribeiro Santos, um ataque violentíssimo sobre as massas, que foi até ao largar dos cães junto à Rocha Conde de Óbidos, o assalto sucessivo para cima dos elementos das massas e do Partido, que queriam entrar no Cemitério da Ajuda. E, no entanto, ali estiveram dezenas de milhares de pessoas, horas contínuas em luta contra a pressão, combatendo assim todos aqueles pontos de vista revisionistas de que a “repressão é insensível”, “a longa noite negra do fascismo”, “não podemos fazer outra cosia que não seja agacharmo-nos”, “isto não tem saída”, “isto é impossível”, “não podemos fazer outra coisa que não seja de facto comer e calar”.

E, no entanto, exactamente o que se seguiu foi o caminho exactamente oposto a essa lamechice e impotência reaccionárias, e o regime fascista nunca mais recuperou dessa heróica jornada de luta.

 

Garcia Pereira - Sessão Política do Partido - 12 de Outubro de 2011

 

Veja aqui o vídeo

Luta Popular on line

Aceda ao Luta Popular e fique
a par das últimas noticias:

Biblioteca Vermelha

Um redobrado empenho no estudo do marxismo, dos textos em que se condensa a experiência histórica das revoluções passadas e também daqueles em que se perspectivam novos combates pelo socialismo e pelo comunismo, constitui hoje um dever indeclinável de todos os revolucionários.

Entrar na Biblioteca Vermelha

 

Ribeiro Santos

A morte de Ribeiro Santos (durante uma reunião de estudantes contra a repressão fascista de Caetano, realizada em 12 de Outubro de 1972 na Faculdade de Ciências Económicas e Financeiras de Lisboa) constituiu um marco decisivo e de viragem no movimento popular e revolucionário contra a ditadura e a guerra colonial-imperialista que viria a atingir o seu auge em 1974.