Lenine - Que Fazer?

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Que fazer? - Anexo: sobre a unificação do Iskra e do Rabotcheie Dielo

 

     Resta-nos analisar a táctica que o Iskra adoptou e sistematicamente praticou nas relações de organização com o Rabótcheie Dielo, táctica que já foi perfeitamente explicada num artigo dos Iskra, no nº 1, sobre a "Cisão da União dos Sociais-Democratas Russos no Estrangeiro". Adoptámos imediatamente o ponto de vista de que a verdadeira "União dos Sociais-Democratas Russos no Estrangeiro", reconhecido no primeiro congresso do nosso Partido pelo delegado no estrangeiro, se cindiu em duas organizações; que a questão da representação do Partido permanece aberta, sendo resolvida apenas provisória e condicionalmente pelo facto de dois membros representantes da Rússia terem sido designados para o Conselho Socialista Internacional Permanente, um por cada parte da "União" dividida.

     Declarámos que, no fundo, o Rabótcheie Dielo estava errado, deliberadamente nos colocámos, por princípio, ao lado do grupo "Libertação do Trabalho" e, recusando ao mesmo tempo entrar nos detalhes da cisão, assinalámos o mérito da "União" em relação ao trabalho puramente prático. A nossa posição, portanto, era até certo ponto uma posição de expectativa: concordáramos com a opinião que dominava entre a maioria dos sociais-democratas russos - de que mesmo os inimigos mais declarados do "economismo" podiam trabalhar de mãos dadas com a "União", tendo esta proclamado mais de uma vez a sua concordância de princípios com o grupo "Libertação do Trabalho", sem pretender (parecia), afirmar o seu carácter de independência nas questões fundamentais da teoria e da táctica. A correcção da posição que adoptámos foi confirmada, indirectamente, pelo seguinte facto: quase ao mesmo tempo que aparecia o primeiro número do Iskra (Dezembro de 1900), três membros separavam-se da "União" para formar o que se chamou "Grupo de Iniciadores", e dirigiram-se: 1. à secção do estrangeiro da organização do lskra, 2. à organização revolucionária "social-democrata" e 3. à "União", para oferecer a sua mediação nas negociações de reconciliação. As duas primeiras organizações concordaram imediatamente, a terceira recusou. A verdade é que quando um orador expôs estes factos no congresso de "unificação" do ano passado, um membro da administração da "União" declarou que tal recusa se devia exclusivamente ao facto de a "União" estar descontente com a composição do "Grupo de Iniciadores". Julgando ser meu dever participar nessa explicação, não posso, contudo, deixar de notar, da minha parte, que considero tal explicação insuficiente: conhecendo o acordo das duas organizações para estabelecer as conversações, a "União" poderia dirigir-se a elas, através de outro intermediário ou directamente. Na Primavera de 1901, a Zaria (nº 1, Abril) e o Iskra (nº 4, Maio) deram início a uma polémica directa contra o Rabótcheie Dielo. O Iskra atacou sobretudo a "Viragem Histórica" do Rabótcheie Dielo que,  na sua edição de Abril e portanto depois dos acontecimentos da Primavera, se mostrou hesitante quanto ao entusiasmo pelo terror e os apelos "sanguinolentos". Apesar dessa polémica, a "União" aceitou o reinício das negociações para a reconciliação através da mediação de um novo grupo de "conciliadores". Uma conferência preliminar, composta por representantes das três organizações acima citadas realizou-se no mês de Junho e elaborou um projecto de tratado na base de um "acordo de princípios", bastante detalhado, que a "União" fez imprimir na brochura "Documentos do Congresso de Unificação". O conteúdo desse acordo de princípios (ou resoluções da conferência de Junho, como é chamado mais frequentemente) mostra com toda a clareza que colocávamos como condição expressa dessa Unificação, a negação definitiva de todas as manifestações de oportunismo em geral, e de oportunismo russo em particular. Diz o primeiro parágrafo: "Repudiamos qualquer tentativa de levar o oportunismo à luta de classe do proletariado, tentativa que está traduzida no que se chama de "economismo", bernsteinismo, millerandismo, etc." "A actividade da social-democracia compreende... a luta ideológica contra todos os adversários do marxismo revolucionário" (§ 4, letra c). "Em todas as esferas do trabalho de organização e de agitação, a social-democracia não deve perder de vista por nenhum instante a tarefa imediata do proletariado russo: o derrube da autocracia" (§ 5, letra a); ... "a agitação não apenas no campo da luta quotidiana dos assalariados contra o capital" (§ 5, b); "não reconhecendo... a fase da luta puramente económica e da luta pelas reivindicações políticas específicas" (§3, c);... "Consideramos importante para o movimento a crítica das tendências que erigem em princípio.... o carácter elementar e a estreiteza das formas internas do movimento" (§5, d). Mesmo a pessoa mais desinteressada, após ler com alguma atenção estas resoluções, verá pela própria maneira como foram formuladas, que visam aqueles que se mostraram oportunistas e "economistas"; que esqueceram, por um instante, a tarefa de derrubar a autocracia; que reconheceram a teoria dos estádios, erigida em princípio de estreiteza etc. E quem conhece, ainda que pouco, a polémica estabelecida contra o Rabótcheie Dielo pelo grupo "Libertação do Trabalho", a Zaria e o Iskra, não pode duvidar sequer um instante que essas resoluções rejeitam, ponto por ponto, exactamente os erros em que o Rabótcheie Dielo incorreu. Por isso, quando os membros da "União" declararam ao congresso de "unificação" que os artigos inseridos no nº 10 do Rabótcheie Dielo não eram consequência da nova "viragem histórica" da "União", mas, do carácter desmesuradamente "abstracto" das resoluções, um orador teve toda razão de zombar disso. As resoluções estão longe de ser abstractas, respondeu ele; são extremamente concretas; basta um simples olhar para compreender que se queria "apanhar alguém". Esta última expressão daria origem, no congresso, a um episódio caracterizador. De um lado, B. Kritchévski agarrou-se à palavra "apanhar", acreditando que se tratava de um lapso que denunciaria más intenções da nossa parte ("armar uma cilada"), e gritou pateticamente: "Quem é que se queria apanhar? - "Sim, quem?", perguntou Plekhanov, irónico. " Vou suprir a deficiência de perspicácia do camarada Plekhanov", respondeu B. Kritchévski, "vou-lhe explicar quem se queria apanhar: a redacção do "Rabótcheie Dielo" (riso geral). "Mas não nos deixamos apanhar!" (exclamações à esquerda: "pior para vocês!"). De outro lado, o membro do grupo "Borba" (grupo de conciliadores), falando contra as emendas da "União" às resoluções e desejoso de defender o nosso orador, declarou que a palavra "apanhar" tinha sem dúvida escapado por acaso, no fogo da polémica. Da minha parte, imagino o que semelhante "defesa" custaria ao orador que fez uso da expressão. Penso que as palavras "queria-se apanhar alguém" "foram pronunciadas em tom de brincadeira, mas levadas a sério": sempre acusámos o Rabótchiei Dielo de instabilidade e vacilações. Portanto, é natural que se tenha desejado apanhá-lo, para tornar as vacilações impossíveis no futuro. Quanto às más intenções, tal não era a questão, pois tratava-se da instabilidade de princípios. E conseguimos "apanhar": a "União" assumiu tanta camaradagem que as resoluções de Junho foram assinadas pelo próprio B. Kritchévski e um outro membro da administração da "União". Os artigos do nº 10 do Rabótcheie Dielo (os nossos camaradas só puderam ver esse número quando chegaram ao congresso, alguns dias antes da abertura das sessões) mostraram nitidamente que, entre o Verão e o Outono, uma nova "viragem" ocorrera na "União": os "economistas" haviam tomado a dianteira, outra vez, e a redacção, que voga "ao sabor do vento", recomeçara a defender "os bernsteinianos mais declarados", a "liberdade de crítica" e a "espontaneidade", e a pregar pela boca de Martynov a "teoria da restrição" da esfera da nossa influência política com o objectivo de, pretensamente, acentuar essa influência). A justa observação de Parvus, de que não é difícil apanhar um oportunista com a armadilha de uma simples assinatura, mais uma vez foi confirmada: facilmente ele assinará qualquer papel, e com a mesma facilidade negará tal assinatura, pois o oportunismo contém em si exactamente a ausência de princípios determinados e firmes. Hoje os oportunistas repudiam qualquer tentativa de introduzir o oportunismo e todo o tipo de estreiteza, prometendo solenemente "não esquecer um só instante a derrube da autocracia", fazer "a agitação não só contra o capital" etc. etc. E amanhã mudarão o discurso e retomarão os velhos métodos sob o pretexto de defender a espontaneidade, a marcha progressiva da obscura luta quotidiana, exaltando as reivindicações que deixam entrever resultados tangíveis etc.. Continuando a afirmar que nos artigos do nº 10 a "União" não via, nem vê, qualquer digressão herética dos princípios gerais que fundamentaram o projecto da conferência (Dois Congressos, p. 26), manifesta assim apenas total incapacidade ou recusa de compreender a essência das divergências. Após o nº 10 do Rabótcheie Dielo só nos resta mais uma única tentativa: estabelecer uma discussão geral para nos certificarmos se toda a "União" está solidária com esses artigos e com seu comité de redacção. E é isto que desagrada particularmente à "União": acusa-nos de querermos semear a discórdia dentro dela, de nos intrometermos onde não somos chamados etc. Acusações gratuitas, evidentemente, pois com uma redacção eleita, que "vira" à mais ligeira brisa, tudo depende de que lado sopra a brisa, e nós determinámos tal orientação em privado, onde não havia senão membros das organizações que desejavam unir-se. A proposta feita em nome da "União" sobre as emendas às resoluções de Junho dissolveu a nossa última esperança de entendimento. Tais emendas confirmaram o facto de a nova "viragem" ser em direcção ao "economismo" e de a solidariedade da maioria da "União" ser com o nº 10 do Rabótcheie Dielo. Do conjunto dessas manifestações de oportunismo, eliminava-se o que se chama de "economismo" (por causa da pretensa "indeterminação do sentido" dessas palavras embora disso decorra a necessidade se definir com maior precisão a essência do erro amplamente difundido); eliminava-se também o "millerandismo" (embora B. Kritchévski o tenho defendido no Rabótcheie Dielo nº 2-3, p. 83-83, e de forma ainda mais explícita no Vorwarts). Apesar das resoluções de Junho indicarem com precisão a tarefa da social-democracia - "dirigir as menores manifestações da luta do proletariado contra todas as formas de opressão política, económica e social' - exigindo assim que a unidade e o espírito de método sejam levados a tais manifestações de luta, a "União" acrescentava frases completamente inúteis, dizendo que "a luta económica estimulava vigorosamente o movimento de massa" (essas palavras, em si mesmas, estão fora de discussão, mas devido à existência de um "economismo" estreito levariam inevitavelmente a falsas interpretações). Ainda mais, nas emendas às resoluções de Junho chegava-se a restringir a "política", eliminando-se as palavras "um instante" (não esquecer o objectivo do derrube da autocracia) e acrescentando que "a luta económica é o meio mais amplamente aplicável para integrar as massas na luta política activa". Compreende-se que, após a introdução destas emendas, todos os nossos oradores se tenham recusado a falar, considerando que era totalmente inútil prosseguir as negociações com homens que de novo tendiam para o "economismo" e asseguravam a liberdade de vacilação. "O que a "União" considerou precisamente como a condição sine qua non da solidez do futuro acordo, isto é, a conservação do carácter de independência e de autonomia do Rabótcheie Dielo , o Iskra considerou como obstáculo para a realização desse mesmo acordo" (Dois Congressos, p. 25). Isto é por demais inexacto. Nunca atentámos contra a autonomia do Rabótcheie Dielo. Efectivamente, negámos categoricamente o seu carácter independente, se por isso se entende o "carácter de independência" nas questões de princípio em matéria de teoria e de táctica: as resoluções de Junho implicam justamente a negação absoluta de tal independência, pois essa "independência" sempre significou na prática, repetimos, todo o tipo de vacilações e o apoio ao estado de dispersão de forças em que nos encontramos, e que é insuportável do ponto de vista do Partido. Pelos artigos do nº 10 e pelas suas "emendas", o Rabótcheie Dielo demonstrou claramente o desejo de preservar essa independência de carácter; ora, esse desejo conduziu, natural e inevitavelmente, à ruptura e à declaração de guerra. Mas estávamos prontos a reconhecer "a independência de carácter" do Rabótcheie Dielo, no sentido de que devia dedicar-se a fundações literárias nitidamente determinadas. A distribuição judiciosa dessas funções impunha-se por si própria: 1. revista científica, 2. jornal político, e 3. compilações e brochuras de divulgação. Só o facto de concordar com tal distribuição poderia provar o sincero desejo do Rabótcheie Dielo de acabar de uma vez por todas com os equívocos das resoluções de Junho, apenas tal distribuição eliminaria os atritos eventuais e asseguraria de facto a solidez do acordo, servindo ao mesmo tempo de base a um novo impulso do nosso movimento e a novos sucessos. Não existe um único social-democrata russo que duvide que a ruptura definitiva da tendência revolucionária com a tendência oportunista se deveu não a causas de "organização", mas exactamente, ao desejo manifestado pelos oportunistas de consolidar o carácter de independência do oportunismo, e de continuar a lançar a confusão nos espíritos através dos raciocínios à la Kritchévski e à la Martynov.

Redigido no Outono de 1901-Fevereiro de 1902. Publicado pela primeira vez em brochura, em Março de 1902. 


Que fazer? - Prefácio

 

     De acordo com a intenção original do autor, este trabalho que apresentamos ao leitor devia ser dedicado ao desenvolvimento detalhado das ideias expostas no artigo "Por onde começar?" (Iskra, n.º 4, Maio de 1901). Antes de tudo, devemos desculpar-nos perante o leitor pelo atraso verificado no cumprimento da promessa feita nesse artigo (e repetida em resposta a numerosas perguntas e cartas particulares).

     Uma das razões desse atraso foi a tentativa de unificação de todas as organizações sociais-democratas no estrangeiro, empreendida em Junho do ano passado (1901). Seria natural que se aguardasse os resultados dessa tentativa, pois, se tivesse êxito, talvez fosse preciso expor sob um ângulo um pouco diferente os pontos de vista do Iskra em matéria de organização; em todo o caso, o êxito de tal tentativa teria permitido pôr termo, de modo bastante rápido, à existência de duas tendências na social-democracia russa. Como o leitor não ignora, essa tentativa fracassou e, como procuraremos demonstrar mais adiante, não poderia ter outro fim após a mudança inesperada do Rabótcheie Dielo,  no seu número 10, em direcção ao "economismo".

     Tornou-se absolutamente necessário empreender uma luta decisiva contra esta tendência vaga e pouco determinada, porém tanto mais persistente e susceptível de renascer sob as mais variadas formas. Desse modo, o plano inicial deste trabalho foi modificado e consideravelmente ampliado. O tema principal deveria abranger as três questões propostas no artigo "Por onde começar?", ou seja: o carácter e o conteúdo essencial de nossa agitação política; as nossas tarefas de organização, o plano para a construção de uma organização de combate para toda a Rússia dirigido simultaneamente para diversos fins. Desde há muito tais problemas vêm interessando ao autor, que já procurou abordá-los na Rabótchaia Gazeta, numa das tentativas malogradas de se renovar essa publicação (ver cap. V). Contudo, a minha intenção inicial de me limitar, neste trabalho, somente à análise dessas três questões e de expor os meus pontos de vista, sempre que possível, de forma positiva evitando recorrer à polémica, tornou-se completamente impraticável por duas razões. Por um lado, o "economismo" revelou-se muito mais forte do que o supúnhamos (empregamos o termo "economismo" em sentido amplo, como foi explicado no artigo do, Iskra, n.º. 12, Dezembro de 1901: "Uma conversa com os defensores do economismo", artigo que traça por assim dizer, o esboço do trabalho que apresentamos ao leitor). Hoje é inegável que as diferentes opiniões a respeito desses três problemas explicam-se muito mais pela oposição radical entre as duas tendências na social-democracia russa, do que pelas divergências quanto a detalhes.

     Por outro lado, a perplexidade suscitada entre os "economistas" pela exposição metódica dos nossos pontos de vista no Iskra evidenciou que, frequentemente, falamos línguas literalmente diferentes e que, por conseguinte, não podemos chegar a qualquer acordo se não começarmos de novo.  

     O que era necessário tentar? Uma explicação metódica tão popular quanto possível, ilustrada com exemplos concretos muito numerosos, com todos os "economistas", sobre todos os pontos capitais das nossas divergências. E resolvi tentar tal "explicação", compreendendo perfeitamente que ela aumentaria consideravelmente as dimensões deste trabalho e retardaria o seu aparecimento, mas não encontrei outro meio de cumprir a promessa feita no artigo "Por onde começar?".

     Às desculpas por esse atraso, é necessário acrescentar outras quanto à extrema insuficiência da forma literária deste trabalho: tive de trabalhar com a maior das pressas e, para além disso, foi interrompido frequentemente por toda a sorte de outros trabalhos. A análise das três questões indicadas anteriormente continua a ser o objecto deste trabalho, mas tive de começar por duas outras questões de ordem mais geral: por que razão uma palavra de ordem tão "inofensiva" e "natural" como "liberdade de crítica" constitui para nós um verdadeiro grito de guerra? Por que não podemos chegar a um acordo, nem sequer sobre a questão fundamental do papel da social-democracia em relação ao movimento espontâneo das massas? Além disso, a exposição dos meus pontos de vista sobre o carácter e o conteúdo da agitação política visa explicar a diferença entre a política sindical e a política social-democrata, e a exposição dos meus pontos de vista sobre as tarefas de organização visa a explicar a diferença entre os métodos artesanais de trabalho, que satisfazem os "economistas", e a organização dos revolucionários que consideramos indispensável.

     Em seguida, insisto mais uma vez sobre o "plano" de um jornal político para toda a Rússia, pois as objecções que têm sido feitas a esse respeito são inconsistentes e não respondem à natureza da questão proposta no artigo "Por onde começar?": como poderemos empreender, simultaneamente e por toda a parte, a formação da organização de que necessitamos? Enfim, na última parte do trabalho espero demonstrar que fizemos tudo o que dependia de nós para evitar a ruptura definitiva com os "economistas", ruptura que, entretanto, se tornou inevitável; que o Robótcheie Dielo adquiriu uma importância especial, "histórica", se quiserem, porque exprimiu da maneira mais completa e com maior relevo, não o "economismo" consequente, mas a dispersão e as incertezas que constituíram o traço peculiar de todo um período da história da social-democracia russa; que, por conseguinte, apesar de parecer bastante desenvolvida à primeira vista, a polémica com o Rabótcheie Dielo tem a sua razão de ser, pois não podemos seguir em frente sem, liquidar definitivamente esse período.  

                                                                                   Fevereiro de 1902.  


A classe operária e o Neo-malthusianismo

     A questão do aborto tem suscitado o debate no Congresso de Médicos, convocado em memória de Piragov. O relator Lichkus acrescentou dados demonstrativos da extraordinária difusão do aborto nos chamados Estados civilizados modernos.

     Em Nova Iorque, tem-se registado 80.000 abortos por ano, em França registam-se mensalmente até 36.000. Em Petersburgo, a incidência de abortos duplicou em cinco anos.

     O Congresso de Médicos em memória de Piragov decidiu que, em nenhum caso, a mãe incorrerá em responsabilidade criminal pelo aborto voluntário e que os médicos só devem ser sancionados quando se comprove que o motivo que os inspira tenha "finalidades egoístas".

     Nos debates, a maioria, ao pronunciar-se pela impunidade do aborto, tratou, como é natural, a questão do chamado neomathusianismo (medidas artificiais para evitar a gravidez), referindo-se, além disso, ao aspecto social da questão. Por exemplo, o senhor Vigdórchik, segundo o resumo do periódico Rússkoie Stovo, afirmou que "é preciso saudar as medidas anticoncepcionais" e o senhor Astraján perguntou, provocando uma tempestade de aplausos: "devemos persuadir as mães de que devem parir filhos para que logo sejam inutilizados nos centros de ensino, sejam levados ao sorteio de quintas e até lhes faça chegar o suicídio?"

     Se é certa a notícia de que semelhante retórica do senhor Astraján suscitou clamorosos aplausos, esse facto não me espanta. Os ouvintes eram burgueses, pequenos e médios, com uma psicologia de filisteus. O que se pode esperar deles senão o mais vulgar liberalismo?

     Porém, do ponto de vista da classe operária, dificilmente se poderá encontrar uma expressão mais patente do carácter reaccionário e da indigência espiritual do "neo-malthusianismo social" do que as mencionadas palavras do senhor Astraján.

     "...Parir filhos para que logo os inutilizem...". Somente para isso? Por que não para que lutem melhor, mais unidos, de um modo mais consciente e com maior energia do que nós contra as actuais condições de vida que mutilam e inutilizam a nossa geração?

     Nisto consiste a diferença radical entre a psicologia do camponês, do artesão, do intelectual, do pequeno burguês em geral e a psicologia do proletário. O pequeno burguês vê e constata que sucumbe; que a vida se torna cada vez mais difícil; que a luta pela existência é cada vez mais impiedosa e que a sua situação e a de sua família se torna mais desesperante a cada dia que passa. O facto é indiscutível. E o pequeno burguês protesta contra isso.

     Porém, como protesta?

     Protesta como representante de uma classe que perece sem remissão e perdeu toda a esperança no seu futuro; de uma classe submissa e cobarde. Tudo é inútil; a única solução é ter menos filhos que sofram as nossas penas e calamidades, a nossa miséria e as nossas humilhações: este é o clamor do pequeno burguês.

     O operário consciente está bem longe de tal ponto de vista. Não consentirá que obscureçam sua consciência com tais lamúrias, por mais sinceras e sentidas que sejam. Também nós, operários e a massa de pequenos proprietários, arrastamos uma existência marcada pelo estigma de um jugo e pelo sofrimento insuportável. Para a nossa geração, a vida é mais dura do que foi para os nossos pais, porém, num sentido, somos muito mais afortunados que eles: temos aprendido e estamos a aprender com rapidez a lutar e a lutar não sozinhos, como lutaram os melhores dos nossos antecessores, em nome das palavras de ordem de nossa própria classe. Lutamos melhor que os nossos pais. Os nossos filhos lutarão ainda melhor e vencerão.

     A classe operária, longe de perecer, cresce, revigora-se, amadurece, une-se, instrui-se e forma-se na luta. Somos pessimistas com respeito ao regime de servidão, ao capitalismo e à pequena produção, porém, somos fervorosamente optimistas no que respeita ao movimento operário e aos seus fins. Já estamos a assentar os tijolos do novo edifício e os nossos filhos rematarão a obra.

     Por isso - e somente por isso - somos incondicionais inimigos do neo-malthusianismo, desta corrente de casais defensores do poder da classe média, antiquados e egoístas: vivamos nós como pudermos e melhor será não ter filhos.

     Naturalmente, isto não nos impede, de modo algum, de exigir a abolição absoluta de todas as leis que castigam o aborto ou a difusão de obras de medicina, nas quais se expõem medidas anticoncepcionais etc. Semelhantes leis não indicam senão a hipocrisia das classes dominantes. Estas leis não curam as doenças do capitalismo, mas fazem-nas particularmente malignas e perniciosas para as massas oprimidas. Uma coisa é a liberdade da propaganda médica e a protecção dos direitos democráticos elementares do cidadão e da cidadã, e outra coisa é a doutrina social do neo-malthusianismo. Os operários conscientes sustentarão sempre a luta mais implacável contra as tentativas de impor esta doutrina reaccionária e medrosa à classe social contemporânea mais avançada, mais forte e mais preparada para as grandes transformações.


Que fazer? II - A espontaneidade das massas e a consciência da social-democracia

 

     Dissemos que era necessário desenvolver o nosso movimento, infinitamente maior e mais profundo que aquele de 1870-1880, com o mesmo espírito de decisão e a mesma energia sem limites. De facto, até ao presente parece que ninguém ainda duvidou de que a força do movimento actual está no despertar das massas (e principalmente do proletariado industrial), e de que a sua fraqueza reside na falta de consciência e de espírito de iniciativa dos dirigentes revolucionários.

     Nestes últimos tempos, contudo, foi feita uma descoberta espantosa, que ameaça subverter todas as ideias adquiridas sobre este ponto. Esta descoberta é obra do Rabótcheie Dielo que,  na sua polémica com o Iskra e a Zaria, não se limitou a objecções particulares e tentou reconduzir o "desacordo geral" à sua raiz mais profunda: a uma "apreciação diferente da importância relativa do elemento espontâneo e do elemento conscientemente metódico". A tese de acusação do Rabótcheie Dielo expressa-se da seguinte forma: "subestimação da importância do elemento objectivo ou espontâneo do desenvolvimento".  Ao que respondemos: essa tese é tão significativa que, se a polémica  com o Iskra e a Zaria não tivesse outro resultado senão o de levar o Rabótcheie Dielo a descobrir esse "desacordo geral", esse resultado, por si só, dar-nos-ia grande satisfação, pois esclarece nitidamente o fundo das divergências teóricas e políticas que dividem, hoje, os sociais democratas russos.

     Além disso, a questão das relações entre a consciência e a espontaneidade tem um enorme interesse geral, e exige um estudo detalhado.

a) Ascensão do espontaneismo

     No capítulo anterior assinalámos o entusiasmo generalizado da juventude russa instruída pela teoria marxista, por volta de 1895. Foi também nessa mesma época, que as greves operárias, após a famosa guerra industrial de 1896 em Petersburgo, se revestiram de um carácter geral. A sua expansão por toda a Rússia atestava claramente a profundidade do movimento popular que de novo surgia, e se falamos do "elemento espontâneo", é certamente nesse movimento de greves que devemos, antes de tudo, considerá-lo. Mas, há espontaneidade e espontaneidade. Houve, na Rússia, greves nas décadas de 1870 e 1880 (e mesmo na primeira metade do século XIX), que foram acompanhadas da destruição "espontânea" de máquinas etc. Comparadas a esses "tumultos", as greves após 1890 poderiam mesmo ser qualificadas de "conscientes", tal foi o progresso do movimento operário nesse intervalo. Isto mostra-nos que o "elemento espontâneo", no fundo, não é senão a forma embrionária do consciente. Os tumultos primitivos já traduziam um certo despertar da consciência: os operários, perdiam a sua crença costumeira na perenidade do regime que os oprimia; começavam... não direi a compreender, mas a sentir a necessidade de uma resistência colectiva, e rompiam deliberadamente com a submissão servil às autoridades. Era, portanto, mais uma manifestação de desespero e de vingança que de luta. As greves após 1890 mostram-nos melhor a emersão da consciência: formulam-se reivindicações precisas, procura-se prever o momento favorável, discutem-se certos casos e exemplos de outras localidades etc. Se os tumultos constituíam simplesmente a revolta dos oprimidos, as greves sistemáticas já eram o embrião mas, nada além do embrião - da luta da classe. Tomadas em si mesmas, essas greves constituíam uma luta sindical, mas não ainda social-democrata; marcavam o despertar do antagonismo entre operários e patrões; porém, os operários não tinham, e não podiam ter, consciência da oposição irredutível dos seus interesses a toda a ordem política e social existente, isto é, a consciência social-democrata. Nesse sentido, as greves após 1890, apesar do imenso progresso que representaram em relação aos "tumultos", continuavam a ser um movimento essencialmente espontâneo.

     Os operários, já dissemos, não podiam ter ainda a consciência social-democrata. Esta só podia chegar até eles a partir de fora. A história de todos os países atesta que, pelas próprias forças, a classe operária não pode chegar senão à consciência sindical, isto é, à convicção de que é preciso unir-se em sindicatos, conduzir a luta contra os patrões, exigir do governo essas ou aquelas leis necessárias aos operários etc. Quanto à doutrina socialista, esta nasceu das teorias filosóficas, históricas, económicas elaboradas pelos representantes instruídos das classes proprietárias, pelos intelectuais. Os fundadores do socialismo científico contemporâneo, Marx e Engels, pertenciam eles próprios, pela sua situação social, aos  

intelectuais burgueses. Da mesma forma, na Rússia, a doutrina teórica da social-democracia surgiu de maneira completamente independente do crescimento espontâneo do movimento operário; foi o resultado natural, inevitável do desenvolvimento do pensamento entre os intelectuais revolucionários socialistas. A época de que falamos, isto é, por volta de 1895, essa doutrina constituía não apenas o programa perfeitamente estabelecido do grupo "Libertação do Trabalho", mas também conquistara para si a maioria da juventude revolucionária da Rússia.

     Assim,   houve ao mesmo tempo um despertar espontâneo das massas operárias, despertar para a vida consciente e para a luta consciente, e uma juventude revolucionária que, armada da teoria social-democrata, buscava aproximar-se dos operários. Quanto a isso, é particularmente importante estabelecer este facto esquecido com frequência (e relativamente pouco conhecido), de que os primeiros sociais-democratas desse período, que se dedicavam com ardor à agitação económica (contando, para isso, com as indicações verdadeiramente úteis do folheto "Sobre a Agitação", à época ainda manuscrito) longe de considerar essa agitação como sua tarefa única, atribuíam desde o começo à social-democracia russa as grandes tarefas históricas, em geral, e a tarefa do derrube da autocracia, em particular. Assim, o grupo dos sociais-democratas de Petersburgo, que fundou a "União de Luta para Libertação da Classe Operária" redigiu, já em fins de 1895, o primeiro número de um jornal intitulado Rabótcheie Dielo. Pronto para ser impresso, esse número foi apreendido pela polícia numa busca efectuada na noite de 8 para 9 de Dezembro de 1895, em casa de um dos membros do grupo, Anat. Alex. Vaneiev, de forma que o Rabótcheie Dielo do primeiro período não pôde ver a luz do dia. O editorial desse jornal (que, talvez, em trinta anos uma revista como a Russkaia Starina exumará dos arquivos do departamento da polícia) expunha as tarefas históricas da classe operária na Rússia, entre as quais se colocava em primeiro plano a conquista da liberdade política. Seguiam-se um artigo, "Em que pensam nossos ministros?" sobre o saque dos Comités de instrução elementar pela polícia, bem como uma série de artigos de correspondentes, não só de Petersburgo, como de outras localidades da Rússia (por exemplo, sobre um massacre de operários na província de Iaroslavl). Assim, se não me engano, esse "primeiro ensaio" dos sociais-democratas russos de 1890-1900 não era um jornal estritamente local, e ainda menos de carácter "económico", visava unir a luta grevista ao movimento revolucionário dirigido contra a autocracia e levar todos os oprimidos, vítimas da política do obscurantismo reaccionário, a apoiar a social-democracia. E para quem quer que conheça um pouco o estado do movimento nessa época, está fora de dúvida que um jornal como esse encontrou toda a simpatia dos operários da capital e dos intelectuais revolucionários, e teve a maior difusão. O fracasso do empreendimento provou simplesmente que os sociais-democratas de então eram incapazes de corresponder às exigências do momento, por falta de experiência revolucionária e de preparação prática. O mesmo se deve dizer do Rabótchaia Listok de São Petersburgo, e sobretudo da Rabótchaia Gazeta e do Manifesto do Partido Operário Social-Democrata da Rússia, fundado na primavera de 1898. Subentenda-se que não nos passa pela cabeça a ideia de censurar os militantes da época pela sua falta de preparação. Mas, para aproveitar a experiência do movimento e daí extrair lições práticas, é preciso considerar em toda a extensão as causas e a importância deste ou daquele erro. Por isso, é extremamente importante estabelecer que uma parte (talvez mesmo a maioria) dos sociais-democratas militantes de 1895-1898 considerava, com justa razão, possível naquela época, mesmo no começo do movimento "espontâneo", preconizar um programa e uma táctica de combate mais extensos. Ora, a falta de preparação entre a maior parte dos revolucionários, sendo um fenómeno perfeitamente natural, não podia dar lugar a qualquer apreensão particular. A partir do momento em que as tarefas eram bem definidas; a partir do momento em que se possuía suficiente energia para tentar de novo realizá-las, os fracassos momentâneos constituíam apenas meio mal. A experiência revolucionária e a habilidade de organização são coisas que se adquirem. É preciso apenas desenvolver em nós mesmos as qualidades necessárias! É preciso que tenhamos consciência dos nossos defeitos, o que, no trabalho revolucionário, já é mais que meio caminho para os corrigir.

     Mas, o que era meio mal tornou-se um mal verdadeiro, quando esta consciência começou a obscurecer-se (porém, ela era bastante viva entre os militantes dos grupos acima mencionados), quando surgiram pessoas - e mesmo órgãos sociais-democratas - prontas a erigir os defeitos em virtudes, e tentando mesmo justificar teoricamente a sua idolatria, o seu culto do espontâneo. É tempo de fazer o balanço dessa tendência, caracterizada de maneira muito inexacta pelo termo "economismo", demasiado estreito para exprimir o seu conteúdo.

b) O culto da espontaneidade. "Rabotchaia Mysl"

     Antes de passar às manifestações literárias desse culto, assinalaremos o seguinte facto característico (cuja fonte foi acima mencionada) de um desacordo entre as duas futuras tendências da social-democracia russa que lança uma certa luz sobre o seu nascimento e o seu crescimento entre os camaradas militantes de Petersburgo. No início de 1897, A. Vaneiev e alguns dos seus camaradas tiveram ocasião de participar, antes da sua partida para o exílio, de uma reunião privada, onde se encontraram os "velhos" e os "jovens " membros da "União de Luta para a Libertação da Classe Operária". A conversa girou principalmente sobre a organização e, em particular, sobre os "estatutos das caixas operárias", publicados sob sua forma definitiva no número 9-10 do Listok "Rabótnika" (p. 46). Entre os "velhos" (os "dezembristas", como eram chamados em tom de gracejo pelos sociais-democratas de Petersburgo) e alguns dos "jovens" (que mais tarde colaboraram activamente na Rabótchaia Mysl) manifestou-se logo uma divergência muito nítida, e estabeleceu-se uma ardente polémica. Os "jovens" defendiam os princípios essenciais dos estatutos, tais como tinham sido publicados. Os "velhos" diziam que não era isso o que se colocava em primeiro lugar; que era preciso, inicialmente, consolidar a "União de Luta" para dela fazer uma organização de revolucionários, à qual estariam subordinadas as diversas caixas operárias, os círculos de propaganda entre a juventude das escolas etc. Bem entendido, as duas partes estavam longe de ver nessa divergência o germe de um desacordo; ao contrário, consideravam-na isolada e acidental. Esse facto, porém, mostra que o nascimento e a difusão do "economismo" na Rússia não se fizeram igualmente sem luta contra os "velhos" sociais-democratas (o que os "economistas" de hoje frequentemente esquecem). E se essa luta não deixou, na maior parte dos casos, traços "documentais", é unicamente porque a composição dos círculos em actividade mudava com incrível rapidez, porque não se estabelecera qualquer tradição e porque, em consequência, as divergências de pontos de vista não foram registadas em qualquer documento.

     O aparecimento da Rabótchaia Mysl trouxe o "economismo" para a luz do dia, porém tal não se deu imediatamente. É preciso ter, uma ideia concreta das condições de trabalho e da breve existência de numerosos círculos russos (ora, só quem passou por isso, pode ter ideia exacta das coisas), para compreender quanto teve de fortuito o sucesso ou o fracasso da nova tendência nas diferentes cidades, e a impossibilidade absoluta em que durante muito tempo se encontravam os partidários e os adversários dessa "nova" tendência, de determinar se era realmente uma tendência distinta ou simplesmente a expressão da falta de preparação de alguns. Assim, os primeiros números policopiados da Rabótchaia Mysl permaneceram completamente desconhecidos da imensa maioria dos sociais-democratas, e se agora temos a possibilidade de nos referir ao editorial do seu primeiro número, é unicamente porque tal editorial foi reproduzido no artigo de V.I. (Listok "Rabétnika", n.º. 9-10, p. 47 e seg.), que evidentemente não deixou de louvar com empenho - com empenho inconsiderado - esse novo jornal tão nitidamente diferente dos jornais e projectos de jornais acima citados. Ora, esse editorial exprime com tanto relevo lodo o espírito da Rabótchaia Mysl e do "economismo" em geral, que vale a pena aí nos determos.

     Após ter indicado que o braço fardado de azul não deteria jamais o progresso do movimento operário, o editorial prossegue: "... O movimento operário deve a sua vitalidade ao facto de ser o próprio operário a encarregar-se da sua sorte, arrancando-a das mãos dos seus dirigentes." Esta tese fundamental é, em seguida, desenvolvida nos seus detalhes. Na realidade, os dirigentes (isto é, os sociais-democratas organizadores da "União de Luta") foram arrancados pela polícia, por assim dizer, das mãos dos operários, e querem fazer-nos acreditar que os operários conduziam a luta contra os dirigentes e se libertavam do seu jugo! Em lugar de estimular a marcha para a frente, de consolidar a organização revolucionária e de ampliar a actividade política, incitou-se o retrocesso em direcção à luta exclusivamente sindical. Proclamou-se que "a base económica do movimento está obscurecida pela tendência a jamais esquecer o ideal político", que o lema do movimento operário é "a luta pela situação económica" (!) ou, melhor ainda, "os operários pelos operários"; declarou-se que as caixas de greve "valem mais para o movimento do que uma centena de outras organizações" (que se compare esta afirmação, feita em Outubro de 1897, com a disputa dos "dezembristas" com os jovens, no inicio de 1897) etc. Frases como: é preciso colocar em primeiro plano, não a "nata" dos operários, mas o operário "médio", o operário das fileiras; ou como: "O político segue sempre docilmente o económico" etc. etc., entraram na moda e exerceram influência sobre a  

massa dos jovens seduzidos pelo movimento e que, na maioria, não conheciam senão fragmentos do marxismo, tal como era exposto legalmente.

     Isto constituiu o completo aniquilamento da consciência pela espontaneidade - pela espontaneidade dos "sociais-democratas" que repetiam as "ideias" do Senhor V.V., a espontaneidade dos operários seduzidos pelo argumento de que mesmo um aumento de um copeque por rublo valia mais que todo socialismo e toda política, de que deviam "lutar sabendo que o faziam não por remotas gerações futuras mas por eles próprios e pelos seus filhos" (editorial do n.º. 1 da Rabótchaia Mysl). As frases desse género foram sempre a arma preferida dos burgueses do Ocidente que, odiando o socialismo, trabalhavam (como Hirsch, o "social-político" alemão) para transplantar para os seus países o sindicalismo inglês, e diziam aos operários que a luta exclusivamente sindical  é uma luta por eles próprios e pelos seus filhos, e não por remotas gerações futuras com vistas a um incerto socialismo futuro. E agora os "V.V. da social-democracia russa" põem-se a repetir essas frases burguesas. Aqui, é importante assinalar três pontos que nos serão de grande utilidade para a continuação da nossa análise sobre as divergências actuais.

     Em primeiro lugar, o aniquilamento da consciência pela espontaneidade, de que falamos, também se deu de maneira espontânea. Isto parece um jogo de palavras, mas infelizmente é uma verdade amarga. O que provocou esse aniquilamento não foi uma luta declarada entre duas concepções absolutamente opostas, nem a vitória de uma sobre a outra, mas o desaparecimento de um número cada vez maior de "velhos" revolucionários "colhidos" pelos policiais, e a entrada em cena, cada vez mais frequente, dos "jovens" "V.V. da social-democracia russa". Quem quer que tenha, não direi participado do movimento russo contemporâneo, mas simplesmente respirado o seu ar, sabe perfeitamente que esta é precisamente a situação. E se, apesar disso, insistimos particularmente para que o leitor considere com cuidado esse fato conhecido de todos, se para maior evidência referimo-nos, de algum modo, aos dados sobre o Rabótcheie Dielo do primeiro período, e sobre a discussão entre "jovens" e "velhos" no início de 1897, é porque as pessoas que se gabam de "espírito democrático" especulam sobre a ignorância desse facto pelo grande público (ou entre os adolescentes). Mais adiante, ainda voltaremos a esse ponto.

     Em segundo lugar, desde a primeira manifestação literária do "economismo" podemos observar um fenómeno eminentemente original e extremamente característico para a compreensão de todas as divergências entre sociais-democratas da actualidade: os partidários do "movimento puramente operário", os adeptos da ligação mais estreita e mais "orgânica" (expressão do Rab. Dielo) com a luta proletária, os adversários de todos os intelectuais não operários (ainda que fossem intelectuais socialistas) foram obrigados, para defender sua posição, a recorrer aos argumentos burgueses "exclusivamente sindicais". Isto nos mostra que, desde o princípio, a Rabótchaia Mysl começara - insistentemente - a realizar o programa do Credo. Isto mostra (o que não pode chegar a compreender o Rabótcheie Dielo), que todo culto da espontaneidade do movimento operário, toda diminuição do papel do "elemento consciente", do papel da social-democracia significa - quer se queira ou quer não - um reforço da influência da ideologia burguesa entre os operários. Todos aqueles que falam de "sobrestimarão da ideologia", de exagero do papel do elemento consciente  etc., imaginam que o movimento puramente operário é, por si próprio, capaz de elaborar, e irá elaborar para si, uma ideologia independente, com a única condição de que os operários "arranquem sua sorte das mãos de seus dirigentes". Mas, isto constitui um erro profundo. Para completar o que dissemos acima, citaremos ainda as palavras profundamente justas e significativas de K. Kautsky, a propósito do projecto do novo programa do partido social-democrata austríaco.

     "Muitos de nossos críticos revisionistas atribuem a Marx a afirmação de que o desenvolvimento económico e a luta de classes não somente criam as condições da produção socialista, mas engendram directamente a consciência (o enigma é de K.K.) da sua necessidade. E eis que esses críticos objectam que a Inglaterra, país do mais avançado desenvolvimento capitalista, está mais alheia do que qualquer outro país a essa consciência. O projecto do programa leva a crer que a comissão que elaborou o programa austríaco partilha, também, desse ponto de vista dito marxista ortodoxo, que refuta o exemplo da Inglaterra. O projecto afirma: "Quanto mais o proletariado aumenta em consequência do desenvolvimento capitalista, mais é obrigado e tem a possibilidade de lutar contra o capitalismo. O proletariado adquire a "consciência" da possibilidade e da necessidade do socialismo. Por conseguinte, a consciência socialista constituirá o resultado necessário, directo da luta proletária de classe. Ora, isto é inteiramente falso. Como doutrina, o socialismo evidentemente tem as suas raízes  

nas relações económicas actuais, da mesma forma que a luta de classe do proletariado; do mesmo modo que esta última, resulta da luta contra a pobreza e a miséria das massas, provocadas pelo capitalismo. Mas o socialismo e a luta de classe surgem paralelamente e um não engendra o outro;  surgem de premissas diferentes. A consciência socialista de hoje não pode surgir senão na base de um profundo conhecimento científico. De facto, a ciência económica contemporânea  constitui tanto uma condição da produção socialista como, por exemplo, a técnica moderna, e, apesar de todo o seu desejo, o proletariado não pode criá-las; ambas surgem do processo social contemporâneo. Ora, o portador da ciência não é o proletariado, mas os intelectuais burgueses (o enigma é de KA.): foi do cérebro de certos indivíduos dessa categoria que nasceu o socialismo contemporâneo, e foram eles que o transmitiram aos proletários intelectualmente mais evoluídos, que o introduziram, em seguida, na luta de classe do proletariado onde as condições o permitiram. Assim, pois, a consciência socialista é um elemento importado de fora (von Aussenhineigetranes) da luta de classe do Proletariado, e não algo que surgiu espontaneamente (ur wüchsig). Também o antigo programa de Heinfeld dizia, muito justamente, que a tarefa da social-democracia é introduzir no proletariado (literalmente: preencher o proletariado com) a consciência da sua situação e a consciência da sua missão. Não seria necessário fazê-lo se essa consciência emanasse naturalmente da luta da classe. Ora, o novo projecto abandonou essa tese do antigo programa e juntou-se à tese acima citada. O que interrompeu completamente o curso do pensamento...

     No momento, não seria possível falar de uma ideologia independente, elaborada pelas próprias massas operárias no curso de seu movimento, o problema coloca-se exclusivamente assim: ideologia burguesa ou ideologia socialista. Não há meio-termo (pois a humanidade não elaborou uma "terceira" ideologia; e, além disso, numa sociedade dilacerada pelos antagonismos de classe não seria possível existir uma ideologia à margem ou acima dessas classes). Por isso, toda diminuição da ideologia socialista, todo distanciamento dela implica o fortalecimento da ideologia burguesa. Fala-se de espontaneidade. Mas o desenvolvimento espontâneo do movimento operário resulta justamente na subordinação à ideologia burguesa, efectua-se justamente segundo o programa do "Credo", pois o movimento operário espontâneo é o sindicalismo, a Nur-Gewerkschafilerei: ora, o sindicalismo é justamente a escravidão ideológica dos operários pela burguesia. Por isso, nossa tarefa, a da social-democracia, é combater a espontaneidade, desviar o movimento operário dessa tendência espontânea que apresenta o sindicalismo, de se refugiar sob as asas da burguesia, e atraí-lo para a social-democracia revolucionária. Por conseguinte, a frase dos autores da carta "económica" do n.º. 12 do Iskra, afirmando que todos os esforços dos mais inspirados ideólogos não poderão desviar o movimento operário do caminho determinado pela acção recíproca dos elementos materiais e do meio material, equivale exactamente a abandonar o socialismo, e se esses autores fossem capazes de meditar no que dizem, até às ultimas consequências, com lógica e destemor, como deve fazer quem se dedica ao campo da acção literária e social, não lhes restaria senão cruzar sobre o peito vazio os seus braços inúteis e... deixar o campo livre aos senhores Struve e Prokopovitch, que arrastam o movimento operário "no sentido do mínimo esforço", isto é, no sentido do sindicalismo burguês, ou aos senhores Zubatov, que o arrastam no sentido da "ideologia" clérico-policial.

     Recorde-se o caso da Alemanha. Qual foi o mérito histórico de Lassalle diante do movimento operário alemão? Foi ter desviado este movimento do caminho do sindicalismo progressista e do cooperativismo, para onde se dirigia espontaneamente (com a ajuda benévola dos Schulze-Delitzsch e consortes). Para realizar essa tarefa, foi preciso mais do que frases a respeito da subestimação do elemento espontâneo, sobre a táctica-processo, sobre a acção recíproca dos elementos e do meio etc. Para isso foi preciso uma luta encarniçada contra a espontaneidade, e só após essa luta de longos e longos anos é que se chegou, por exemplo, a fazer da população operária de Berlim o baluarte do partido progressista, uma das melhores cidadelas da social-democracia. E esta luta está ainda longe de terminar (como poderiam supor os estudiosos da história do movimento alemão através de Prokopovitch, e da filosofia desse movimento através de Strouve). Ainda agora, a classe operária alemã está dividida, se assim se pode dizer, entre diversas ideologias: uma parte dos operários está agrupada nos sindicatos operários católicos e monarquistas; outra, nos sindicatos Hirsch-Duncker, fundados pelos admiradores burgueses do sindicalismo inglês; uma terceira, nos sindicatos sociais-democratas. Esta última parte é infinitamente mais numerosa que todas as outras, mas a ideologia social-democrática não pode obter, e não poderá conservar essa supremacia, senão através de uma luta incansável contra todas as outras ideologias.  

Mas, por que - perguntará o leitor - o movimento espontâneo, que se dirige para o sentido do mínimo esforço, conduz exactamente à dominação pela ideologia burguesa? Pela simples razão de que, cronologicamente, a ideologia burguesa é muito mais antiga que a ideologia socialista, está completamente elaborada e possui meios de difusão infinitamente maiores. Quanto mais jovem for o movimento socialista num país, mais energicamente terá que lutar contra todas as tentativas feitas para consolidar a ideologia não socialista; tanto mais resolutamente será preciso colocar os operários em guarda contra os maus conselheiros que gritam contra a "sobrestimarão do elemento consciente" etc. Com o Rabótcheie Dielo, os autores da carta económica gritam em uníssono contra a intolerância própria da infância do movimento. A isto responderemos: de facto, o nosso movimento ainda está na sua infância, e para atingir a sua virilidade deve justamente imbuir-se de intolerância em relação àqueles que, através do culto da espontaneidade, retardam o seu desenvolvimento. Nada há de mais ridículo e de mais prejudicial para se colocar ao velho militante que, há muito, já passou por todas as fases decisivas da luta!

     Em terceiro lugar, o primeiro número da Rabótchaia Mysl mostra-nos que a denominação de "economismo" (à qual, evidentemente, não temos intenção de renunciar, pois de qualquer modo este vocábulo já adquiriu direito de ser citado) não traduz com exactidão suficiente o fundo da nova tendência. A Rabótchaia Mysl não nega completamente a luta política: os estatutos da caixa que publica no seu primeiro número falam da luta contra o governo. A Rabótchaia Mysl considera somente que "o político segue sempre docilmente o económico". (E o Rabótcheie Dielo dá uma variação dessa tese, afirmando no seu programa que "na Rússia, mais que em qualquer outro país, a luta económica é inseparável da luta política"). Essas teses da Rabótchaia Mysl e do Rabótcheie Dielo são absolutamente falsas, se por política se entende a política social-democrata. Com muita frequência, a luta económica dos operários, como já vimos, está ligada, (não de forma indissolúvel, é verdade) à política burguesa, clerical, ou outra. As teses do Rabótcheie Dielo são justas, se por política se entende a política sindical, isto é, a aspiração geral dos operários a obter do Estado as medidas susceptíveis de remediar os males inerentes à sua situação, mas, que não suprimem tal situação, isto é, não suprimem a submissão do trabalho ao capital. Essa aspiração é, de facto, comum aos sindicalistas ingleses hostis ao socialismo, aos operários católicos e aos operários "de Zubatov", etc. Há política e política. Assim, pois, vemos que a Rabótchaia MysI, mesmo no que concerne à luta política, mais do que repudiá-la, inclina-se diante da sua espontaneidade, da sua inconsciência. Reconhecendo inteiramente a luta política que surge espontaneamente do próprio movimento operário (ou, mais ainda: os anseios e reivindicações políticas dos operários) recusa-se por completo a elaborar ela própria uma política social-democrata específica, que responda às tarefas gerais do socialismo nas condições russas actuais. Mais adiante mostraremos que esta também é a falta cometida pelo Rabótcheie Dielo.

c) O grupo da Autoemacipação e o "Rabotcheie Delo"

Se analisamos com tantos detalhes o editorial pouco conhecido e hoje quase esquecido do primeiro número da Rabótchaia Mysl é porque ele foi o primeiro a expressar de forma relevante a corrente geral, que mais tarde surgiria à luz do dia sob a forma de uma infinidade de riachos. V. I. tinha absoluta razão quando, louvando esse primeiro número e esse editorial da Rabótchaia MysI, constatou "a(sua) veemência e o seu ardor" (Listok "Rabótchaia" n.º. 9-10, p. 49). Todo homem de convicções firmes, que acredita trazer algo de novo quando escreve com "ardor", coloca em relevo o seu ponto de vista. Somente aqueles habituados a permanecer sentados entre duas cadeiras carecem de "ardor"; somente estes, após terem elogiado, ontem, o ardor da Rabótchaia Mysl, são capazes, hoje, de censurar o "ardor polémico" dos seus adversários.

Sem nos determos no "suplemento especial da Rabótchaia Mysl (a seguir, teremos de nos referir, por diferentes motivos, a essa obra que expõe com a maior lógica as ideias dos "economistas"), limitamo-nos a assinalar sumariamente o "Apelo do Grupo da Auto libertação dos Operários" (Março de 1899, reproduzido no Nakanune de Londres, n.º. 7, Julho de 1899). Os autores deste apelo dizem, com toda a razão, que "a Rússia operária, que apenas começa a sacudir-se do seu torpor e a olhar à sua volta, apega-se instintivamente aos primeiros meios de luta que se lhe oferecem", mas daí tiram a mesma conclusão errónea que a Rabótchaia Mysl, esquecendo-se que o instintivo é exactamente o inconsciente (o espontâneo), em ajuda do qual devem correr os socialistas; que os "primeiros" meios de luta "que se lhe oferecem"  

serão sempre, na sociedade contemporânea, os meios sindicalistas de luta e a "primeira" ideologia, a ideologia burguesa (sindicalista). Esses autores não "negam" mais a política, dizem somente (somente!) de acordo com o Senhor V. V., que a política é uma superstrutura e que, por conseguinte, "a agitação política deve ser a superstrutura da agitação em favor da luta económica, que deve surgir no campo dessa luta e marchar atrás dela".

     Quanto ao Rabótcheie Dielo, começou sua actividade directamente pela "defesa" dos "economistas". Após ter enunciado uma contra verdade manifesta declarando desde o seu primeiro número (n.º. 1, p. 141-142) "ignorar a que jovens camaradas se referia Axelrod", que no seu conhecido folheto fazia uma advertência aos "economistas", o Rabótcheie Dielo teve, no curso de sua polémica com Axelrod e Plekhanov a propósito dessa contra verdade, de reconhecer que "simulando não saber de quem se tratava, desejava defender todos os

jovens sociais-democratas do estrangeiro contra essa acusação injusta" (a acusação de estreiteza de Axelrod aos "economistas"). Na realidade, esta acusação era perfeitamente justa, e o Rabótcheie Dielo sabia muito bem que ela visava, entre outros, V. I., membro de sua redacção. Notarei de passagem, a esse respeito, que na polémica em questão Axelrod tinha inteira razão, e o Rabótcheie Dielo estava completamente errado na interpretação do meu trabalho, "As Tarefas dos Sociais-Democratas Russos". Este trabalho foi escrito em 1897, ainda antes do aparecimento da Rabótchiai Mysl quando eu considerava, com toda a razão, que a tendência inicial da "União de Luta" de São Petersburgo, tal como a caracterizei acima, era a predominante. Efectivamente, esta tendência foi preponderante pelo menos até meados de 1898. Ademais, o Rabótcheie Dielo não fora inutilmente fundado para desmentir a existência e o perigo do "economismo", para se referir a um trabalho que expunha os pontos de vista que foram suplantados em São Petersburgo, em 1897-1898, pelos "economistas"?

     Mas, o Rabótcheie Dielo não apenas "defendia" os "economistas"; também incorria, ele próprio, constantemente nos seus principais erros. O que se encontrava na origem desse desvio, era a interpretação ambígua da seguinte tese do seu programa: "O fenómeno essencial da vida russa, designado principalmente para definir as tarefas (o escrito é nosso) e o carácter da actividade literária da "União", é, em nossa opinião, o movimento operário de massas (escrito pelo Rabótcheie Dielo), que surgiu esses últimos anos". Está fora de discussão, que o movimento de massas seja um fenómeno muito importante. Mas, a questão é saber como compreender a "definição das tarefas" para esse movimento de massas. Pode ser compreendida de duas maneiras: ou nos inclinamos diante da espontaneidade desse movimento, isto é, reconduzimos o papel da social-democracia ao de um simples criado do movimento operário como tal (assim o entendem o Rabótchaia Mysl o "Grupo da Auto libertação" e os outros "economistas"); ou admitimos que o movimento de massas nos impõe novas tarefas teóricas, políticas e de organização, muito mais complexas do que aquelas com  que podíamos contentar-nos antes do aparecimento do movimento de massas. O Rabótcheie Dielo sempre tendeu, e tende, precisamente para a primeira interpretação; jamais falou com precisão de novas tarefas, e sempre raciocinou como se esse "movimento de massas" nos eximisse da necessidade de conceber com nitidez e de realizar as tarefas que ele impõe. Será suficiente indicar que, o Rabótcheie Dielo julgou impossível atribuir como primeira tarefa do movimento operário de massas o derrube da autocracia, tarefa que rebaixou (em nome do movimento de massas) ao nível da luta pelas reivindicações políticas imediatas ("Resposta", p. 25).

     Deixando de lado o artigo de B. Krítchévski, redactor-chefe do Rabótcheie Dielo - "A Luta Económica e Política no Movimento Russo" - aparecido no número 7, artigo onde se encontram os mesmos erros, passaremos directamente ao número l0 do Rabótcheie Dielo. É claro que não examinaremos uma a uma as objecções de B. Kritchévski e de Martynov contra a Zaria e o Iskra. O que nos interessa aqui, é unicamente a posição de princípio adoptada pelo Rabótcheie Dielo no seu número 10. Assim, não examinaremos o facto curioso, de o Rabótcheie Dielo ver uma "contradição fundamental" entre a tese seguinte:

"A social-democracia não une as mãos, não limita sua actividade a um plano preconcebido ou a um procedimento de luta política preestabelecido;  admite todos os meios de luta, contanto que correspondam às forças disponíveis do Partido"., etc. (Iskra n.º. 1)

e esta tese:          

 " ...sem uma organização sólida, habilitada à luta política em todas as circunstâncias e em todos os períodos, não seria possível sequer falar desse plano de acção sistemática  

estabelecido à luz de princípios severos, e seguido sem fraquejamentos, o único a merecer o  nome de táctica" (Iskra, n.º. 4).

     Confundir por princípio o reconhecimento de todos os meios, de todos os planos e procedimentos da luta, desde que sejam racionais, com a necessidade de se guiar num determinado momento político a partir de um plano rigorosamente aplicado, se quer falar de táctica, equivaleria a confundir o reconhecimento pela medicina de todos os sistemas de tratamento, com a necessidade de se ter de seguir um determinado sistema no tratamento de uma dada doença. Mas, é o próprio Rabótcheie Dielo que sofre da doença que denominamos o culto do espontâneo, sem querer admitir qualquer "sistema de tratamento" dessa doença. Ademais, fez esta descoberta notável, que "a táctica-plano contradiz o espírito fundamental do marxismo" (n.º. 10, p. 18); que a táctica é "o processo de crescimento das tarefas do partido, que crescem ao mesmo tempo que ele" (p. 11, grifado pelo Robótcheie Dielo). Esta última frase tem todas as possibilidades de se tornar famosa, um monumento indestrutível da "tendência" do Rabótcheie Dielo. À pergunta: "para onde ir?" este órgão dirigente responde: o movimento é o processo de variação de distância entre o ponto de partida e o ponto seguinte do movimento. Esta reflexão de incomparável profundidade não é apenas curiosa (não valeria a pena nela nos determos), constitui, ainda, o programa de toda uma tendência, programa que R. M.(no "Suplemento especial à Rabótchaia Mysl") expressou: nesses termos: a luta é desejável se for possível; aquela que se trava, nesse momento, é possível. É exactamente esta a tendência do oportunismo ilimitado, que se adapta passivamente à espontaneidade.

     "A táctica-plano contradiz o espírito fundamental do marxismo!" Mas, isto é caluniar o marxismo, é convertê-lo numa caricatura análoga àquela que nos opunham os populistas na sua guerra contra nós. É, precisamente, rebaixar a iniciativa e a energia dos militantes conscientes, enquanto o marxismo, ao contrário, estimula enormemente e a energia do social-democrata, abrindo-lhe as maiores perspectivas, pondo (se assim podemos dizer) à sua disposição as forças prodigiosas de milhões e milhões de operários que se preparam espontaneamente para a luta! Toda a história da social-democracia internacional fervilha de planos formulados por este ou aquele chefe político, planos que atestam a clarividência de alguns e a exactidão dos seu pontos de vista políticos e de organização, ou que revelam a miopia e os erros políticos de outros. Quando a Alemanha conheceu uma das maiores reviravoltas de sua história - a formação do Império, a abertura do Reichstag, a concessão do sufrágio universal - Liebknecht tinha um plano da política e da acção social-democrata em geral, e Schweitzer tinha outro. Quando a lei da excepção se abateu sobre os socialistas alemães, Most e Hasselmann tinham um plano: o apelo puro e simples à violência e ao terror: Höchberg, Schramm e (em parte) Bernstein tinham outro: os sociais-democratas tendo provado, pela sua violência insensata e seu revolucionarismo, a lei que os atingia, deviam agora, através de um comportamento exemplar, obter seu perdão; enfim, existia um terceiro plano: o dos homens que prepararam e realizaram - a publicação de um órgão ilegal. Retrospectivamente, recuando muitos anos, após terminada a luta pela escolha do caminho a seguir, e agora que a história se pronunciou definitivamente sobre o valor da direcção escolhida. é claro que não é difícil manifestar profundidade declarando, sentenciosamente, que as tarefas do Partido crescem ao mesmo tempo que ele. Mas, nas horas de confusão, quando os "críticos" e "economistas" russos rebaixam a social-democracia ao nível do sindicalismo, e os terroristas pregam com ardor a adopção de uma "táctica-plano", que apenas retoma os erros antigos - ater-se em semelhante momento a tais frases é passar a si próprio um "certificado de indigência". No momento em que inúmeros sociais-democratas russos carecem exactamente de iniciativa e energia, de "extensão da propaganda, da agitação e da organização política", de "planos" para pôr em execução, de forma mais ampla, o trabalho revolucionário - dizer que "a táctica-plano contradiz o espírito fundamental do marxismo" não é apenas aviltar teoricamente o marxismo mas praticamente puxar o Partido para trás.

     "0 social-democrata revolucionário, ensina-nos adiante o Rabótcheie Dielo, tem como tarefa unicamente acelerar, pelo seu trabalho consciente, o desenvolvimento objectivo, e não suprimi-lo ou substituí-lo por planos subjectivos. O Iskra, em teoria, conhece tudo isso. Mas a importância considerável que o marxismo atribui, com razão, ao trabalho revolucionário consciente, leva de facto o Iskra, em consequência de seu doutrinarismo em matéria de táctica, a subestimar o valor do elemento objectivo ou espontâneo do desenvolvimento" (p. 18).

     Eis-nos, de novo, diante de uma confusão teórica extraordinária, digna dos senhores V. V. e consortes. Mas, perguntaremos ao nosso filósofo, em que pode consistir a "subestimação" do desenvolvimento objectivo para o autor de planos subjectivos? Evidentemente, em perder de  

vista o facto de que este desenvolvimento objectivo cria ou consolida, arruína ou enfraquece estas ou aquelas classes, categorias, grupos, essas ou aquelas nações, grupos de nações etc., determinando assim o aparecimento desse ou daquele agrupamento político internacional de forças, essa ou aquela posição dos partidos revolucionários etc. Mas, o erro desse autor será, então, de ter subestimado não o elemento espontâneo, mas, ao contrário, o elemento consciente, pois a ele terá faltado a "consciência" para uma justa compreensão do desenvolvimento objectivo. É por isso que somente o facto de se falar "da apreciação da importância relativa" (grifado pelo Rabótcheie Dielo) assinala uma ausência completa de "consciência". Se certos "elementos espontâneos do desenvolvimento" são acessíveis em geral à consciência humana, a apreciação errónea desses elementos equivalerá a uma "subestimação do elemento consciente". E se são inacessíveis à consciência, não os conhecemos, e não podemos falar deles. Que deseja, pois, B Kritchévski? Se considera errados os "planos subjectivos" do Iskra (e de facto os declara errados), deveria mostrar, precisamente, quais os factos objectivos que não são levados em conta por esses planos, e acusar o "Iskra" de falta de consciência, de "subestimação do elemento consciente", para utilizar sua linguagem. Mas, se descontente com os planos subjectivos, não tem outros argumentos senão os da "subestimação do elemento espontâneo" (!!), somente poderá provar através disso que: 1º.) teoricamente, compreende o marxismo à maneira dos Karéiev e dos Mikhailóvski, suficientemente escarnecidos por Beltov; 2º.) praticamente, está inteiramente satisfeito com os "elementos espontâneos do desenvolvimento", que arrastaram os nossos marxistas legais ao bernsteinismo e os nossos sociais-democratas ao "economismo", e que está "muito indignado" contra os que decidiram desviar, a qualquer custo, a social-democracia russa dos caminhos do desenvolvimento "espontâneo".

     A seguir, aparecem coisas verdadeiramente divertidas. "Do mesmo modo que os homens, apesar de todo o progresso das ciências naturais, continuarão a multiplicar-se através de procedimentos ancestrais, do mesmo modo que o nascimento de uma nova ordem social, apesar de todo o progresso das ciências sociais e do aumento do número de combatentes, será sempre e sobretudo o resultado de explosões espontâneas. Da mesma forma que a sabedoria ancestral diz: a quem faltará inteligência para ter filhos? - também a sabedoria dos "socialistas modernos" (à maneira de NarcisseTuporilov) diz: para participar do nascimento espontâneo de uma nova ordem social, não faltará inteligência a ninguém. Também pensamos assim. Para participar dessa maneira, basta se laisser aller pelo "economismo", quando reina o "economismo", pelo terrorismo, quando surge o terrorismo. Assim, o Rabótcheie Dielo, na última primavera, quando era tão importante pôr-se em guarda contra o entusiasmo pelo terror, encontrou-se perplexo, diante de uma questão "nova" para ele. E agora, seis meses mais tarde, quando a questão deixou de ter tão palpitante actualidade, apresenta-nos ao mesmo tempo esta declaração: "pensamos que a tarefa da social-democracia não pode, nem deve opor-se à ascensão de tendências terroristas" (Rabótcheie Dielo, n.º. 10, p. 23), bem como a resolução do congresso: "O congresso reconhece como inoportuno o terror ofensivo sistemático" (Dois Congressos, p. 18). Que clareza e coerência admiráveis! Não nos opomos, mas declaramos inoportuno, e declaramos isso de forma que a "resolução" não inclua o terror não sistemático e defensivo. Concordamos que tal resolução não oferece qualquer perigo, e que constitui garantia contra todo erro, como o de falar sem nada dizer! E para redigir tal resolução, não é preciso senão uma coisa: saber segurar-se à cauda do movimento. Quando o Iskra zombou do Rabótcheie Dielo, que declarou que a questão do terror era uma questão nova, o Rabótcheie Dielo acusou severamente o Iskra "de ter a pretensão verdadeiramente incrível de impor à organização do Partido a solução de problemas tácticos, apresentada há mais de quinze anos por um grupo de escritores emigrados" (p. 24). De facto, que atitude pretensiosa e que exagero do elemento consciente: resolver teoricamente e de antemão as questões, a fim de convencer em seguida a organização, o partido e as massas de que essa solução é bem fundamentada! Outra coisa é simplesmente repetir coisas já ditas, e sem nada "impor" a ninguém, e obedecer a qualquer "virada" tanto para o "economismo" como para o terrorismo. O Rabótcheie Dielo chega a sintetizar esse grande preceito da sabedoria humana e acusa o Iskra e a Zaria "de opor ao movimento o seu programa, como um espírito pairando acima do caos informe" (p. 29). Mas, qual é o papel da social-democracia, senão o de ser o "espírito" que não somente paira acima do movimento espontâneo, mas, eleva este ao nível de "seu programa"? Não é, portanto, o papel de se arrastar na cauda do movimento; coisa inútil, no melhor dos casos, e, no pior, extremamente prejudicial para o movimento. O  Rabótcheie Dielo não se limita a seguir essa "táctica-processo"; eleva-a mesmo em princípio, de forma que a sua tendência deveria ser qualificada não de oportunismo, mas, antes, de caudismo (da palavra cauda). É forçoso reconhecer que aqueles que estão firmemente decididos a sempre marchar à cauda do movimento, também estão, absolutamente e para sempre, contra o defeito de "subestimar o elemento espontâneo do desenvolvimento".

     Constatamos, assim, que o erro fundamental da "nova tendência" da social-democracia russa é inclinar-se diante da espontaneidade; é não compreender que a espontaneidade das massas exige de nós, sociais-democratas, uma consciência elevada. Quanto maior for o impulso espontâneo das massas, mais amplo será o movimento, e de forma ainda mais rápida afirmar-se-á a necessidade de uma consciência elevada no trabalho teórico, político e de organização da social-democracia.

     O  impulso espontâneo das massas na Rússia foi (e continua a ser) tão rápido que a juventude social-democrata encontrou-se pouco preparada para realizar essas imensas tarefas. A falta de preparação, nossa infelicidade comum, constituí a infelicidade de todos os sociais-democratas russos. O impulso das massas não cessou de crescer e de se estender sem solução de continuidade; e longe de interromper-se onde foi iniciado, estendeu-se a novas localidades, a novas camadas da população (o movimento operário provocou um redobramento da efervescência entre a juventude das escolas, dos intelectuais em geral, e mesmo entre os camponeses). Os revolucionários atrasaram-se quanto à progressão do movimento, e nas suas "teorias" e actividade, não souberam criar uma organização que funcionasse sem solução de continuidade, capaz de dirigir todo o movimento.

     No primeiro capítulo, constatamos que o Rabótcheie Dielo rebaixa as nossas tarefas teóricas e repete "espontaneamente" o grito em moda: "liberdade de crítica"; mas aqueles que o repetem não tiveram "consciência" suficiente para compreender a oposição diametral existente entre as posições dos "críticos" - oportunistas e os revolucionários na Alemanha e na Rússia.

     Nos capítulos seguintes, veremos como esse culto da espontaneidade se manifestou no domínio das tarefas políticas e no trabalho de organização da social-democracia.


Que fazer? III-1- Política sindical e política social-democrata

     Mais uma vez, começaremos elogiando o Rabótcheie Dielo. "Literatura de Denúncia e Luta Proletária", assim denominou Martynov o seu artigo do Rabótcheie Dielo (n.º. 10), sobre as divergências com o Iskra "Não podemos limitar-nos a denunciar o regime que entrava o seu desenvolvimento (do partido operário). Devemos, igualmente, fazer de nós o eco dos interesses correntes e urgentes do proletariado" (p. 63). É assim que Martynov formula a essência dessas divergências. "...O Iskra.... é efectivamente o órgão da oposição revolucionária que denuncia o nosso regime e principalmente o nosso regime político... Trabalhamos e trabalharemos, no que nos diz respeito, pela causa operária, em estreita ligação orgânica com a luta proletária". (Ibid.). Não é possível deixar de agradecer a Martynov por essa formulação. Ela adquire um grande interesse geral, pelo facto de abranger, no fundo, não somente as nossas divergências de pontos de vista com o Rabótcheie Dielo, mas todas as divergências que existem, de maneira geral, entre nós e os "economistas" sobre a questão da luta política. Já mostramos que os "economistas" não negam absolutamente a "política", mas que se desviam constantemente da concepção social-democrata em direcção à concepção sindical da política. É exactamente assim que o faz Martynov; e por isso queremos tomá-lo como espécime dos erros "economistas" na questão de que nos ocupamos. Tentaremos demonstrar que nem os autores do "Suplemento especial da Rabótchaia Mysl", nem os da declaração do "Grupo da Auto libertação", nem tampouco os da carta económica do n.º. 12 do Iskra têm o direito de nos reprovar tal escolha.  

a) A agitação política e o seu estreitamento pelos "Economistas"

     Ninguém ignora que a extensão e a consolidação da luta económica dos operários russos marcharam de par com a eclosão da "literatura" de denúncia económica (referente às fábricas e à vida profissional). As "folhas volantes" denunciavam principalmente o regime das fábricas, e  isso deu origem imediatamente a uma verdadeira paixão pelas denúncias entre os operários. Quando estes últimos viram que os círculos sociais-democratas queriam e podiam fornecer-lhes "folhas volantes" de um novo género, dizendo toda a verdade sobre a sua vida miserável, o seu trabalho fatigante e a sua servidão, fizeram, de certo modo, chover cartas das fábricas e das oficinas. Esta "literatura de denúncia" fez sensação não somente na fábrica, cuja "folha volante" fustigava o regime, mas em todas as empresas onde havia rumores dos factos denunciados. Ora, como as necessidades e a miséria dos operários de diferentes empresas e profissões têm muitos pontos comuns, a "verdade sobre a vida operária" maravilhou todo o mundo. Uma verdadeira paixão de "aparecer em letra de forma" tomou conta dos operários mais atrasados, nobre paixão por essa forma embrionária de guerra contra toda a ordem de coisas existente, baseada na pilhagem e na opressão. E as "folhas volantes" constituíram, efectivamente, na imensa maioria dos casos, uma declaração de guerra, porque o que divulgavam entusiasmava vivamente os operários, impelia-os a reclamar a supressão dos abusos mais gritantes e a apoiar as suas reivindicações através de greves. Os próprios donos das fábricas foram, afinal, obrigados a reconhecer nesses panfletos uma declaração de guerra a ponto de muitas vezes não desejarem sequer aguardar a própria guerra. Como sempre, simplesmente através da sua publicação, tais revelações adquiriram vigor e exerceram forte pressão moral. Não era raro o facto de a simples aparição de um panfleto obter a satisfação total ou parcial das reivindicações dos operários. Numa palavra, as denúncias económicas (nas fábricas) eram e continuam a ser uma poderosa alavanca da luta económica. E assim o será, enquanto existir o capitalismo, que impele necessariamente os operários à autodefesa. Nos países europeus mais avançados, pode-se ainda agora observar que a denúncia de condições escandalosas de trabalho em algum "oficio" em desuso, ou em um ramo de trabalho no domicílio esquecido de todos, leva ao despertar da consciência de classe, à luta sindical, e à difusão do socialismo. A grande maioria dos sociais-democratas russos, nesses últimos tempos, foi quase inteiramente absorvida pela organização dessas denúncias nas fábricas. Basta lembrar a Rabótchaia Mysl para se ver a que ponto chegou tal absorção; esquecia-se que, no fundo, essa actividade não era ainda em si mesma social-democrata, mas apenas sindical. As denúncias referiam-se, no fundo, somente às relações dos operários de uma determinada profissão com os seus patrões, e não tiveram, outro resultado senão o de ensinar àqueles que vendiam sua força de trabalho, a vender esta "mercadoria" de forma mais vantajosa, e a lutar contra o comprador no terreno de uma transacção puramente comercial.Essas denúncias (na condição de serem convenientemente utilizadas pela organização dos revolucionários) podiam servir de ponto de partida e de elemento constitutivo da acção social-democrata; mas também podiam (e até deviam, quando se inclinavam diante da espontaneidade) conduzir à luta "exclusivamente profissional" e a um movimento operário, não social-democrata. A social-democracia dirige a luta da classe operária, não apenas para obter condições vantajosas na venda da força de trabalho, mas, também, pela abolição da ordem social, que obriga os não possuidores a se venderem aos ricos. A social-democracia representa a classe operária nas suas relações não apenas com um determinado grupo de empregadores, mas com todas as classes da sociedade contemporânea, com o Estado como força política organizada. Consequentemente, portanto, os sociais-democratas não podem limitar-se à luta económica, mas, também não podem admitir que a organização das denúncias económicas constitua sua actividade mais definida. Devemos empreender activamente a educação política da classe operária, trabalhar para desenvolver a sua consciência política.   Quanto a esse ponto, após a primeira ofensiva da Zaria e do Iskra contra o "economismo", agora "todos estão de acordo" (acordo por vezes apenas verbal, como o veremos em seguida). A questão que se coloca é: em que, portanto, deve consistir a educação política? Podemos limitar-nos a difundir a ideia de que a classe operária é hostil à autocracia? Naturalmente, não. Não é suficiente esclarecer os operários sobre sua opressão política (como não o seria esclarecê-los sobre a oposição dos seus interesses em relação aos dos seus patrões). É necessário fazer a agitação a propósito de cada manifestação concreta desta opressão (como fizemos em relação às manifestações concretas da opressão económica). Ora, como esta opressão se exerce sobre as mais diversas classes da sociedade, manifesta-se nos mais diversos aspectos da vida e da actividade profissional, civil, privada, familiar, religiosa, científica etc. etc., não se torna evidente que não realizaremos a nossa tarefa que é desenvolver a consciência política dos operários, se não nos encarregarmos de organizar uma ampla campanha política de denúncia da autocracia? De facto, para fazer a agitação sobre as manifestações concretas da opressão, é preciso denunciar essas manifestações (da mesma forma que para conduzir a agitação económica, era preciso denunciar os abusos cometidos nas fábricas). Acho que isto está claro. Mas verifica-se justamente que a necessidade de desenvolver amplamente a consciência política não é reconhecida "por todos", senão em palavras. Verifica-se, por exemplo, que o Rabótcheie Dielo longe de se encarregar de organizar, ele próprio, uma ampla campanha de denúncias políticas (ou de tomar a iniciativa com vistas a essa organização) põe-se a puxar para trás o Iskra, que já tinha iniciado essa tarefa. Escutem: "A luta política da classe operária é apenas" (justamente ela não é "apenas") "a forma mais desenvolvida, a forma maior e mais efectiva da luta económica" (programa do Rabótcheie Dielo, R D., n.º. 1, p. 3). "Agora, para os sociais-democratas trata-se de saber como conferir à própria luta económica, sempre que possível, um carácter político" (Martynov, no número 10, p. 42). "A luta económica é o meio mais amplamente aplicável para levar as massas à luta política activa" (resolução do Congresso da União e "emendas": Dois Congressos, p.11 e 17). O Rabótcheie Dielo, como se vê, desde o seu nascimento até as últimas "instruções à redacção", esteve sempre impregnado dessas teses, que evidentemente exprimem, todas, um único ponto de vista sobre a agitação e a luta políticas. Considerem este ponto de vista sob o ângulo da opinião que prevalece entre todos os "economistas", opinião segundo a qual à agitação política deve seguir a agitação económica. Será verdade que a luta económica é, em geral, "o meio mais amplamente aplicável" para levar as massas à luta política? Isto é absolutamente falso. Todas as manifestações, quaisquer que sejam elas, da opressão policial e do arbitrarismo absolutista, e não apenas as ligadas à luta económica, constituem um meio não menos "amplamente aplicável" para tal "integração". Por que os zemskie natchaIniki e os castigos corporais infligidos aos camponeses, a corrupção dos funcionários e a maneira como a polícia trata a "plebe" das cidades, a luta contra os famintos, a campanha repelindo a aspiração do povo à instrução e à ciência, a extorsão dos impostos, a perseguição às seitas, o adestramento dos soldados e o regime de caserna imposto aos estudantes e aos intelectuais liberais - por que todas essas manifestações de opressão, e milhares de outras mais, não directamente ligadas à luta "económica", constituem em geral os meios e as ocasiões menos "amplamente aplicáveis" de agitação política, de integração da massa à luta política? Muito pelo contrário; na soma total dos casos quotidianos em que o operário sofre (ele próprio, ou os ligados a ele) a servidão, a arbitrariedade e a violência, os casos de opressão policial que se aplicam precisamente à luta profissional não constituem, certamente, senão uma pequena minoria. Por que, então, restringir de antemão a amplitude da propaganda política, proclamando como "o mais amplamente aplicável" apenas um único meio, ao lado do qual, para o social-democrata, deveria haver outros que, de forma geral, não são menos "amplamente aplicáveis?" Em época já muito remota (há um ano! ... ), o Rabótcheie Dielo escrevia: "As reivindicações políticas imediatas tornam-se acessíveis à massa após uma, ou na pior das hipóteses, após várias greves", "desde que o governo utilize a polícia e o corpo policial" (n.º. 7, p. 15, Agosto de 1900). Essa teoria oportunista dos estádios foi rejeitada pela União, que nos faz uma concessão declarando: "não há nenhuma necessidade, desde o início, de se fazer a agitação política exclusivamente no terreno económico" (Dois Congressos, p. 11). Esta única negação pela União de uma parte de seus antigos erros mostrará ao futuro historiador da social-democracia russa, melhor do que toda a espécie de longas dissertações, a que ponto os nossos "economistas" rebaixaram o socialismo! Mas, que ingenuidade da União imaginar que, a troco do abandono de uma forma de estreitamento da política, poderia fazer-nos aceitar outra forma de estreitamento! Não teria sido mais lógico dizer, também, que é preciso sustentar uma luta económica, da forma mais ampla possível; que é preciso sempre utilizá-la para os fins de agitação política, mas que "não há nenhuma necessidade' de se considerar a luta económica como o meio mais amplamente aplicável para integrar a massa à luta política activa? A União considera importante o facto de ter substituído a expressão "o meio mais amplamente aplicável", pela expressão "o melhor meio", que figura na resolução correspondente ao Quarto Congresso da União Operária Judaica (Bud). Na verdade, seria embaraçoso para nós dizer qual dessas duas resoluções é a melhor: em nossa opinião são as duas piores. Tanto a União como o Bund perdem-se no que diz respeito a uma interpretação economista, sindical da política (em parte, talvez inconscientemente, sob a influência da tradição). No fundo, a questão em nada se altera, quer se empregue as palavras "o melhor", ou "o mais amplamente aplicável". Se a União tivesse dito que "a agitação política no terreno económico" constitui o meio mais amplamente aplicado (e não "aplicável") teria razão quanto a certo período de desenvolvimento de nosso movimento social-democrata. Teria razão precisamente no que concerne aos "economistas", no que diz respeito a muitos (senão a maior parte) dos militantes práticos de 1898-1901; de facto, esses "economistas" práticos aplicaram a agitação política (se é que a aplicaram de algum modo), quase exclusivamente no terreno económico. Como vimos, a Rabótchaia Mysl e o "Grupo da Auto libertação" admitiam, também eles, e até recomendavam uma agitação política desse género! O "Rabótcheie Dielo" devia condenar resolutamente o facto de a agitação económica, útil em si mesma, ter sido acompanhada de uma restrição prejudicial da luta política; ora, ao invés disso, declara o meio mais aplicado (pelos "economistas") como o mais aplicável! Não é de se surpreender que, quando damos a esses homens o nome de "economistas", não lhes resta senão insultarem-nos, chamando-nos de "mistificadores" e "desorganizadores", e de, "núncios do papa" e "caluniadores", de se lamentarem diante de todos que lhes fizemos uma afronta atroz, e declarar, quase jurando aos seus grandes deuses: "decididamente, hoje, nenhuma organização social-democrata está contaminada pelo economismo". Ali! Esses caluniadores, esses políticos malévolos! Não terão eles inventado todo esse "economismo" para infringir às pessoas, por simples ódio à humanidade, afrontas atrozes? Qual é o sentido concreto, real da tarefa que Martynov atribui à social-democracia: "Conferir à própria luta económica um carácter político"?    A luta económica é a luta colectiva dos operários contra os patrões, para vender vantajosamente a sua força de trabalho, para melhorar suas condições de trabalho e de existência. Essa luta é necessariamente uma luta profissional, porque as condições de trabalho são extremamente variadas, de acordo com as profissões e, portanto, a luta pela melhoria de suas condições deve ser forçosamente conduzida pela profissão (pelos sindicatos no Ocidente, pelas uniões profissionais provisórias, por intermédio das "folhas volantes" na Rússia etc.). Conferir "à própria luta económica um carácter político significa, portanto, procurar conseguir as mesmas reivindicações profissionais, melhorar as condições de trabalho em cada profissão através de "medidas legislativas e administrativas" (como se exprime Martynov, à página seguinte - 43 -de seu artigo). É exactamente o que fazem e sempre fizeram os sindicatos operários. Leiam a obra dos seus profundos conhecedores (e de "profundos" oportunistas), como o casal Webb, e verão que há muito os sindicatos operários da Inglaterra compreenderam e realizam a tarefa de "conferir à própria luta económica um carácter político": que há muito e muito tempo lutam pela liberdade das greves, pela supressão dos obstáculos jurídicos de todo género e de toda ordem, ao movimento cooperativista e sindical, pela promulgação de leis para a protecção da mulher e da criança, pela melhoria das condições do trabalho através de uma legislação sanitária, industrial etc. Assim, pois, sob um aspecto "terrivelmente" profundo e revolucionário, a frase pomposa - "Conferir à própria luta económica um carácter político" - dissimula na realidade a tendência tradicional de rebaixar a política social-democrata ao nível da política sindical! Sob o pretexto de corrigir a estreiteza do Iskra, que prefere - vejam vocês; "revolucionar o dogma do que revolucionar a vida", servem-nos como novidade a luta pelas reformas económicas. Na realidade, a frase - "Conferir à própria luta económica um carácter político" - implica apenas a luta pelas reformas económicas. E o próprio Martynov poderia ter chegado a essa conclusão pouco subtil, se tivesse meditado profundamente nas suas próprias palavras. "O nosso partido", diz ele apontando sua arma mais terrível contra o Iskra, "poderia e deveria exigir do governo medidas legislativas e administrativas concretas contra a exploração económica, o desemprego, a fome etc. "(Rabótcheie Dielo. N.º. 10, p. 42-43). Reivindicar medidas concretas não significa reivindicar reformas sociais? E mais uma vez tomamos o testemunho do leitor imparcial: caluniamos nós os rabotchediélentsi - perdoem-me esta infeliz palavra em voga! - qualificando-os de bernsteinianos disfarçados, quando pretendem que seu desacordo com o Iskra repousa na necessidade de lutar por reformas económicas? A social-democracia revolucionária sempre compreendeu e compreende na sua actividade a luta pelas reformas. Usa, porém, a agitação "económica" não somente para exigir do governo medidas de toda espécie, mas, também (e sobretudo), para dele exigir que deixe de ser um governo autocrático. Além disso, acredita dever apresentar ao governo essa reivindicação não somente no terreno da luta económica, mas também no terreno de todas as manifestações, quaisquer que sejam, da vida política e social. Numa palavra, subordina a luta pelas reformas, como a parte ao todo, à luta revolucionária pela liberdade e pelo socialismo. Martynov ressuscita sob uma forma diferente a teoria dos estádios e tenta prescrever à luta política que torne resolutamente um caminho por assim dizer económico. Preconizando, desde o impulso revolucionário, a luta pelas reformas como uma "tarefa" pretensamente especial, arrasta o partido para trás, e faz o jogo do oportunismo "economista" e liberal. Prossigamos. Após ter dissimulado pudicamente a luta pelas reformas sob a frase pomposa "Conferir à própria luta económica um carácter político" -, Martynov apresentou, simplesmente, como algo de particular as reformas económicas (e mesmo as simples reformas no interior da fábrica). Por que teria feito isso? Ignoramos. Talvez por negligência? Mas se não tivesse considerado unicamente as reformas "fabris", toda a sua tese, que acabamos de mencionar acima, perderia seu sentido. Talvez porque, da parte do governo, julgue possíveis e prováveis apenas as "concessões" no aspecto económico? Se a resposta for sim, isto constitui um erro estranho: as concessões são possíveis e também se fazem no aspecto legislativo, quando se trata de aplicar a chibata, quando se trata de passaportes, de resgates, de seitas, da censura etc, etc. As concessões (ou pseudo-concessões) "económicas" são evidentemente as menos dispendiosas e as mais vantajosas para o governo, pois, dessa forma, espera ganhar a confiança das massas operárias. Mas é precisamente por isso que nós, os sociais-democratas, não devemos de forma alguma e por motivo algum ceder a essa opinião (ou a um mal-entendido) de que as reformas económicas pretensamente nos agradam, e que as consideramos as mais importantes etc. "Tais reivindicações" - diz Martynov falando das medidas legislativas e administrativas concretas que mencionou anteriormente - "não seriam uma frase oca, porque, prometendo resultados tangíveis, poderiam ser apoiadas activamente pela massa operária"... Não somos "economistas", oh, não! Simplesmente prostramo-nos diante da "tangibilidade" dos resultados concretos, tão servilmente como o fazem os senhores Bernstein, Prokopovitch, Struve, R. M., e tutti quanti. Simplesmente damos a entender (com Narciso Tuporilov) que tudo o que "não promete resultados tangíveis" não é mais do que uma "frase oca"! Simplesmente expressamo-nos como se a massa operária fosse incapaz (e não provou até agora sua capacidade, a despeito daqueles que atiram sobre ela seu próprio filistinismo) de apoiar activamente todo o protesto contra a autocracia, mesmo aquele que não lhe promete absolutamente qualquer resultado tangível! Tomemos os mesmos exemplos lembrados pelo próprio Martynov, relativos às "medidas" contra o desemprego e a fome. Enquanto o Rabótcheie Dielo trabalhava, segundo fazia crer, para elaborar e desenvolver "reivindicações concretas (sob a forma de projectos de lei?) referentes a medidas legislativas e administrativas", "prometendo resultados tangíveis", o Iskra, que "prefere invariavelmente revolucionar o dogma do que revolucionar a vida", dedicava-se a explicar a ligação estreita entre o desemprego e o regime capitalista, advertindo que a "fome se aproxima", denunciando a "luta contra as famintos" desencadeada pela polícia e os escandalosos "regulamentos provisórios draconianos", e a Zaria lançava em tiragem especial, como folheto de propaganda, uma parte da Revista da Situação Interior, dedicada à fome. Mas, meu Deus, como foram "unilaterais", nesse caso, os ortodoxos incorrigivelmente estreitos, os dogmáticos surdos às injunções da - "própria vida"! Nenhum de seus artigos contém - que horror! - nem uma única, vejam bem, "reivindicação concreta", "prometendo resultados tangíveis"! Os infelizes dogmáticos! É preciso enviá-los à escola de Kritchévski e Martynov para convencê-los; de que a táctica é um processo de crescimento, do que cresce etc., e que é preciso conferir à própria luta económica um carácter político!  "Além de sua importância revolucionária directa, a luta económica dos operários contra os patrões e o governo ("a luta económica contra o governo"!!) apresenta ainda a utilidade de incitar os operários a pensar constantemente que estão frustrados nos seus direitos políticos" (Martynov, p. 44). Citamos essa frase não a fim de repetir pela centésima ou milésima vez o que dissemos acima, mas a fim de agradecer muito particularmente a Martynov por essa nova e excelente frase: "A luta económica dos operários contra os patrões e o governo". Que maravilha! Com que talento inimitável, com que magistral eliminação de todas as diferenças parciais, de todas as variedades de matizes entre "economistas", encontra-se expressa aqui, numa proposição breve e límpida, toda a essência do "economismo", desde o apelo instigando os operários à "luta política que conduzem no interesse geral, a fim de melhorar a sorte de todos os operários", passando pela teoria dos estádios, para finalizar com a resolução do congresso sobre o "meio mais amplamente aplicável" etc. "A luta económica contra o governo" constitui exactamente a política sindical, que ainda se encontra muito e muito longe da política social-democrata.


 

b) Como Martynov aprofundou Plekhanov

"Que quantidade de Lomonossovs sociais-democratas surgiram entre nós, nos últimos tempos!" observou um dia um camarada, referindo-se à inclinação surpreendente de muitos daqueles que se voltam para o "economismo", para chegar apenas "pela sua própria inteligência" às grandes verdades (como, por exemplo, aquela de que a luta económica instiga os operários a pensar que estão frustrados em seus direitos), desconhecendo, com soberano desprezo próprio do talento nato, tudo o que já foi dado pelo desenvolvimento anterior do pensamento e do movimento revolucionários. Esse talento nato é justamente Lomonossov-Martynov. Olhem o seu artigo, "As Questões Imediatas", e verão como chega "pela sua própria inteligência" àquilo que há muito foi dito por Axelrod (a propósito de quem o nosso Lomonossov, bem entendido, guarda um silêncio absoluto); como começa, por exemplo, a compreender que não podemos desconhecer o espírito de oposição dessas ou daquelas camadas da burguesia (R. D. nº.9, p. 61, 62, 71 - comparem à "Resposta" da redacção do R D. a Axelrod, p. 22, 23-24) etc. Mas, ai! só chega e só começa; pois, compreendeu tão pouco do pensamento de Axelrod, que fala da "luta económica contra os patrões e o governo". Durante três anos (1898-1901) o Rabótcheie Dielo esforçou-se para compreender Axelrod, e ainda não o compreendeu! Será que isto ocorre talvez porque para a social-democracia, da mesma forma que para a humanidade", sempre são colocados tarefas realizáveis? Mas, os Lomonossovs não somente ignoram de maneira particular as coisas (isto seria apenas meio mal!), como também não se dão conta da sua ignorância. Isto constitui uma verdadeira desgraça, que os leva a empreender repentinamente a tarefa de "aprofundar" Plekhânov. "Depois que Plekhânov escreveu o opúsculo em questão (As Tarefas dos Socialistas na Luta Contra a Fome na Rússia) muita água correu", diz Lomonossov-Martynov. "Os sociais-democratas que dirigiram durante dez anos a luta económica da classe operária... ainda não tiveram tempo de dar amplo fundamento teórico à táctica do Partido. Agora essa questão chegou à maturidade, e se quisermos conferir tal fundamento teórico, devemos aprofundar de forma segura os princípios tácticos que, em seu tempo, Plckhânov desenvolveu... Devemos agora diferenciar entre a propaganda e a agitação, de maneira distinta do que o fez Plekhánov. (Martynov acaba de citar as palavras de Plekhânov: "O propagandista inculca muitas ideias numa única pessoa, ou num pequeno número de pessoas: o agitador inculca apenas uma única ideia ou um pequeno número de ideias: em troca, inculca-as em toda uma massa de pessoas"). "Por propaganda entendemos a explicação revolucionária de todo o regime actual, ou das suas manifestações parciais, quer feita de forma acessível a apenas algumas pessoas, ou às grandes massas. pouco importa. Por agitação, no sentido estrito da palavra (sic), entendemos o apelo dirigido às massas para certos actos concretos, a contribuição para a intervenção revolucionária directa do proletariado na vida social." As nossas felicitações à social-democracia russa - e internacional - que recebe assim, graças a Martynov, uma nova terminologia mais estrita e mais profunda. Até agora, pensávamos (com Pekhânov e todos os dirigentes do movimento operário internacional) que um propagandista, ao tratar por exemplo do problema do desemprego, deve explicar a natureza capitalista das crises, mostrar o que as torna inevitáveis na sociedade moderna, mostrar a necessidade da transformação dessa sociedade em sociedade socialista etc. Numa palavra, deve fornecer "muitas ideias", um número tão grande de ideias que, de momento, todas essas ideias tomadas em conjunto apenas poderão ser assimiladas por um número (relativamente) restrito de pessoas. Tratando da mesma questão, o agitador tomará o facto mais conhecido dos seus ouvintes, e o mais palpitante, por exemplo uma família de desempregados mortos de fome, a indigência crescente etc., e apoiando-se sobre esse facto conhecido de todos, fará todo o esforço para dar à "massa" uma única ideia": a da contradição absurda entre o aumento da riqueza e o aumento da miséria; esforçar-se-á para suscitar o descontentamento, a indignação da massa contra essa injustiça gritante, deixando ao propagandista o cuidado de dar uma explicação completa dessa contradição. Por isso, o propagandista age principalmente por escrito, e o, agitador de viva voz. Não se exige de um propagandista as mesmas qualidades de um agitador. Diremos que Kautsky e Lafargue, por exemplo, são propagandistas, enquanto Bebel e Guesde são agitadores. Distinguir um terceiro domínio, ou uma terceira função da actividade prática, função que consistiria em "atrair as massas para certos actos concretos", é o maior dos absurdos, pois o "apelo" sob forma de acto isolado, ou é o complemento natural e inevitável do tratado teórico, do folheto e propaganda, do discurso da agitação, ou é uma função pura e simples de execução. De facto, tomemos, por exemplo, a luta actual dos sociais-democratas alemães contra os direitos alfandegários sobre os cereais. Os teóricos redigem estudos especiais sobre a política alfandegária, onde "apelam", digamos assim, para se lutar por tratados comerciais e pela liberdade do comércio; o propagandista faz o mesmo numa revista, e o agitador nos discursos públicos. Os "actos concretos" da massa são, nesse caso, a assinatura de uma petição endereçada ao "Reichstag" contra a majoração dos direitos alfandegários sobre os cereais. O apelo a essa acção emana indirectamente dos teóricos, dos propagandistas e dos agitadores, e directamente dos operários que passam as listas de petição nas fábricas e domicílios particulares. Segundo a "terminologia de Martynov", Kautsky e Bebel seriam ambos propagandistas e portadores das listas dos agitadores. Não é isso? Esse exemplo dos alemães me faz pensar na palavra alemão Verbalhornung, literalmente: "balhornização". Jean Balhorn foi um editor, que viveu no século XVI, em Leipzig; publicou um abecedário onde, segundo o hábito, figurava entre outros desenhos um galo; mas, o galo era representado sem esporões e com dois ovos ao lado. No frontispício fora acrescentado: "Edição corrigida de Jean Balhorn." Desde essa época, os alemães qualificam de Verbalhornung uma "correcção" que, na verdade, é o contrário de uma melhoria. A história de Balhorn vem-me à mente de maneira involuntária, quando vejo como os Martynov "aprofundam" Plekhànov... Por que o nosso Lomonossov "imaginou" essa terminologia confusa? Para mostrar que o Iskra, "da mesma maneira que Plekhânov há quinze anos, não considera senão um lado das coisas". "No Iskra, ao menos agora, as tarefas da propaganda relegam para segundo plano as da agitação". Se traduzirmos essa última tese da língua de Martynov para linguagem humana (pois a humanidade ainda não teve tempo de adoptar a terminologia que acaba de ser descoberta), chegamos ao seguinte: no Iskra, as tarefas de propaganda e da agitação política relegam para segundo plano a que consiste "em apresentar ao governo reivindicações concretas de medidas legislativas e administrativas", "prometendo resultados tangíveis" (dito de outra forma, reivindicações de reformas sociais, se nos é permitido, ainda uma vez mais, empregar a antiga terminologia da antiga humanidade, que ainda não chegou à altura de Matynov.) Que o leitor compare a essa tese a seguinte passagem "0 que nos espanta nesses programas" (os programas dos sociais-democratas revolucionários), "é que colocam constantemente em primeiro plano as vantagens da acção dos operários para o Parlamento (inexistente entre nós) e desconhecem totalmente (em decorrência de seu niilismo revolucionário) a importância que teria a participação dos operários nas assembleias legislativas patronais - existentes entre nós - nos assuntos da fábrica... ou mesmo simplesmente a sua participação na administração municipal"... 0 autor dessa passagem exprime, de maneira um pouco mais aberta, um pouco mais clara e franca, a mesma ideia à qual chegou Lomonossov-Martynov pela sua própria inteligência. O autor é R. M. do "Suplemento especial da Rabótchaia Mysl" (p. 15). 


C) As revelações políticas e "A educação para a actividade revolucionária" 

     Dirigindo contra o Iskra a sua "teoria" da "elevação da actividade da massa operária", Martynov revelou, na realidade, a sua tendência de rebaixar essa actividade declarando que o melhor meio, o de especial importância, "o mais amplamente aplicável" para suscitá-la, e o próprio campo dessa actividade era essa mesma luta económica diante da qual se prostram todos os "economistas". Erro característico, pois está longe de ser unicamente próprio de Martynov. Na realidade, a "elevação da actividade da massa operária" será possível unicamente se não nos limitarmos à "agitação política no terreno económico". Ora, uma das condições essenciais para a extensão necessária da agitação política é organizar as revelações políticas em todos os aspectos. Somente essas revelações podem formar a consciência política e suscitar a actividade revolucionária das massas. Por isso essa actividade é uma das funções mais importantes de toda a social-democracia internacional, pois mesmo a liberdade política não elimina absolutamente as revelações; apenas modifica um pouco sua direcção. Assim, o partido alemão, graças à constante energia com que prossegue a sua campanha de revelações políticas, fortifica de modo particular as suas posições e estende a sua influência. A consciência da classe operária não pode ser uma consciência política verdadeira, se os operários não estiverem habituados a reagir contra todo o abuso, toda a manifestação de arbitrariedade, de opressão e de violência, quaisquer que sejam as classes atingidas; a reagir justamente do ponto de vista social-democrata, e não de qualquer outro ponto de vista. A consciência das massas operárias não pode ser uma consciência de classe verdadeira, se os operários não aprenderem a aproveitar os factos e os acontecimentos políticos concretos e de grande actualidade, para observar cada uma das outras classes sociais em todas as manifestações da sua vida intelectual, moral e política; se não aprenderem a aplicar praticamente a análise e o critério materialista a todas as formas da actividade e da vida de todas as classes, categorias e grupos de população. Todo aquele que orienta a atenção, o espírito de observação e a consciência da classe operária exclusiva ou preponderantemente para ela própria, não é um social-democrata; pois para se conhecer a si própria, de facto, a classe operária deve ter um conhecimento preciso das relações recíprocas de todas as classes da sociedade contemporânea, conhecimento não apenas teórico... ou melhor: não só teórico, como fundamentado na experiência da vida política. Eis porque os nossos "economistas", que pregam a luta económica como o meio mais amplamente aplicável para integrar as massas no movimento político, realizam um trabalho profundamente prejudicial e reaccionário nos seus resultados práticos. Para se tornar um social-democrata, o operário deve ter uma ideia clara da natureza económica, da fisionomia política e social do grande proprietário de terras e do pope, do dignitário e do camponês, do estudante e do vagabundo, conhecer os seus pontos fortes e os seus pontos fracos, saber enxergar nas fórmulas correntes e sofismas de toda espécie com que cada classe e cada camada social encobre os seus apetites egoístas e sua verdadeira "natureza"; saber distinguir esses ou aqueles interesses que reflectem as instituições e as leis, e como as reflectem. Ora, não é nos livros que o operário poderá obter essa "ideia clara": ele a encontrará apenas nas amostras vivas, nas revelações ainda recentes do que se passa num determinado momento à nossa volta, do que todos ou cada um falam ou cochicham entre si, do que se manifesta nesses ou naqueles factos, números, veredictos, e assim até o infinito. Essas revelações políticas abrangendo todos os aspectos são a condição necessária e fundamental para educar as massas em função de sua actividade revolucionária. Por que o operário russo ainda manifesta tão pouco sua actividade revolucionária face às violências selvagens exercidas pela polícia contra o povo, face à perseguição das seitas, às "vias de facto" quanto aos camponeses, aos abusos escandalosos da censura, às torturas infligidas aos soldados, à guerra feita às iniciativas mais inofensivas em matéria de cultura, e assim por diante? Será porque a "luta económica" não o "incita" a isso, porque lhe "promete" poucos "resultados tangíveis", lhe oferece poucos resultados "positivos"? Não, repetimos, pretender isso é querer atribuir a outrem as suas próprias faltas, é atribuir à massa operária o seu próprio filistinismo (ou bernisteinismo). Até agora, não soubemos organizar campanhas de denúncias suficientemente amplas, ruidosas e rápidas contra todas essas infâmias; a culpa é nossa, de nosso atraso em relação ao movimento de massas. E se o fizermos (devemos e podemos faze-lo), o operário mais atrasado compreenderá ou sentirá que o estudante e o membro de uma seita, o mujique e o escritor estão expostos às injúrias e à arbitrariedade da mesma força tenebrosa que o oprime e pesa sobre ele a cada passo, durante toda sua vida; e, tendo sentido isso, desejará, desejará irresistivelmente e saberá ele próprio reagir; hoje, ele fará "arruaças" contra os censores, amanhã fará manifestações diante da casa do governador, que terá reprimido uma revolta camponesa, depois de amanhã castigará os policiais de sotaina que fazem o trabalho da santa inquisição etc. Até agora fizemos muito pouco, quase nada, para lançar entre as massas operárias revelações sobre todos os aspectos da actualidade. Muitos de entre nós não têm nem mesmo consciência dessa obrigação que lhes cumpre, e arrastam-se cegamente em consequência da "obscura luta quotidiana" no estreito quadro da vida da fábrica. Daí dizer - "o Iskra tem tendência a subestimar a importância da marcha progressiva da obscura luta quotidiana, comparada à propaganda das brilhantes   ideias acabadas (Martynov, p. 61)" - é arrastar o Partido para trás, é defender e glorificar a nossa falta de preparação, o nosso atraso. Quanto ao apelo às massas para a acção, isto será feito por si, desde que haja uma agitação política enérgica, revelações vivas e precisas.  Apanhar alguém em flagrante delito e acusá-lo perante todos e em toda parte é mais eficaz do que qualquer apelo, e constitui uma forma de agitação onde, muitas vezes, é impossível estabelecer quem precisamente "atraiu" a multidão e colocou em andamento esse ou aquele plano de manifestação etc. Fazer o apelo, não de forma geral, mas no sentido próprio da palavra, não é possível senão der lugar à acção: não se pode impelir os outros a agir, se não se dá imediatamente o próprio exemplo. Para nós, publicistas (escritores políticos) sociais-democratas, cabe aprofundar, ampliar e intensificar as revelações políticas e a agitação política. A propósito dos "apelos". O único órgão que, antes dos acontecimentos da Primavera, chamou os operários a intervir activamente numa questão que não lhes prometia de modo algum qualquer resultado tangível, como o recrutamento forçado dos estudantes para o exército, foi o "Iskra". Imediatamente após a publicação da ordem de 11 de Janeiro sobre "o recrutamento forçado de 183 estudantes para o exército", o Iskra, antes de qualquer manifestação, publicou um artigo a esse respeito (n.º 2, Fevereiro) e apelou abertamente "ao operário para vir em auxílio do estudante", apelou ao "povo" para contestar o insolente desafio do governo. Perguntamos a todos: como e através do que explicar o facto marcante de Martynov, que fala tanto dos "apelos" como uma forma especial de actividade, nada ter dito sobre esse apelo? Depois disso, não será filistinismo da parte de Martynov, declarar que o Iskra é unilateral pela razão exclusiva de não "apelar" suficientemente à luta pelas reivindicações "que prometem resultados tangíveis"? Os nossos "economistas", aí incluído o Rabótcheie Dielo, tiveram êxito porque se dobraram à mentalidade dos operários atrasados. Mas o operário social-democrata, o operário revolucionário (o número desses operários aumenta dia a dia) repudiará com indignação todos esses raciocínios sobre a luta pelas reivindicações "que prometem resultados tangíveis" etc., pois compreenderá que não são mais do que variações sobre o velho tema do aumento de um copeque por rublo. Este operário dirá aos seus conselheiros da Rabótchaia Mysl e do Rabótcheie Dielo: "Não é justo que os senhores se dêem a tanto trabalho e intervenham com tanto zelo em assuntos dos quais nós mesmo nos ocupamos, e deixem de cumprir os seus próprios deveres. Não é muito inteligente dizer, como os senhores fazem, que a tarefa dos sociais-democratas é conferir um carácter político à própria luta económica; isso é apenas o princípio, e não constitui a tarefa essencial dos sociais-democratas, pois no mundo inteiro, e aí também está incluída a Rússia, é a própria polícia que começa a conferir à luta económica um carácter político; os próprios operários aprendem a compreender a quem serve o governo. De facto, "a luta económica dos operários contra os patrões e o governo", que os senhores louvam como se tivessem descoberto uma nova América, é conduzida em todos os recantos da Rússia pelos próprios operários, que ouviram falar de greves, mas, provavelmente, ignoram tudo sobre o socialismo. A nossa "actividade" de operários, actividade que os senhores obstinam-se a querer apoiar lançando reivindicações concretas, que prometem resultados tangíveis, já existe entre nós; e em nossa acção profissional ordinária, de todos os dias, apresentamos nós próprios essas reivindicações concretas, a maior parte das vezes sem qualquer ajuda dos intelectuais. Mas essa actividade não nos satisfaz; não somos crianças que podem ser alimentadas apenas com a "sopinha" da política "económica"; queremos saber tudo o que os outros sabem, queremos conhecer em detalhe todos os aspectos da vida política e participar activamente de cada acontecimento político. Para isso, é necessário que os intelectuais nos repitam um pouco menos o que já sabemos, e que nos dêem um pouco mais do que ainda ignoramos, daquilo que a nossa experiência "económica", na fábrica, jamais nos ensinará: os conhecimentos políticos. Esses conhecimentos apenas os senhores, intelectuais, podem adquirir, é seu dever fornecer-nos tais conhecimentos em quantidades cem, mil vezes maiores do que o fizeram até agora, e não apenas sob a forma de raciocínios, folhetos e artigos (os quais frequentemente costumam ser - perdoem a franqueza! - maçantes), mas - e isto é imperioso - sob a forma de revelações vivas sobre o que fazem o nosso governo e as nossas classes dominantes exactamente no momento actual, em todos os aspectos da vida. Portanto, ocupem-se um pouco mais ciosamente da tarefa que lhes pertence, e façam menos "de elevar a actividade da massa operária". Da actividade, sabemos muito mais do que os senhores pensam, e sabemos mantê-la através de uma luta aberta, dos combates de rua, e até através das reivindicações que não deixam entrever nenhum "resultado tangível"! E não lhes compete "elevar" a nossa actividade, pois, é exactamente actividade o que lhes falta. Não se inclinem tanto diante da espontaneidade, e pensem um pouco mais em elevar a vossa própria actividade, Senhores!"  

d) O que há de comum entre o Economismo e o Terrorismo 

     Confrontámos anteriormente, numa nota, um "economista" e um não social-democrata terrorista que, por acaso, fossem solidários. Mas, de forma geral, existe entre eles uma ligação interna, não acidental, mas necessária, a respeito da qual voltamos exactamente a propósito da educação da actividade revolucionária. Os "economistas" e os terroristas de hoje possuem uma raiz comum, a saber, o culto da espontaneidade de que falámos no capítulo anterior como um fenómeno geral, e que iremos agora examinar na sua influência sobre a acção e a luta políticas. À primeira vista, a nossa afirmação pode parecer paradoxal, tão grande parece ser a diferença entre os que colocam em primeiro plano "a obscura luta quotidiana", e os que induzem o indivíduo isolado a lutar com a maior abnegação. Mas tal ponto não constitui um paradoxo. "Economistas" e terroristas inclinam-se perante os dois pólos opostos da tendência espontânea: os "economistas", diante da espontaneidade do "movimento operário puro"; os terroristas, diante da espontaneidade da mais ardente indignação dos intelectuais que não sabem ou não podem conjugar o trabalho revolucionário e o movimento operário. De facto, é difícil para os que perderam a fé nessa possibilidade, ou que nela jamais acreditaram, encontrar outra saída para a sua indignação e energia revolucionária, que não o terrorismo. Assim, em consequência, nessas duas tendências o culto da espontaneidade é apenas o começo da realização do famoso programa do Credo: os operários conduzem a sua "luta económica contra os patrões e o governo" (que o autor do Credo nos perdoe exprimir o seu pensamento na língua de Martynov! Julgamo-nos no direito de fazê-lo, uma vez que no Credo também se fala que na luta económica os operários "entram em choque com o regime político"), e os intelectuais conduzem a luta política através de suas próprias forças, naturalmente por intermédio do terror! Dedução absolutamente lógica e inevitável sobre a qual não será demais insistir, mesmo quando aqueles que começam a realizar esse programa não compreendem o carácter inevitável dessa conclusão. A actividade política tem a sua lógica, independente da consciência daqueles que, com as melhores intenções do mundo, ou apelam ao terror, ou pedem que se confira à própria luta económica um carácter político. O inferno está cheio de gente de boas intenções e, neste caso, as boas intenções não impedem que as pessoas se deixem seduzir pela "lei do mínimo esforço", pela linha do programa puramente burguês do Credo. De facto, não é por acaso que muitos liberais russos - liberais declarados, ou liberais que trazem a máscara do marxismo - simpatizam de todo o coração com o terrorismo e esforçam-se, no momento actual, por apoiar o crescimento da mentalidade terrorista. O aparecimento do "Grupo Revolucionário-Socialista Svoboda", que atribui a si próprio a tarefa de ajudar, através de todos os meios, o movimento operário, mas que inscreveu no seu programa o terrorismo e, por assim dizer, emancipou-se da social-democracia, confirmou uma vez mais a notável clarividência de P. Axeldrov que, já no final de 1897, previra com toda a exactidão esse resultado das flutuações da social-democracia ("A propósito dos objectivos actuais e da táctica"), e esboçou as suas célebres "Duas Perspectivas". Todas as discussões e divergências ulteriores entre os sociais-democratas russos estão contidas, como a planta na semente, nessas duas perspectivas. A partir daí concebe-se que o Rabótcheie Dielo não tenha resistido à espontaneidade do "economismo", nem tenha podido resistir à espontaneidade do terrorismo. É interessante notar a argumentação original com que a Svoboda apoia o terrorismo. Nega completamente o papel de intimidação do terror (Renascimento do Revolucionismo, p. 64); mas por outro lado valoriza o seu "carácter excitativo". Isto é característico, em primeiro lugar, de uma das fases da desagregação e da decadência do círculo tradicional de ideias (pré-social-democrata) que fazia que se mantivesse a ligação com o terrorismo. Admitir que agora é impossível "intimidar" e, por conseguinte, desorganizar o governo através do terrorismo, significa, no fundo, condenar completamente o terrorismo como método de luta, como esfera de actividade consagrada por um programa. Em segundo lugar, o que ainda é mais característico, como exemplo de incompreensão das nossas tarefas prementes no que diz respeito à "educação da actividade revolucionária das massas", a Svoboda prega o terrorismo como meio de "excitar" o movimento operário, de imprimir-lhe um impulso vigoroso. Seria difícil imaginar uma argumentação que se refutasse a si própria com mais evidência! Pergunta-se: haveria, portanto, tão poucos factos escandalosos na vida russa para ser preciso inventar meios especiais de "excitação"? Por outro lado, é evidente que aqueles que não se excitam, nem são excitáveis mesmo pela arbitrariedade russa, observarão da mesma forma, "cruzando os braços", o duelo do governo com um punhado de terroristas. Ora, são exactamente as massas operárias que estão bastante excitadas pelas infâmias da vida russa, mas somos nós que não sabemos recolher,   se é possível falar assim, e concentrar todas as gotas e todos os pequenos córregos da efervescência popular, que a vida russa verte em quantidade infinitamente maior do que imaginamos ou acreditamos, e que é preciso reunir numa única torrente gigantesca. Que isso é realizável, prova-o incontestavelmente o impulso prodigioso do movimento operário e a sede, já assinalada anteriormente, que os operários manifestam pela literatura política. Por isso, os apelos ao terrorismo, bem corno., os apelos para conferir à própria luta económica um carácter político, são apenas pretextos diferentes para se fugir ao dever mais imperioso dos revolucionários russos: organizar a agitação política sob todas as suas formas. A Svoboda quer substituir a agitação pelo terrorismo, reconhecendo abertamente que "desde que uma agitação enérgica e intensa atraia as massas, o papel excitativo do terror terá fim" (p. 68 do Renascimento do Revolucionarismo). Isto mostra precisamente que terroristas e "economistas" subestimam a actividade revolucionária das massas, a despeito do testemunho evidente dos acontecimentos da primavera. Uns lançam-se à procura de "excitantes" artificiais, outros falam de "reivindicações concretas". Tanto uns como outros não prestam atenção suficiente ao desenvolvimento de sua própria actividade em matéria de agitação política e de organização de revelações políticas. E não há nada que possa substituir isso, nem agora, nem em qualquer outro momento. 


Que fazer? III-2- Política sindical e política social-democrata

e) A classe operária como combatente de vanguarda pela democracia

Vimos que a agitação política mais ampla e, por conseguinte, a organização de grandes campanhas de denúncia política constituem uma tarefa absolutamente necessária, a tarefa mais imperiosamente necessária à actividade, se esta actividade for verdadeiramente social-democrata. Mas, chegámos a esta conclusão partindo unicamente da necessidade mais premente da classe operária, a necessidade de conhecimentos políticos e de educação política. Ora, esta forma de colocar a questão, em si mesma,  é demasiado restrita, pois não tem em conta as tarefas democráticas de toda a social-democracia em geral, e da social-democracia russa actual em particular. Para esclarecer esta tese, da maneira mais concreta que é possível, tentaremos abordar a questão do ponto de vista mais "familiar" aos "economistas", do ponto de vista prático.  Todos estamos de acordo que é preciso desenvolver a consciência política da classe operária. A questão está em saber como fazê-lo e o que é preciso para isso. A luta económica "incita" os operários "a pensar" unicamente na atitude do governo em relação à classe operária, por isso, quaisquer que sejam os esforços que façamos para "conferir à própria luta económica um carácter político", jamais poderemos, dentro desse objectivo, desenvolver a consciência política dos operários (até ao nível da consciência política social-democrata), pois, os próprios limites desse objectivo são demasiado estreitos. A fórmula de Martynov é-nos preciosa, não como ilustração do talento confuso do seu autor, mas porque traduz de forma relevante o erro capital de todos os "economistas", a saber: a convicção de que se pode desenvolver a consciência política de classe dos operários, por assim dizer, a partir do interior da sua luta económica, isto é, partindo unicamente (ou, pelo menos, principalmente) dessa luta, baseando-se unicamente (ou, pelo menos, principalmente) nessa luta. Essa perspectiva é radicalmente falsa, justamente porque os "economistas", extenuados pela nossa polémica contra eles, não querem reflectir seriamente sobre a origem das nossas divergências, e sobre o que resultou disso: literalmente não nos compreendemos, e falamos línguas diferentes. A consciência política de classe não pode ser levada ao operário senão do exterior, isto é, do exterior da luta económica, do exterior da esfera das relações entre operários e patrões.  O único domínio de onde se poderá extrair esses conhecimentos é o das relações de todas as classes e categorias da população com o Estado e o governo, o domínio das relações de todas as classes entre si. Por isso, à questão: que fazer para levar aos operários conhecimentos políticos? - Não se pode simplesmente dar a resposta com a qual se contentam, na maioria dos casos, os práticos, sem falar daqueles de entre eles que se inclinam para o "economismo",  ou seja, não se pode simplesmente responder  "ir até aos operários".  Para levar aos operários os conhecimentos políticos, os sociais-democratas devem ir a todas as classes da população, devem enviar em todas as direcções os destacamentos do seu exército. Se escolhemos esta fórmula rude, se a nossa linguagem é cortante, deliberadamente simplificada, não é absolutamente pelo prazer de enunciar paradoxos, mas para "incitar" os "economistas" a pensar nas tarefas que desdenham de maneira tão imperdoável, na diferença existente entre a política sindical e a política social-democrata, que não querem compreender. Por isso, pedimos ao leitor para não se impacientar e seguir-nos atentamente até ao fim.

     Consideremos o tipo de círculo social-democrata mais difundido nestes últimos anos e vejamos a sua actividade. Tem "contactos com os operários" e atém-se a isso, editando "folhas volantes" onde condena os abusos nas fábricas, o partido que o governo toma em favor dos capitalistas e as violências da polícia. Nas reuniões com os operários, é sobre tais assuntos que se desenrola ordinariamente a conversa, sem quase sair disso; as conferências e debates sobre a história do movimento revolucionário, sobre a política interna e externa do nosso governo, sobre a evolução económica da Rússia e da Europa, sobre a situação destas ou daquelas classes na sociedade contemporânea etc., constituem excepções extremas, e ninguém pensa em estabelecer e desenvolver sistematicamente relações no seio das outras classes da sociedade. Para dizer a verdade, o ideal do militante, para os membros de tal círculo, aproxima-se na maioria dos casos muito mais ao de secretário de sindicato do que ao de dirigente político socialista. De facto, o secretário de um sindicato inglês, por exemplo, ajuda constantemente os operários a conduzir a luta económica, organiza revelações sobre a vida na fábrica, explica a injustiça das leis e disposições que entravam a liberdade de greve, a liberdade dos piquetes (para prevenir todos que há greve numa determinada fábrica); mostra qual o partido que tomam os juízes que pertencem às classes burguesas etc. etc. Numa palavra, todo o secretário de sindicato conduz e ajuda a conduzir a "luta económica contra os  

patrões e o governo". E não seria demais insistir que isto ainda não é "social-democrático"; que o social-democrata não deve ter por ideal o de secretário do sindicato, mas o de tribuno popular, que sabe reagir contra toda manifestação de arbitrariedade e de opressão, onde quer que se produza, qualquer que seja a classe ou camada social atingida, que sabe generalizar todos os factos para compor um quadro completo da violência policial e da exploração capitalista, que sabe aproveitar a menor ocasião para expor diante de todos as suas convicções socialistas e as suas reivindicações democratas, para explicar a todos e a cada um o alcance histórico da luta emancipadora do proletariado. Comparemos, por exemplo, os militantes como Robert Knight (o secretário e líder bem conhecido da "União dos Caldeireiros", um dos sindicatos mais poderosos da Inglaterra) e Wilhelm Liebknecht, e tentemos aplicar-lhes as teses opostas às quais Martynov reduz as suas divergências com o Iskra. Veremos - começo a folhear o artigo de Martynov - que R. Knight "conclamou" muito mais "as massas a determinadas acções concretas, e que W. Liebknecht se ocupou principalmente em "apresentar-se como revolucionário de todo o regime actual ou das suas manifestações parciais" (38-39); que R. Knight "formulou as reivindicações imediatas do proletariado e indicou os meios de atingi-las", e que W. Liebknecht, ocupando-se igualmente dessa tarefa, não se recusou a "dirigir ao mesmo tempo a acção das diferentes camadas e a oposição", a "ditar-lhes um programa de acção positiva"; que R. Knight se dedicou precisamente a "conferir, tanto quanto possível, à própria luta económica um carácter político",  e soube perfeitamente "colocar ao governo reivindicações concretas fazendo entrever resultados tangíveis", enquanto W. Liebknecht se ocupou muito mais de revelações "num sentido único"; que R. Knight deu muito mais importância "à marcha progressiva da obscura luta quotidiana", e W. Liebknecht à "propaganda de ideias brilhantes e acabadas"; que W. Liebknecht fez do jornal que dirigia exactamente "o órgão da oposição revolucionária que denuncia o nosso regime, e principalmente o regime político, aquele que vai de encontro aos interesses das diversas camadas da população", enquanto R. Knight "trabalhou pela causa operária em estreita ligação orgânica com a luta proletária" - se entendermos a "estreita ligação orgânica" no sentido do culto da espontaneidade que estudámos anteriormente a propósito de Kritchévski e de Martynov, - e "restringiu a esfera da sua influência" naturalmente persuadido, como Martynov, que "acentuava" essa influência através disso mesmo.  Numa palavra, veremos que, de facto, Martynov rebaixa a social-democracia ao nível do sindicalismo, certamente não por deixar de querer o bem da social-democracia mas, simplesmente, porque se apressou um pouco demais em aprofundar Plekhanov em lugar de se dar ao trabalho de compreendê-lo. Mas voltemos à nossa exposição.

     Como dissemos, se o social-democrata é adepto do desenvolvimento integral da consciência política do proletário não só em palavras, então deve "ir a todas as classes da população". A questão que se coloca é: como fazê-lo? Temos forças suficientes para isso? Existe um campo para tal trabalho em todas as outras classes? Isto não será ou não levará a um retrocesso do ponto de vista de classe? Vamos deter-nos nestas questões. Devemos "ir a todas as classes da população" como teóricos, como propagandistas, como agitadores e como organizadores. Ninguém duvida que o trabalho teórico dos sociais-democratas deva orientar-se para o estudo de todas as particularidades da situação social e política das diferentes classes. Mas, a esse respeito fazemos muito pouco, muito pouco em comparação com o estudo das particularidades da vida na fábrica. Nos comités e nos círculos, encontramos pessoas que se especializam até no estudo de um ramo da produção siderúrgica, mas não encontramos quase exemplos de membros de organizações que (obrigados, como ocorre frequentemente, a deixar a acção prática por alguma razão) se ocupem especialmente em colectar documentos sobre uma questão da actualidade na nossa vida social e política, podendo fornecer à social-democracia a ocasião de trabalhar nas outras categorias da população. Quando se fala da precária preparação da maioria dos dirigentes actuais do movimento operário, não é possível deixar de lembrar, igualmente, a fraca preparação nesse sentido, pois também ela é devida à compreensão "economista" da "estreita ligação orgânica com a luta proletária". Mas o principal, evidentemente, é a propaganda e a agitação em todas as camadas do povo. Para o social-democrata do Ocidente, essa tarefa é facilitada pelas reuniões e assembleias populares assistidas por todos aqueles que o desejam, pela existência de Parlamento, onde fala diante dos deputados de todas as classes. Não temos Parlamento, nem liberdade de reunião, mas, contudo, sabemos organizar reuniões com os operários que desejam ouvir um social-democrata. Pois não é social-democrata aquele que, na prática, esquece que os "comunistas apoiam todo o movimento revolucionário", que, por conseguinte, temos o dever de expor e de assinalar as tarefas democráticas gerais diante de todo o povo, sem dissimular, um instante sequer, as nossas convicções socialistas. Não é social-democrata aquele que, na prática, esquece que o seu dever é ser o primeiro a colocar, a despertar e a resolver toda e qualquer questão democrática de ordem geral. "Mas todos, sem excepção, estão de acordo com isso!", interromperá o leitor impaciente - e a nova instrução à redacção do Rabótcheie Dielo, adoptada no último congresso da União, declara claramente: "Devem ser utilizados para a propaganda e a agitação política todos os fenómenos e acontecimentos da vida social e política que afectem o proletariado, seja directamente como classe à parte, seja como vanguarda de todas as forças revolucionárias em luta pela liberdade " (Dois Congressos, p. 17, grifado por nós). De facto, estas são palavras notáveis e precisas, e dar-nos-íamos por inteiramente satisfeitos se o "Rabótcheie Dielo" as compreendesse e não colocasse, ao mesmo tempo, outras que as contradizem. Pois, não basta dizer-se "vanguarda", destacamento avançado, - é preciso proceder de forma a que todos os outros destacamentos se dêem conta e sejam obrigados a reconhecer que somos nós que marchamos à frente. Portanto, perguntamos ao leitor: os representantes dos outros "destacamentos" seriam, pois, imbecis a ponto de acreditar que somos "vanguarda" só porque o dizemos? Imaginem apenas este quadro concreto: um social-democrata apresenta-se no "destacamento" dos radicais russos ou dos constitucionalistas liberais, e diz: somos a vanguarda; "agora uma tarefa nos é colocada: como conferir, tanto quanto possível, à própria luta económica um carácter político". Um radical ou um constitucionalista, por pouco inteligente que seja (e há muitos homens inteligentes entre os radicais e os constitucionalistas russos), apenas sorrirá ao ouvir isso, e dirá (para si, bem entendido, pois na maioria dos casos é um diplomata experimentado): "essa vanguarda é muito ingénua"! Não compreende sequer que é tarefa nossa - a tarefa dos representantes avançados da democracia burguesa - conferir à própria luta económica um carácter político. Porque também nós, como todos os burgueses do Ocidente, desejamos integrar os operários à política, mas apenas à política sindical, e não à social-democrata. A política sindical da classe operária é precisamente a política burguesa da classe operária. E essa "vanguarda", formulando a sua tarefa, formula precisamente uma política sindical!  Embora repitam inúmeras vezes, tantas quantas lhes apetece,  que são sociais-democratas. Não sou uma criança para me importar com rótulos! Mas, que não se deixem levar por esses dogmáticos ortodoxos nocivos; que deixem "a liberdade de crítica" para aqueles que arrastam inconscientemente a social-democracia na esteira do sindicalismo! O ligeiro sorriso de ironia de nosso constitucionalista muda-se em gargalhada homérica, quando percebe que os sociais-democratas que falam de vanguarda da social-democracia, neste período de dominação quase completa da espontaneidade no nosso movimento, temem acima de tudo ver "minimizar o elemento espontâneo", ver "diminuir o papel da marcha progressiva dessa obscura luta quotidiana em relação à propaganda das brilhantes ideias acabadas" etc. etc.! O destacamento "avançado" que teme ver a consciência ganhar à espontaneidade, que teme formular um "plano" ousado que force o reconhecimento geral, mesmo entre os que pensam diferentemente! Será que confundem, por acaso, a palavra vanguarda com a palavra retaguarda? Examinem com atenção o seguinte raciocínio de Martynov. Declara ele (40) que a táctica acusadora do Iskra é unilateral; que "qualquer que seja a espécie de desconfiança e de ódio que semearmos contra o governo, não alcançaremos o nosso objectivo enquanto não desenvolvermos uma energia social suficientemente activa para o seu derrube". Eis, diga-se entre parênteses, a preocupação - que já conhecemos - de intensificar a actividade das massas e de querer restringir a sua própria. Mas, agora não é esta a questão. Martynov fala aqui de energia revolucionária ("para o derrube"). Porém, a que conclusão chega? Como em tempos normais, as diferentes camadas sociais actuam inevitavelmente cada uma no seu lado, "é claro, por conseguinte, que nós, sociais-democratas, não podemos simultaneamente dirigir a actividade intensa das diversas camadas da oposição, não podemos ditar-lhes um programa de acção positiva, não podemos indicar-lhes os meios de lutar, dia após dia, pelos seus interesses... As camadas liberais ocupar-se-ão, elas próprias, dessa luta activa pelos seus interesses imediatos, o que as colocará face a face com nosso regime político" (41). Assim, portanto, após ter falado de energia revolucionária, de luta activa para o derrube da autocracia, Martynov desvia-se logo para a energia profissional, para a luta activa pelos interesses imediatos! Disso se conclui que não podemos dirigir a luta dos estudantes, dos liberais etc., pelos seus "interesses imediatos"; mas não era disso que se tratava, respeitável "economista"! Tratava-se da participação possível e necessária das diferentes camadas sociais no derrube da autocracia; ora, não apenas podemos, mas devemos dirigir, de qualquer forma, essa "actividade intensa das diferentes camadas da oposição" se quisermos ser a "vanguarda". Quanto a colocar os nossos estudantes, os nossos liberais etc., "face a face com nosso regime político", não serão os únicos a preocuparem-se com isso, pois disso se encarregarão sobretudo a polícia e os funcionários da autocracia. Mas, "nós", se quisermos ser democratas avançados, devemos ter a preocupação de incitar a pensar, exactamente aqueles que só estão descontentes com o regime universitário ou apenas com o regime dos zemstvos etc., que todo o regime político nada vale. Nós devemos assumir a organização de uma ampla luta política sob a direcção do nosso partido, a fim de que todas as camadas da oposição, quaisquer que sejam, possam prestar e prestem efectivamente a essa luta, assim como ao nosso partido, a ajuda de que são capazes. Dos práticos sociais-democratas, nós devemos formar os dirigentes políticos que saibam dirigir todas as manifestações dessa luta nos mais variados aspectos, que saibam no momento necessário "ditar um programa de acção positiva - aos estudantes em agitação, aos zemstvos descontentes, aos membros de seitas indignados, aos professores lesados etc. etc. Por isso, Martynov está completamente errado quando afirma que "em relação a eles, não podemos desempenhar senão um papel negativo de denunciadores do regime... Não podemos senão dissipar as suas esperanças nas diferentes comissões governamentais". (o grifo é nosso). Dizendo isso, Martynov mostra que não compreende nada sobre o verdadeiro papel da "vanguarda" revolucionária. E se o leitor tornar isso em consideração, compreenderá o verdadeiro sentido da seguinte conclusão de Martynov: "O Iskra é o órgão da oposição revolucionária, que denuncia o nosso regime, e principalmente o nosso regime político, quando vai ao encontro dos interesses das diferentes camadas da população. Quanto a nós, trabalhamos e trabalharemos pela causa operária em estreita ligação orgânica com a luta proletária: "restringindo a esfera da nossa influência, acentuamos esta influência em si mesma" (63). O verdadeiro sentido desta conclusão é: o Iskra deseja elevar a política sindical da classe operária (política à qual, entre nós, por mal-entendido, despreparo ou convicção, frequentemente se limitam os nossos práticos) ao nível da política social-democrata. Ora, o Rabótcheie Dielo deseja baixar a política social-democrata ao nível da política sindical. E ainda garante que são "posições perfeitamente compatíveis com a obra comum" (63), Oh sancta símplicitas! Prossigamos. Ternos forças suficientes para levar a nossa propaganda e a nossa agitação a todas as classes da população? Certamente que sim. Os nossos "economistas", que frequentemente se inclinam a negá-lo, esquecem-se do gigantesco progresso realizado pelo nosso movimento de 1894 (mais ou menos) a 1901. Verdadeiros "seguidistas", vivem frequentemente com ideias do período do começo do nosso movimento, há muito já terminado. De facto, éramos espantosamente fracos, a nossa resolução de nos dedicarmos inteiramente ao trabalho entre os operários e de condenar severamente todo o desvio dessa linha era natural e legítima, pois tratava-se então unicamente de nos consolidarmos no seio da classe operária. Agora, uma prodigiosa massa de forças está incorporada no movimento; vemos chegar até nós os melhores representantes da jovem geração das classes instruídas; por toda a parte, são obrigadas a residir nas províncias pessoas que já participam ou querem participar no movimento, e que tendem para a social-democracia (enquanto que, em 1894, podia-se contar pelos dedos os sociais-democratas russos). Um dos mais graves defeitos do nosso movimento - em política e em matéria de organização - é que não sabemos empregar todas essas forças, atribuir-lhes o trabalho que lhes convém (voltaremos a isto no capítulo seguinte).  A imensa maioria dessas forças encontra-se na impossibilidade absoluta "de ir até aos operários", por isso não se coloca a questão do perigo de desviar as forças do nosso movimento essencial. E para fornecer aos operários uma verdadeira iniciação política, múltipla e prática, é preciso que tenhamos "os nossos homens do nosso lado", sociais-democratas, sempre e em toda a parte, em todas as camadas sociais, em todas as posições que permitam conhecer as forças internas do mecanismo do nosso Estado. E precisamos desses homens, não apenas para a propaganda e a agitação mas, ainda e sobretudo, para a organização. Existe um campo para a acção em todas as classes da população? Os que não vêem isso, mostram que a sua consciência está atrasada relativamente ao impulso espontâneo das massas. Entre uns, o movimento operário suscitou e continua a suscitar o descontentamento; entre outros, desperta a esperança quanto ao apoio da oposição; para outros, enfim, dá a consciência da inviabilidade do regime autocrático, da sua falência evidente. Não seríamos "políticos" e sociais-democratas senão em palavras (como, na realidade, acontece frequentemente), se não compreendêssemos que a nossa tarefa é utilizar todas as manifestações de descontentamento, quaisquer que sejam, de reunir e elaborar até os menores elementos de um protesto, por embrionários que sejam. Sem contar que milhões e milhões de camponeses, trabalhadores, pequenos artesãos etc., escutam sempre avidamente a propaganda de um social-democrata, mesmo quando este é pouco hábil.


Mas, existirá uma só classe da população onde não haja homens, círculos e grupos descontentes com o jugo e a arbitrariedade e, portanto, acessíveis à propaganda do social-democrata, intérprete das mais prementes aspirações democráticas? Para quem quiser ter uma ideia concreta dessa agitação política do social-democrata em todas as classes e categorias da população, indicaremos as revelações políticas, no sentido amplo da palavra, como principal meio dessa agitação (porém não o único, bem entendido). "Devemos" - escrevia no meu artigo "Por Onde Começar?" (Iskra, nº4, Maio de 1901) de que falaremos mais adiante em detalhe - "despertar em todos os elementos minimamente conscientes da população, a paixão pelas revelações políticas. Não nos inquietemos se, na política, as vozes acusadoras são ainda tão débeis, tão raras, tão tímidas. A causa não consiste, de modo algum, numa resignação geral à arbitrariedade policial. A causa é que os homens capazes de acusar e dispostos a fazê-lo não têm uma tribuna do alto da qual possam falar, não têm um auditório que escute avidamente, encorajando os oradores, e não vêem em parte alguma do povo uma força para a qual valha a pena dirigir as suas queixas contra o governo "todo-poderoso" ... Temos hoje os meios e o dever de oferecer a todo o povo uma tribuna para denunciar o governo czarista: essa tribuna deve ser um jornal social-democrata". Esse auditório ideal para as revelações políticas é precisamente a classe operária, que tem necessidade, antes e sobretudo, de conhecimentos políticos amplos e vivos, e que é a mais capaz de aproveitar esses conhecimentos para empreender uma luta activa, mesmo que não prometa qualquer "resultado tangível". Ora, a tribuna para essas revelações diante de todo o povo, só pode ser um jornal para toda a Rússia. "Sem um órgão político, não seria possível conceber na Europa actual um movimento merecendo o nome de movimento político". E a Rússia, inegavelmente, também está incluída na Europa actual, em relação a esse facto. Desde há muito que a imprensa se tornou uma força entre nós; se não o governo não dispenderia dezenas de milhares de rublos para comprar e subvencionar todas as espécies de Katkovs e de Mechtcherskis. E não é novo o facto de, na Rússia autocrática, a imprensa ilegal romper as barreiras da censura e obrigar os órgãos legais e conservadores a falar dela abertamente. Assim aconteceu entre 1870 e 1880, e mesmo entre 1850 e 1880. Ora, hoje são mais amplas e profundas as camadas populares que poderiam ler, voluntariamente, a imprensa ilegal para aí aprender "a viver e a morrer", para empregar a expressão de um operário, autor de uma carta endereçada ao Iskra (nº7). As revelações políticas constituem uma declaração de guerra ao governo, da mesma forma que as revelações económicas constituem uma declaração de guerra aos fabricantes. E essa declaração de guerra tem um significado moral tanto maior quanto mais vasta e vigorosa for a campanha de denúncias, quanto mais decidida e numerosa for a classe social que declara a guerra para começar a guerra. Por isso, as revelações políticas constituem, por si próprias, um meio poderoso para desagregar o regime contrário, separar o inimigo dos seus aliados fortuitos ou temporários, semear a hostilidade e a desconfiança entre os participantes permanentes do poder autocrático. Apenas o partido que organize verdadeiramente as revelações visando o povo inteiro poderá tornar-se, nos nosso dias, a vanguarda das forças revolucionárias. Ora, tais palavras - "visando o povo inteiro" - têm um conteúdo muito amplo. A imensa maioria dos reveladores, que não pertencem à classe operária (pois para ser vanguarda é preciso justamente integrar outras classes), são políticos lúcidos e homens de sangue-frio e senso prático. Sabem perfeitamente como é perigoso "queixar-se" mesmo de um pequeno funcionário, quanto mais do "omnipotente" governo russo. E não nos dirigirão as suas queixas, a não ser quando virem que realmente estas podem ter efeito, e que nós somos uma força política. Para que nos tornemos aos olhos do público uma força política não basta colar o rótulo "vanguarda" sobre uma teoria e uma prática de "retaguarda": é preciso trabalhar muito e com firmeza para elevar a nossa consciência, o nosso espírito de iniciativa e a nossa energia. Porém, o partidário cioso da "estreita ligação orgânica com a luta proletária" perguntar-nos-á, e já nos pergunta: se nos devemos encarregar de organizar contra o governo as revelações que verdadeiramente visam o povo inteiro, em que, pois, se manifestará o carácter de classe do nosso movimento? - Ora, justamente no facto de que a organização dessas revelações constituirá uma obra nossa, de sociais-democratas; de que todos os problemas levantados pelo trabalho de agitação serão esclarecidos dentro de um espírito social-democrata constante e sem a menor tolerância para com as deformações, voluntárias ou não, do marxismo, de que essa ampla agitação política será conduzida por um partido unindo num todo coerente a ofensiva contra o governo, em nome de todo o povo, da educação revolucionária do proletariado, salvaguardando, ao mesmo tempo, a sua independência política, a direcção da luta económica da classe operária, a utilização dos seus conflitos espontâneos com os seus exploradores, conflitos que levantam e conduzem sem cessar, para o nosso campo, novas camadas do Proletariado! Mas, um dos traços mais característicos do "economismo" é exactamente não compreender essa ligação, melhor ainda, essa coincidência da necessidade mais urgente do proletariado (educação política sob todas as suas formas, por meio das denúncias e da agitação política) com as necessidades do movimento democrático como um todo. Essa incompreensão aparece não apenas nas frases "à Martynov", mas também nas diferentes passagens de significação absolutamente idêntica, onde os "economistas" se referem a um pretenso ponto de vista de classe. Eis, por exemplo, como se exprimem os autores da carta "economista" publicada no nº12 do Iskra: "Este mesmo defeito essencial do Iskra (sobrestimarão da ideologia) é a causa da sua inconsequência na questão da social-democracia com as diversas classes e tendências sociais. Tendo decidido, por meio de cálculos teóricos"... (e não em decorrência do "crescimento das tarefas do Partido que aumentam ao mesmo tempo que ele" ... ) "o problema da deflagração imediata da luta contra o absolutismo é sentindo, provavelmente, toda a dificuldade dessa tarefa para os operários, no estado actual das coisas"... (não somente sentindo, mas sabendo muito bem que esta tarefa parece menos difícil aos operários do que aos intelectuais "economistas" - que os tratam como crianças pequenas - pois os operários estão prontos a lutarem de facto pelas reivindicações que não prometem, para falar a língua do inolvidável Martynov, nenhum "resultado tangível")... "mas não tendo a paciência de esperar a acumulação de forças necessárias para essa luta, o Iskra começa a procurar os aliados nas fileiras dos liberais e dos intelectuais"... Sim, sim, de facto perdemos toda a "paciência" para "esperar" os dias felizes que nos prometem de há muito os "conciliadores"' de toda espécie, onde os nossos "economistas" deixarão de lançar a culpa de seu próprio atraso sobre os operários, de justificar a sua própria falta de energia pela pretensa insuficiência de forças entre os operários. Em que deve consistir a "acumulação de forças pelos operários em vista dessa luta"? perguntaremos aos nossos "economistas". Não é evidente que consiste na educação política dos operários, na denúncia, diante deles, de todos os aspectos da nossa odiosa autocracia? E não está claro que, justamente para esse trabalho, precisamos de "aliados nas fileiras dos liberais e dos intelectuais", "aliados" prontos a trazer-nos as suas denúncias sobre a campanha política conduzida contra os elementos activos dos zemstvos, dos professores, dos estatísticos, dos estudantes etc.? É assim tão difícil compreender esta "mecânica erudita"? P. Axelrod não lhes repete, desde 1897, que "a conquista pelos sociais-democratas russos de partidários e aliados directos ou indirectos entre as classes não proletárias é determinada, antes de tudo e principalmente, pelo carácter que a propaganda assume entre o próprio proletariado?" Ora, Martynov e os outros "economistas" ainda acham, agora, que primeiro os operários devem acumular forças "através da luta económica contra os patrões e o governo" (para a política sindical) e, em seguida, apenas "passar" - sem dúvida da "educação" sindical da "actividade", à actividade social-democrata! " ... Nas suas pesquisas, continuam os "economistas", o Iskra abandona com demasiada frequência o ponto de vista de classe, encobre os antagonismos de classe e coloca em primeiro plano o descontentamento comum contra o governo, apesar das causas e do grau deste descontentamento serem muito diferentes entre os "aliados". Essas são, por exemplo, as relações do Iskra com os zemstvos"... O Iskra pretensamente "promete aos nobres descontentes com as esmolas governamentais, o apoio da classe operária, sem dizer uma palavra sobre o antagonismo de classe que separa essas duas categorias da população". Que o leitor se reporte aos artigos "A Autocracia e os Zemtvos" (nºs 2 e 4 do Iskra) aos quais, parece, os autores dessa carta fazem alusão, e verá que esses artigos são dedicados à atitude do governo em relação "à agitação inofensiva do zemstvo burocrático censitário", em relação "à iniciativa das próprias classes proprietárias". Nesse artigo diz-se que o operário não poderia permanecer indiferente à atitude do governo contra o zemstvo, e os elementos activos dos zemstvos são convidados a deixar de lado os seus discursos inofensivos e a pronunciar palavras firmes e categóricas, quando a social-democracia revolucionária se levantar com toda sua força diante do governo. Com o que não estão de acordo os autores da carta? Não seria possível dizê-lo. Pensam que o operário "não compreenderá" as palavras "classes possuidoras" e "zemstvo burocrático censitário"? que o facto de pressionar os elementos activos dos zemstvos a abandonar os discursos inofensivos pelas palavras firmes seja uma "sobrestimarão da ideologia"? Imaginam que os operários podem "acumular forças" para a luta contra o absolutismo, se não conhecem a atitude do absolutismo também em relação ao zemstvo? Mais uma vez, não seria possível dizê-lo. Uma coisa está clara: os autores têm apenas uma ideia muito vaga das tarefas políticas da social-democracia. Isso sobressai ainda com maior clareza na frase seguinte: "Essa é igualmente (isto é, "encobrindo também os antagonismos de classe") a atitude do Iskra em relação ao movimento dos estudantes". Em lugar de exortar os operários a afirmar através de uma manifestação pública que o verdadeiro foco de violências, de arbitrariedade e de delírio não é a juventude universitária, mas o governo russo (Iskra, nº2), deveríamos, ao que parece, publicar as análises inspiradas da Rabótchaia Mysl! E são essas as opiniões expressas pelos sociais-democratas no Outono de 1901, após os acontecimentos de Fevereiro e de Março, nas vésperas de um novo impulso do movimento estudantil, impulso que mostra bem que, também nesse aspecto, o protesto "espontâneo" contra a autocracia ultrapassa a direcção consciente do movimento pela social-democracia. O impulso instintivo, que leva os operários a interceder em favor dos estudantes espancados pela polícia e pelos cossacos, ultrapassa a actividade consciente da organização social-democrata! "Entretanto, noutros artigos", continuam os autores da carta, "o Iskra condena severamente todo o compromisso e toma a defesa, por exemplo, do comportamento intolerável dos guesdistas". Aconselhamos àqueles que sustentam comummente, com tanta presunção e ligeireza, que as divergências de ponto de vista entre os sociais-democratas de hoje, não são, parece, essenciais e não justificam uma cisão, que meditem seriamente nessas palavras. As pessoas que afirmam que o esforço que empreendemos ainda é ridiculamente insuficiente para mostrar a hostilidade da autocracia em relação às mais diferentes classes, para revelar aos operários a oposição das mais diferentes categorias da população à autocracia, podem trabalhar eficazmente, numa mesma organização, com pessoas que vêem nessa tarefa "um compromisso", evidentemente um compromisso com a teoria da "luta económica contra os patrões e o governo"? No quadragésimo aniversário da emancipação dos camponeses, falámos da necessidade de introduzir a luta de classes nos campos (nº3) e, a propósito do relatório secreto de Witte, da incompatibilidade que existe entre a autonomia administrativa e a autocracia (nº4); combatemos, a propósito da nova lei, o feudalismo dos proprietários de terras e do governo que os serve (nº8), e saudámos o congresso ilegal dos zemstvos, encorajando os elementos dos zemstvos a abandonar os procedimentos humilhantes para passar à luta (nº8); encorajámos os estudantes que começavam a compreender a necessidade da luta política e a empreenderam (nº3) e, ao mesmo tempo, fustigámos a "inteligência extremada" dos partidários do movimento "exclusivamente estudantil", que exortavam os estudantes a não participar das manifestações de rua (nº3, a propósito da mensagem do Comité executivo dos estudantes de Moscovo, de 25 de Fevereiro); denunciámos os "sonhos insensatos", a "mentira e a hipocrisia" dos velhacos liberais do jornal Rossia (nº5), e ao mesmo tempo assinalámos a fúria do governo de carcereiros que "ajustavam contas com pacíficos literatos, velhos professores e cientistas, conhecidos liberais dos zemstvos" (nº5: "Um Ataque da Polícia Contra a Literatura"); revelámos o verdadeiro sentido do programa "de assistência do Estado para a melhoria das condições de vida dos operários", e saudámos o "consentimento precioso": "mais vale prevenir com reformas do alto as reivindicações de baixo, do que esperar por estas" (nº6); - encorajámos os estatísticos no seu protesto (nº7) e condenámos os estatísticos furadores da greve (nº7). Ver nesta táctica um obscurecimento da consciência de classe do proletariado e um compromisso com o liberalismo é mostrar que não se compreende absolutamente nada do verdadeiro programa do Credo, e é aplicar, de facto, precisamente esse programa, por mais que seja repudiado! Realmente, por isso mesmo, arrasta-se a democracia à "luta económica entre os patrões e o governo", e inclina-se a bandeira diante do liberalismo, renunciando-se a intervir activamente e a definir a própria atitude, a atitude social-democrata, em cada questão "liberal".


f) Mais uma vez caluniadores, mais uma vez "mistificadores".

     Como o leitor se lembra, essas amabilidades foram ditas pelo Rabótcheie Dielo, que assim responde à nossa acusação de "preparar indirectamente o terreno para fazer do movimento operário um instrumento da democracia burguesa". Na simplicidade do seu coração, o Rabótcheie Dielo decidiu que essa acusação constituía apenas um elemento de polémica. Esses desagradáveis dogmáticos, parece ter pensado, resolveram dizer-nos todas as espécies de coisas desagradáveis; ora, o que pode haver de mais desagradável do que ser o instrumento da democracia burguesa? E de imprimir, em grandes caracteres, um "desmentido": "calúnia não dissimulada" (Dois Congressos, p. 30), "mistificação" (31), "palhaçada" (33). Como Júpiter (embora se pareça pouco com ele), o Rabótcheie Dielo ofende-se precisamente porque não tem razão, e através das suas injúrias irreflectidas, prova que é incapaz de apreender o fio do pensamento dos seus adversários. E, entretanto, não é necessário reflectir muito para compreender a razão por que todo o culto da espontaneidade do movimento de massa, todo o rebaixamento da política social-democrata ao nível da política sindical se resume exactamente em preparar o terreno para fazer do movimento operário um instrumento da democracia burguesa. O movimento operário espontâneo, por si mesmo, só pode engendrar (e infalivelmente o fará) o sindicalismo, ora, a política sindical da classe operária é precisamente a política burguesa da classe operária. A participação da classe operária na luta política, e mesmo na revolução política, não faz de maneira alguma da sua política uma política social-democrata. O Rabótcheie Dielo poderá negar isso? Poderá, finalmente, expor diante de todos, abertamente e sem dissimulações, a sua concepção dos problemas angustiantes da social-democracia internacional e russa? - Não, nunca o fará, pois atém-se firmemente ao procedimento "de se fazer de desentendido". Não me toquem, não tenho nada com isso. Não somos "economistas", a Rabótchaia Mysl não é o "economismo", o "economismo" em geral não existe na Rússia. Este é um procedimento muito hábil e "político", que tem apenas um pequeno inconveniente, o de se ter o hábito de dar aos órgãos da imprensa que o praticam o apelido de "às suas ordens". Para o Rabótcheie Dielo, a democracia burguesa em geral constitui na Rússia apenas um "fantasma" (Dois Congressos, p. 32). Que homens felizes! Como o avestruz, escondem a cabeça sob a asa e, imaginam que tudo o que os cerca desapareceu. Publicistas liberais que, todos os meses, anunciam triunfalmente que o marxismo se desagregou, ou mesmo desapareceu; jornais liberais (Sankt-Petersburgskie Védomosti, Russkia Védomosti e muitos outros) que encorajam os liberais que levam aos operários a concepção brenstaniana da luta de classes e a concepção sindical da política; a plêiade de críticos do marxismo, críticos cujas tendências verdadeiras foram tão bem reveladas no Credo, e cuja mercadoria literária é a única que circula pela Rússia sem impostos nem taxas; a reanimação das tendências revolucionárias não sociais-democratas, sobretudo após os acontecimentos de Fevereiro e de Março, tudo isso será talvez um fantasma? Tudo isso não tem absolutamente qualquer ligação com a democracia burguesa! O Rabótcheie Dielo, tal como os autores do canto economista, no número 12 do Iskra, deveriam "perguntar-se por que os acontecimentos da primavera provocaram uma tal reanimação das tendências revolucionárias não sociais-democratas, em lugar de reforçar a autoridade e o prestígio da social-democracia". A razão é que não estávamos à altura da nossa tarefa, que a actividade das massas operárias ultrapassou a nossa, que não tínhamos dirigentes e organizadores suficientemente preparados, que conhecessem perfeitamente o estado de espírito de todas as camadas da oposição e soubessem colocar-se à cabeça do movimento, transformar uma manifestação espontânea em manifestação política, ampliar-lhe o carácter político etc. Dessa forma, os revolucionários não sociais-democratas, mais desembaraçados, mais enérgicos, explorarão necessariamente o nosso atraso, e os operários, por maior que seja a sua energia e abnegação nos combates contra a polícia e contra as tropas, por mais revolucionária que seja sua acção, serão apenas uma força de sustentação desses revolucionários, a retaguarda da democracia burguesa, e não a vanguarda social-democrata. Consideremos a social-democracia alemã, da qual os nossos "economistas" tomam emprestadas apenas as falhas. Por que não existe um único acontecimento político na Alemanha que não contribua para reforçar cada vez mais a autoridade e o prestígio da social-democracia? Porque a social-democracia é sempre a primeira a fazer a apreciação mais revolucionária desse acontecimento, a sustentar todo o protesto contra a arbitrariedade. Não alimenta ilusões de que a luta económica incitará os operários a pensar no seu jugo, e de que as condições concretas conduzem fatalmente o movimento operário ao caminho revolucionário. Intervém em todos os aspectos e em todas as questões da vida social e política: quando Guilherme se recusa a ratificar a nomeação de um progressista burguês para prefeito (os nossos "economistas" ainda não tiveram tempo de aprender com os alemães que isto constitui, na verdade, um compromisso com o liberalismo!), e quando se faz uma lei contra imagens e obras "imorais", e quando o governo faz pressão para obter a nomeação de certos professores etc. etc. Em toda a parte os sociais-democratas estão na linha de frente, despertando o descontentamento político em todas as classes, sacudindo os adormecidos, estimulando os atrasados, fornecendo uma ampla documentação para desenvolver a consciência política e a actividade política do proletariado. O resultado é que esse defensor político de vanguarda força o próprio respeito dos inimigos conscientes do socialismo, e não é raro que um documento importante, não só das esferas burguesas, mas também das burocráticas e palacianas, venha parar, não se sabe como, na sala de redacção do Vorwürts. Aí está o segredo da "contradição" aparente que ultrapassa o nível de compreensão do Rabótcheie Dielo a ponto de se contentar em levantar os braços para o céu e exclamar: "Palhaçada"! De facto, imaginemos o seguinte: nós, o Rabótcheie Dielo, consideramos em primeiro plano o movimento operário de massa (e o imprimimos em letras garrafais!), pomos todos em guarda contra a tendência de diminuir o papel do elemento espontâneo, queremos conferir à própria luta económica um carácter político; queremos permanecer em estreita ligação orgânica com a luta proletária! E  dizem-nos que preparamos o terreno para fazer do movimento operário um instrumento da democracia burguesa. E quem o diz? Os homens que têm "compromisso" com o liberalismo, intervindo em toda a questão "liberal" (que incompreensão da "ligação orgânica com a luta proletária"!), concedendo tão grande atenção aos estudantes e até (que horror!) aos porta-vozes dos zemstvos! Homens que querem, em geral, consagrar uma percentagem maior (em relação aos "economistas") das suas forças entre as classes não proletárias da população! Não é isto uma "palhaçada"? Pobre Rabótcheie Dielo! Chegará algum dia a penetrar no segredo deste complicado mecanismo?


Que fazer? IV-1- Os métodos artesanais dos economistas e a organização dos revolucionários

 

     As afirmações do Rabótcheie Dielo, já examinadas anteriormente, declarando que a luta económica é o meio mais amplamente aplicável de agitação política, que a nossa tarefa consiste, hoje, em conferir à própria luta económica um carácter político etc., reflectem uma concepção estreita das nossas tarefas, não somente em matéria política, mas ainda em matéria de organização. Para conduzir "a luta económica contra os patrões e o governo", não seria necessária uma organização centralizada para toda a Rússia (e ela não poderia constituir-se no curso de tal luta), organização que agrupasse num único ataque comum a todas as manifestações, quaisquer que fossem, de oposição política, de protesto e de indignação, organização de revolucionários profissionais, e fosse dirigida pelos verdadeiros chefes políticos de todo o povo. Aliás, isto pode ser facilmente compreendido:  qualquer instituição tem a sua estrutura natural inevitavelmente determinada pelo conteúdo da sua acção. Por isso, pelas afirmações acima analisadas, o Rabótcheie Dielo consagra e legitima a estreiteza não somente da acção política, mas também do trabalho de organização. Neste caso, como sempre, a consciência desse órgão inclina-se diante da espontaneidade. Ora, o culto das formas de organização que se elaboram espontaneamente, o facto de ignorar o quanto é estreito e primitivo o nosso trabalho de organização e até que ponto somos ainda "rudimentares" em relação a esse aspecto importante, o facto de ignorar tudo isto, digo, constitui uma verdadeira doença do nosso movimento. Não uma doença de decadência, mas, evidentemente, de crescimento. Porém, precisamente hoje que a onda de revolta espontânea se espraia - poder-se-ia dizer - até nós, dirigentes e organizadores do movimento, o que é preciso é sobretudo lutar intransigentemente contra a menor tentativa de defender o nosso atraso, de legitimar a estreiteza nesta matéria; é preciso sobretudo despertar entre todos aqueles que participam, ou apenas se dispõem a participar do trabalho prático, o descontentamento em relação ao trabalho artesanal, que reina entre nós, e a firme vontade de nos desembaraçarmos dele.  

a) O que é o trabalho artesanal?

     Tentaremos responder a esta questão, esboçando o quadro da actividade de um círculo social-democrata típico entre 1894 e 1901. Já assinalámos o entusiasmo geral pelo marxismo da juventude estudantil da época. Certamente, esse entusiasmo visava não apenas o marxismo como teoria, mas também dar resposta à questão "que fazer?", como apelo para se colocar em campo contra o inimigo. E os novos combatentes punham-se em campo com uma preparação e um equipamento surpreendentemente primitivos. Em inúmeros casos, quase não havia equipamento nem preparação. Iam à guerra como camponeses que tivessem acabado de deixar o arado, simplesmente armados com um bordão. Sem ligação de qualquer espécie com os velhos militantes, sem qualquer ligação com os círculos de outras localidades, nem mesmo de outros bairros (ou estabelecimentos de ensino) da sua própria cidade, sem qualquer coordenação das diferentes partes do trabalho revolucionário, sem qualquer plano sistemático de acção para um período mais ou menos prolongado, um círculo de estudantes entrava em contacto com os operários e punha mãos à obra. O círculo desenvolvia progressivamente uma propaganda e uma agitação cada vez mais intensas; atraía, assim, unicamente através da sua acção, a simpatia de amplos sectores do meio operário, a simpatia de uma certa parte da sociedade instruída, que lhe fornecia dinheiro e colocava à disposição do "comité" novos grupos de jovens. O prestígio do comité (ou da união de luta) aumentava, o seu campo de acção alargava-se, e estendia a sua actividade de uma maneira completamente espontânea: as pessoas que, havia um ano ou alguns meses, tomavam a palavra nos círculos estudantis para responder à questão: "para onde ir?"; que estabeleciam e mantinham relações com os operários, passaram a compor e a lançar "folhas volantes", a estabelecer relações com outros grupos de revolucionários, a arranjar publicações, a empreender a edição de um jornal local, a começar a falar em organizar uma manifestação, passaram, enfim, às operações militares declaradas (e esta acção militar declarada poderia ser, segundo as circunstâncias, o primeiro panfleto de agitação, o primeiro número de um jornal, a primeira manifestação). Em geral, essas operações conduziam ao fracasso imediato e completo, desde o seu início. Imediato e completo, porque essas operações militares não eram o resultado de um plano sistemático, preparado de antemão e estabelecido a longo termo, mas, simplesmente o desenvolvimento espontâneo de um trabalho de círculo conforme o costume; porque a policia, como é natural, conhecia quase sempre todos os principais militantes do movimento local, que já "tinham dado que falar" nos bancos da Universidade, e, aguardando o momento mais propício para uma invasão, deixava, propositadamente, o círculo alargar-se e estender-se para ter um corpus delicti tangível, e de cada vez deixava, de caso pensado, alguns indivíduos "para semente" (é a expressão técnica empregada, pelo que sei, tanto pelos nossos como pelos da polícia). Não se pode deixar de comparar esta guerra a uma marcha de bandos de camponeses armados de bordões, contra um exército moderno. E não se pode deixar de admirar a vitalidade de um movimento que aumentava, que se estendia e obtinha vitórias, apesar de uma ausência completa de preparação entre os combatentes. É verdade que o carácter primitivo do armamento era, historicamente, não apenas inevitável a princípio, mas até legítimo, visto que permitia atrair grande número de combatentes. Mas, desde que começaram as operações militares sérias (mais propriamente, com as greves do Verão de 1896), as lacunas da nossa organização militar fizeram-se sentir cada vez mais. Após um momento de surpresa e uma série de falhas (como atrair a opinião pública para os crimes dos socialistas, ou a deportação dos operários das capitais para os centros industriais da província), o governo não demorou a adaptar-se às novas condições de luta e soube dispor, em pontos convenientes, os seus destacamentos de provocadores, de espiões e de polícias, devidamente instruídos. As armadilhas tornaram-se tão frequentes, atingiram tantas pessoas, esvaziaram a tal ponto os círculos locais, que a massa operária perdeu literalmente todos os seus dirigentes, o movimento tornou-se incrivelmente desordenado, sendo impossível estabelecer-se qualquer continuidade e coordenação no trabalho. A extraordinária dispersão dos militantes locais, a composição fortuita dos círculos, as falhas de preparação e a estreiteza de perspectivas nas questões teóricas, políticas e de organização constituíram o resultado inevitável das condições descritas. Em certos lugares, mesmo, vendo a nossa falta de firmeza e de organização em conspirar, os operários passaram a afastar-se dos intelectuais por desconfiança, dizendo que provocavam as prisões pela sua imprudência!  Hoje qualquer militante, mesmo pouco iniciado no movimento, já sabe que esses métodos artesanais foram considerados pelos sociais-democratas sensatos como uma verdadeira doença. Mas, para o leitor não iniciado não pensar que "construímos" artificialmente uma determinada etapa ou uma determinada doença do movimento, recorreremos a um testemunho já uma vez invocado. Que nos perdoem a longa citação. "Se a passagem gradual a uma acção prática mais ampla", escreve B-v no nº 6 do Rabótcheie Dielo, "passagem que está em função directa do período geral de transição que atravessa o movimento operário russo, é um traço característico... existe ainda, no conjunto do mecanismo da revolução operária russa um outro traço não menos interessante. Queremos referir-nos à insuficiência de forças revolucionárias próprias para a acção, que se faz sentir não apenas em Petersburgo, mas em toda a Rússia.  À medida que o movimento operário se acentua, que a massa operária se desenvolve, que as greves se tornam mais frequentes, que a luta de massas dos operários se faz de forma mais aberta, luta que reforça as perseguições governamentais, prisões, expulsões e deportações, essa falta de forças revolucionárias altamente qualificada torna-se mais sensível e, sem dúvida, não deixa de influir na profundidade e no carácter geral do movimento. Muitas greves desenrolam-se sem que as organizações revolucionárias exerçam sobre elas uma acção directa e enérgica... Há falta de "folhas" de agitação e de publicações ilegais... os círculos operários ficam sem agitadores... Além disso, a falta de dinheiro faz-se sentir continuamente. Numa palavra, o crescimento do movimento operário ultrapassa o crescimento e o desenvolvimento das organizações revolucionárias. O efectivo de revolucionários em acção é demasiado insignificante para poder influenciar toda a massa operária em efervescência, para oferecer a todos os distúrbios ao menos uma sombra de coerência e de organização... Tais círculos, tais revolucionários não estão unidos, nem agrupados; não formam uma organização coerente, forte e disciplinada, com partes metodicamente desenvolvidas"... E após ter feito a reserva de que o aparecimento imediato de novos círculos em lugar daqueles que foram destruídos, "prova apenas a vitalidade do movimento... mas, não demonstra ainda a existência de uma quantidade suficiente de militantes revolucionários perfeitamente firmes", o autor conclui: "A falta de preparação prática dos revolucionários de Petersburgo repercute-se também sobre os resultados do seu trabalho. Os últimos processos, especialmente os dos grupos "Auto libertação" e  "Luta do Trabalho Contra o Capital" mostraram nitidamente que um jovem agitador não familiarizado perfeitamente com as condições do trabalho e, por conseguinte, da agitação em determinada fábrica, ignorando os princípios da acção clandestina e tendo apreendido" (apreendido?) "apenas os princípios gerais da social-democracia, pode trabalhar uns quatro, cinco, seis meses. Depois vem a prisão que frequentemente ocasiona a derrocada de toda a organização, ou ao menos de uma parte. Pode um grupo trabalhar com proveito e êxito, quando a sua existência está limitada a uns poucos meses? É evidente que não seria possível atribuir inteiramente as falhas das organizações existentes ao período de transição... é evidente que a quantidade e sobretudo a qualidade do efectivo das organizações em actividade desempenham aqui um papel importante, e a primeira tarefa dos nossos sociais-democratas... deve ser a de unir realmente as organizações entre si, com uma rigorosa selecção dos seus membros." 


b) Trabalho artesanal e "economismo"

     Vamos agora deter-nos numa questão que, certamente, já se colocou ao leitor. O trabalho artesanal, doença de crescimento que afecta todo o movimento, pode estar em conexão com o "economismo", considerado como uma das tendências da social-democracia russa? Cremos que sim. A falta de preparação prática, de habilidade no trabalho de organização é realmente comum a todos nós, mesmo àqueles que, desde o início, se mantiveram fiéis ao ponto de vista do marxismo revolucionário. E, certamente, ninguém poderia incriminar os práticos por essa falta de preparação. Mas, esses "métodos artesanais" não se encontram apenas na falta de preparação: estão também na estreiteza do conjunto do trabalho revolucionário em geral, na incompreensão do facto de que essa estreiteza impede a constituição de uma boa organização de revolucionários, enfim - e é o principal - encontram-se nas tentativas de justificar essa estreiteza e de erigi-la em "teoria" particular, isto é, no culto da espontaneidade também nesse campo. Desde as primeiras tentativas deste género, que se tornou evidente a ligação dos métodos artesanais ao "economismo" e que não nos livraríamos da nossa estreiteza no trabalho de organização antes de nos livrarmos do "economismo" em geral (isto é, da concepção estreita da teoria do marxismo, do papel da social-democracia e das suas tarefas políticas). Ora, essas tentativas foram feitas em duas direcções. Uns começaram a dizer: a massa operária não formulou ainda, ela própria, tarefas políticas tão extensas e tão manifestas como as que lhe "são impostas" pelos revolucionários; deve ainda lutar pelas reivindicações políticas imediatas, conduzir "a luta económica contra os patrões e o governo" (e a esta luta "acessível" ao movimento de massas corresponde naturalmente uma organização "acessível" mesmo à juventude menos preparada). Outros, afastados de todo o "gradualismo" declararam: pode-se e deve-se "realizar a revolução política", mas, para isso, não há necessidade de se criar uma forte organização de revolucionários que eduquem o proletariado para uma luta firme e obstinada, basta que todos nós tomemos o bordão "acessível" e já conhecido. Para falar sem alegorias, é preciso organizar a greve geral ou estimular através de "um terrorismo excitativo" o movimento operário "adormecido". Essas duas tendências, a oportunista e a "revolucionária", capitulam diante dos métodos artesanais dominantes, não crêem na possibilidade de se libertarem deles, não vêem a nossa primeira e mais urgente tarefa prática: criar uma organização de revolucionários capaz de assegurar à luta política energia, firmeza e continuidade. Acabámos de citar as palavras de B-v: "O crescimento do movimento operário ultrapassa o crescimento e o desenvolvimento das organizações revolucionárias". Essa "comunicação preciosa de um observador bem colocado" (opinião emitida pela redacção do Rabótcheie Dielo sobre o artigo de B-v) é para nós duplamente preciosa. Mostra que tínhamos razão de ver a causa fundamental da crise actual da social-democracia russa no atraso dos dirigentes ("ideólogos", revolucionários, sociais-democratas) em relação ao impulso espontâneo das massas. Mostra que existe apenas a defesa e a exaltação dos métodos artesanais em todos esses raciocínios dos autores da carta economista (Iskra, nº 12), B. Kritchévski e Martynov, sobre o perigo que existe em minimizar o papel do elemento espontâneo, da obscura luta quotidiana, da táctica-processo etc. Essas pessoas que não podem pronunciar sem desdém a palavra "teórico", que denominam por "sentido das realidades" a sua idolatria perante a falta de preparação para as coisas da vida e a falta de desenvolvimento, mostram de facto a sua ignorância das nossas tarefas práticas mais prementes. Às pessoas que se atrasam, gritam: marquem passo! Não se adiantem! Àqueles que, no trabalho de organização, carecem de energia e de iniciativa, àqueles que carecem de "planos" de perspectivas amplas e corajosas, falam da "táctica-processo"! O nosso erro capital é rebaixar as nossas tarefas políticas e de organização ao nível dos interesses imediatos, "tangíveis", "concretos" da luta económica quotidiana, e não param de nos dizer: é preciso conferir à própria luta económica um carácter político! Mais uma vez repetimos: isto constitui exactamente um "senso das realidades" comparável ao do herói da epopeia popular, que exclamava à vista de um cortejo fúnebre, "tomara que tenham sempre algo que transportar". Lembrem-se da incomparável presunção, verdadeiramente digna de Narciso, com a qual esses sábios repreendiam Plekhanov: "As tarefas políticas, no sentido real e prático da palavra, isto é, no sentido de uma luta prática, racional e vitoriosa para as reivindicações políticas, são em princípio (sic) inacessíveis aos círculos operários" ("Resposta da redacção do Rab. Dielo", p. 24). Existem círculos e círculos, senhores! Evidentemente, as tarefas políticas são inacessíveis a um círculo de "artesãos", enquanto estes não tomarem consciência de que os seus métodos são artesanais e não se livrarem deles. Mas se, além disso, esses artesãos estão enamorados dos seus métodos artesanais, se escrevem a palavra "prático" em itálico e imaginam que ser prático é rebaixar as nossas tarefas ao nível da compreensão pelas massas mais atrasadas, então, evidentemente, esses artesãos são incuráveis e as tarefas políticas em princípio são-lhes realmente inacessíveis. Mas, para um círculo de corifeus, como Alexeiev e Mychkine, Khalturine e Jeliabov, as tarefas políticas são inacessíveis no sentido mais verdadeiro, mais prático da palavra, e isto exactamente porque a sua ardente propaganda encontra eco na massa que desperta espontaneamente; porque a sua energia fervilhante é restabelecida e sustentada pela energia da classe revolucionária. Plekhanov tinha mil vezes razão não apenas quando assinalou a existência dessa classe revolucionária e provou que o seu despertar espontâneo para a acção era inelutável, infalível, mas, também quando designou para os "círculos operários", uma grandiosa e importante tarefa política. Quanto a vocês, invocam o movimento de massas que surgiu desde então para rebaixar essa tarefa, para restringir o campo de acção e de energia dos "círculos operários". O que é isso senão o apego do artesão aos seus métodos artesanais? Vangloriam-se do seu espírito prático, e não vêem o facto conhecido de cada prático russo: que maravilhas pode realizar, em matéria revolucionária, a energia não apenas de um círculo, mas mesmo de um indivíduo isolado. Acreditam vocês, por acaso, que não podem existir no nosso movimento dirigentes como os da década de 1870? Porquê? Porque estamos pouco preparados? Mas nós preparamo-nos, continuaremos a preparar-nos e estaremos preparados! É verdade que à superfície dessa água estagnada, que é a "luta económica contra os patrões e o governo", infelizmente formou-se o limo; apareceram pessoas que se ajoelharam para adorar a espontaneidade, contemplando religiosamente (segundo a expressão de Plekhanov) o "traseiro" do proletariado russo. Mas, saberemos livrar-nos desse limo. Precisamente hoje, o revolucionário russo, orientado por uma teoria verdadeiramente revolucionária, apoiando-se numa classe verdadeiramente revolucionária que desperta espontaneamente para a acção, pode enfim - enfim!  - reerguer-se em toda a sua estatura e empregar toda a sua força de gigante. Para isso é preciso apenas que, entre a massa dos práticos e a massa ainda mais numerosa de pessoas que sonham com a acção prática desde os bancos da escola, todas as tentativas de rebaixar as nossas tarefas políticas e de restringir a envergadura de nosso trabalho de organização sejam consideradas com desprezo e recebidas jocosamente. E fiquem tranquilos, senhores, chegaremos lá! No artigo "Por Onde Começar?" escrevi contra o Rabótcheie Dielo: "Em 24 horas, pode-se modificar a táctica da agitação nalgum ponto especial, modificar um detalhe qualquer na actividade do Partido. Mas, para modificar, não direi em 24 horas, mas até em 24 meses, as suas concepções sobre a utilidade geral, permanente e absoluta de uma organização de combate e de uma agitação política nas massas, é preciso estar desprovido qualquer princípio orientador." O Rabótcheie Dielo responde: "Essa acusação do Iskra, a única que pretende ter um carácter prático, está destituída de todo o fundamento. Os leitores do Rabótcheie Dielo sabem muito bem que desde o princípio não apenas exortámos à agitação política, sem esperar que aparecesse o Iskra "... (dizendo, então, que "não se pode colocar" aos círculos operários, "nem ao movimento operário de massa, como primeira tarefa, a derrubamento do absolutismo", mas apenas a luta pelas reivindicações políticas imediatas, e que "as reivindicações políticas imediatas só se tornam acessíveis às massas após uma, ou às vezes, numerosas greves")... "mas, através de nossas publicações, também, fizemos chegar do estrangeiro aos camaradas militando na Rússia material social-democrata de agitação política único"... (acrescentamos que com esse material único não só fizeram agitação política maior do que a feita no campo da luta económica, mas também concluíram, enfim, que essa agitação limitada "é susceptível de ser a mais amplamente aplicada". E os senhores não repararam que a vossa argumentação prova justamente a necessidade do aparecimento do Iskra - dado esse material único - e a necessidade de o Iskra lutar contra o Rabótcheie Dielo ?)... "Por outro lado, a nossa actividade como editores preparou de facto a unidade táctica do partido"... (a unidade de convicção de que a táctica é um processo de crescimento das tarefas do partido, que crescem ao mesmo tempo que o Partido? Unidade preciosa!)... "e, por isso mesmo, a possibilidade de "uma organização de combate", para a criação daquela União, tornou em geral tudo isso acessível a uma organização residente no estrangeiro" (R. D., nº 10, p. 15). Vã tentativa para se sair do embaraço! Jamais pensei em contestar que tenham feito tudo o que lhes era acessível. Afirmei e ainda afirmo que os limites do que lhes é "acessível" encontram-se cerceados pela estreiteza da vossa compreensão. É ridículo falar de "organização de combate" para lutar em favor das "reivindicações políticas imediatas", ou para "a luta económica contra os patrões e o governo". Mas, se o leitor quiser ver as pérolas do apego "economista" aos métodos artesanais, seria preciso naturalmente dirigir-se não ao Rabótcheie Dielo, eclético e instável, mas à Rabótchaia MysI, lógica e resoluta. "Duas palavras, agora, sobre o que se denomina, propriamente, a intelectualidade revolucionária", escrevia R. M. no "Suplemento especial", p. 13; "provaram, é verdade, e mais de uma vez, que estão prontos a "integrar a luta decisiva contra o czarismo". Somente, o mal é que, perseguida sem tréguas pela polícia política, a nossa intelectualidade revolucionária tomou a luta contra essa polícia política por uma luta política contra a autocracia. Por isso, a questão, "Onde buscar forças para a luta contra a autocracia?", ainda não encontrou resposta. Não é realmente admirável esse desprezo pela luta contra a polícia, da parte de um adorador (no sentido pejorativo da palavra) do movimento espontâneo? Está pronto a justificar a nossa imperícia na acção clandestina com o argumento de que, num movimento espontâneo de massas, a luta contra a polícia, em suma, não tem importância para nós!! Muito poucos subscreverão essa conclusão monstruosa, tal é o grau e a forma dolorosa em que são sentidas, por todos, as falhas das nossas organizações revolucionárias. Mas se Martynov, por exemplo, não a subscreve, é unicamente porque não sabe ir até o fim do seu pensamento, ou não tem coragem para tanto. De facto, se as massas apresentam reivindicações concretas prometendo resultados tangíveis, constitui isso uma "tarefa" que exige uma preocupação particular com a criação de uma organização sólida, centralizada, combativa? As massas que não "lutam de modo algum contra a polícia política" não se incumbem, elas próprias, dessa "tarefa"? Mais ainda, essa tarefa seria executável se, com excepção de raros dirigentes, os operários (na sua grande maioria), que não são de forma alguma capazes de "lutar contra a polícia política", também não se encarregassem dela? Esses operários, os elementos médios das massas, são capazes de demonstrar uma energia e uma abnegação prodigiosas numa greve, num combate de rua com a polícia e as tropas policiais; são capazes (e são os únicos capazes) de decidir o resultado de todo o nosso movimento; porém, justamente a luta contra a polícia política exige qualidades especiais, exige revolucionários profissionais. E devemos estar vigilantes para que a massa operária não "apresente" apenas reivindicações concretas, mas que "apresente" um número cada vez maior desses revolucionários profissionais. Chegamos, assim, à questão da relação entre a organização dos revolucionários profissionais e o movimento puramente operário. Essa questão, pouco desenvolvida na literatura, já nos ocupou bastante a nós, "políticos", nas nossas conversas e discussões com os camaradas que, de uma maneira ou de outra, tendem para o "economismo". Vale a pena que nos detenhamos nessa questão. Mas, antes, terminemos com outra citação, a ilustração da nossa tese sobre a ligação dos métodos artesanais ao "economismo". "O grupo 'Libertação do Trabalho'", escrevia N.N. na sua "Resposta", "reclama a luta directa contra o governo sem buscar saber onde está a força material para essa luta, sem indicar o caminho que ela deve seguir". E sublinhando essas últimas palavras, o autor faz a seguinte observação a respeito da palavra "caminho": "Este facto não poderia ser explicado pelas necessidades da acção clandestina; de facto, no programa não se trata de uma conspiração, mas de um movimento de massa. Ora, a massa não pode seguir caminhos secretos. É possível uma greve secreta? São possíveis manifestações ou petições secretas?" (Vademecum, p. 59). O autor aborda de perto essa "força material" (organizadores de greves e de manifestações) e os "caminhos" luta, mas encontra-se confuso e perplexo, pois "inclina-se diante do movimento de massas, isto é, considera-o um factor que nos libera da actividade revolucionária que nos pertence, e não um factor destinado a encorajar e a estimular a nossa actividade revolucionária. Uma greve secreta é impossível, tanto para os seus participantes como para aqueles a quem afecta directamente. Mas, para a massa dos operários russos, essa greve pode permanecer (e na maior parte dos casos permanece) "secreta", pois o governo tomará o cuidado de cortar todas as comunicações com os grevistas, tomará o cuidado de tornar impossível todas as informações sobre a greve. É então que se torna necessária uma "luta contra a polícia política", luta especial que jamais poderá ser conduzida activamente por uma massa tão grande como a que participa na greve. Essa luta deve ser organizada "segundo todas as regras da arte" por profissionais da acção revolucionária. E o facto de a massa estar espontaneamente integrada no movimento não torna menos necessária a organização dessa luta. Pelo contrário, torna ainda mais necessária; pois nós, socialistas, faltaríamos ao nosso primeiro dever para com as massas, se não soubéssemos impedir a polícia de tornar secreta (e se, por vezes, não nos preparássemos secretamente, nós mesmos) uma greve ou uma manifestação qualquer. Estamos em condições de fazê-lo, precisamente porque a massa, que desperta espontaneamente para a acção, fará surgir igualmente do seu seio um número cada vez maior de "revolucionários de profissão" (isto se não induzirmos todos os operários, de todas as maneiras, a permanecer no mesmo lugar). 


Que fazer? IV-2- Os métodos artesanais dos economistas e a organização dos revolucionários

 

c) A organização dos operários e a organização dos revolucionários 

 

     Se para o social-democrata a ideia de "luta económica contra os patrões e o governo" se identifica com a de luta política, é natural que a ideia de "organização de operários" se identifique, entre eles, mais ou menos com a ideia de "organização de revolucionários". E, na realidade, é o que acontece, de modo que falando de organização, falamos línguas absolutamente diferentes. Lembro-me, por exemplo, de uma conversa que tive um dia com um "economista" bastante consequente, e que ainda não conhecia. A conversa girou em torno do folheto "Quem fará a revolução política?" . Concluímos, rapidamente, que o seu principal defeito era não considerar os problemas de organização. Pensávamos já estar de acordo, mas... prosseguindo a conversa, percebemos que falávamos de coisas diferentes. Meu interlocutor, acusava o autor de não levar em consideração as caixas de auxílio às greves, as sociedades de socorro mútuo, etc.; quanto a mim, falava da organização de revolucionários indispensável para "fazer" a revolução política. E desde que ocorreu esta divergência, não me lembro mais de ter estado de acordo sobre qualquer questão de princípio com esse "economista"! Mas, qual era, pois, a causa das nossas divergências? Justamente o facto de os "economistas" se desviarem constantemente do "social-democratismo" para o sindicalismo, tanto nas tarefas de organização como nas tarefas políticas. A luta política da social-democracia é muito maior e muito mais complexa que a luta económica dos operários contra os patrões e o governo. Do mesmo modo (e como consequência) a organização de um partido social-democrata revolucionário deve necessariamente constituir um género diferente da organização dos operários para a luta económica. A organização dos operários deve ser, em primeiro lugar, profissional; em segundo lugar, a maior possível; em terceiro lugar, a menos clandestina possível (aqui e mais adiante refiro-me, bem entendido, apenas à Rússia autocrática). Ao contrário, a organização dos revolucionários deve englobar, antes de tudo e principalmente, homens cuja profissão é a acção revolucionária (por isso, quando falo de uma organização de revolucionários, refiro-me aos revolucionários sociais-democratas). Diante dessa característica comum aos membros de tal organização, deve desaparecer por completo toda distinção entre operários e intelectuais e ainda com maiores razões, entre as diversas profissões de uns e de outros. Necessariamente essa organização não deve ser muito extensa e é preciso que seja a mais clandestina possível. Vamos deter-nos sobre estes três pontos específicos. Nos países onde há liberdade política, a diferença entre a organização sindical e a organização política é perfeitamente clara, como também a diferença entre o sindicalismo e a social-democracia. Certamente, as relações da social-democracia com os sindicatos variam, inevitavelmente, de país a país segundo as condições históricas, jurídicas e outras; podem ser mais ou menos estreitas, complexas etc. (devem ser, em nossa opinião, as mais estreitas e as menos complexas possíveis); mas, nos países livres, não existe o risco de se identificar a organização sindical com a do partido social-democrata. Na Rússia, o jugo da autocracia apaga, à primeira vista, toda a distinção entre a organização social-democrata e a associação operária, pois todas as associações operárias e todos os círculos estão proibidos, e a greve, manifestação e arma principais da luta económica dos operários, é considerada um crime de direito comum (às vezes até um delito político). Assim, a situação entre nós, de um lado, "incita" forçosamente os operários que conduzem a luta económica a ocuparem-se de questões políticas e, de outro, "incita" os sociais-democratas a confundirem o sindicalismo com o "social-democratismo" (e os nossos Kritchévski, Martynov e companhia., que não param de falar sobre a "incitação" do primeiro género, não observam a "incitação" do segundo género). De facto, considerando as pessoas absorvidas noventa e nove por cento pela luta económica contra os patrões e o governo, uns, durante todo o período de sua actividade (de 4 a 6 meses), jamais serão levados a pensar na necessidade de uma organização mais complexa de revolucionários; outros, ao que parece, serão "levados" a ler a obra bernisteiniana, relativamente difundida, e daí extrairão a convicção de que é a "marcha progressiva da obscura luta quotidiana" que apresenta uma importância fundamental. Os outros, enfim, talvez sejam seduzidos pela ideia de dar ao mundo um novo exemplo de "estreita ligação orgânica com a luta proletária", de ligação entre o movimento sindical e o movimento social-democrata. Essas pessoas raciocinarão assim: quanto mais tarde um país entrar na arena do capitalismo, e portanto na do movimento operário, mais os socialistas poderão participar do movimento sindical e apoiá-lo, e haverá menos condições para a existência de sindicatos não sociais-democratas. Até aqui, esse raciocínio é perfeitamente justo, mas o mal é que vão mais longe e sonham com a fusão completa do "social-democratismo" e do sindicalismo. Vamos ver, em seguida, através do exemplo dos "Estatutos da União de Luta de São Petersburgo", a influência nociva que esses sonhos exercem sobre nossos planos de organização. As organizações operárias para a luta económica devem ser organizações profissionais. Qualquer operário social-democrata deve, sempre que possível, apoiar essas organizações e aí trabalhar activamente. Mas não é nosso interesse exigir que só os sociais-democratas possam ser membros das uniões "corporativistas": isso restringiria a nossa influência sobre a massa dos operários. Deixemos participar na união corporativa todo o operário que compreenda a necessidade de se unir para lutar contra os patrões e o governo. O próprio objectivo das uniões corporativas não seria atingido, se não agrupassem todos aqueles capazes de compreender essa noção elementar e se essas uniões corporativas não fossem organizações muito amplas. E quanto maiores essas organizações, também maior será a nossa influência sobre elas, influência exercida não apenas no desenvolvimento "espontâneo" da luta económica, mas também, pela acção consciente e directa dos membros socialistas da união sobre os seus camaradas. Mas, numa organização ampla, uma acção estritamente conspirativa é impossível (pois exige mais preparação do que a necessária para participar da luta económica). Como conciliar essa contradição entre a necessidade de uma organização ampla e a necessidade de uma acção estritamente conspirativa? Como fazer para que as organizações corporativas sejam o menos possível de conspiração? De modo geral, há apenas dois meios: ou a legalização das associações corporativas (que em certos países precedeu a legalização das associações socialistas e políticas), ou a manutenção da organização secreta, mas "livre", pouco regulamentada, lose, como dizem os alemães, a tal ponto que, para a massa dos associados, o regime conspirativo fica reduzido quase a zero. A legalização das associações operárias não socialistas e não políticas já começou na Rússia, e não há dúvida de que cada passo do nosso movimento operário social-democrata, em rápida progressão, multiplicará e encorajará as tentativas dessa legalização, tentativas que vêm sobretudo dos partidários do regime estabelecido, mas, também, dos operários e dos intelectuais liberais. A bandeira da legalização já foi hasteada pelos Vassiliev e os Zubatov; os Ozerov e os Worms já prometeram e deram a sua cooperação, e entre os operários já se encontram adeptos da nova tendência. E nós não podemos deixar de considerar essa tendência. E como considerá-la? Quanto a isso, não poderia existir mais do que uma opinião entre os sociais-democratas. Devemos denunciar constantemente toda participação dos Zubatov, dos Vassiliev, dos policiais e dos popes nessa tendência, e esclarecer os operários sobre as verdadeiras intenções desses participantes. Devemos denunciar também todas as notas conciliadoras e "harmónicas" que se manifestam nos discursos dos liberais nas assembleias públicas dos operários, quer sejam moduladas por pessoas sinceramente convencidas de que a colaboração pacífica entre classes é desejável, quer tenham o desejo de serem bem vistas pelas autoridades ou, enfim, quer essas pessoas sejam simplesmente inábeis. Devemos, enfim, colocar os operários em guarda contra as armadilhas frequentemente preparadas pela polícia que, nessas assembleias públicas e nas sociedades autorizadas, busca marcar os "homens imbuídos do fogo sagrado" e aproveitar-se das organizações legais para introduzir provocadores também nas organizações ilegais. Mas, fazer isto não significa esquecer que a legislação do movimento operário, afinal de contas, não beneficiará os Zubatov, mas a nós mesmos. Ao contrário, justamente pela nossa campanha de denúncias separamos o joio do trigo. Já mostrámos qual é o joio. O trigo é atrair a atenção de maiores camadas e mais atrasadas de operários para as questões políticas e sociais: é libertar-nos a nós, revolucionários, de funções que, no fundo, são legais (difusão de obras legais, socorro mútuo etc.) e que, desenvolvendo-se, dar-nos-ão infalivelmente material cada vez mais abundante para a agitação. Nesse sentido podemos e devemos dizer aos Zubatov e aos Ozerov: trabalhem, senhores, trabalhem! Enquanto os senhores preparam armadilhas para os operários, pela provocação directa ou pelo "struvismo" (meio "honesto" de corromper os operários), nós encarregamo-nos de desmascará-los. Enquanto os senhores dão realmente um passo à frente - mesmo que seja sob a forma de um "tímido ziguezague" - mas um passo à frente, apesar de tudo, nós lhe diremos: isso mesmo! E todo o alargamento do campo de acção dos operários, mesmo minúsculo, constitui um verdadeiro passo à frente. E todo o alargamento desse género só pode beneficiar-nos: apressará o aparecimento de associações legais, onde não serão os provocadores que pescarão os socialistas, mas os socialistas que pescarão adeptos. Numa palavra, o que é preciso, agora, é combater o joio. Não nos cumpre cultivar o trigo em vasos. Arrancando o joio, limpamos o terreno a fim de permitir que o trigo germine. E enquanto os Afanassi Ivanovitch e as Pulquéria Ivanovna se ocupam da cultura doméstica do trigo, nós devemos preparar segadores que saibam, hoje, arrancar o joio, e amanhã ceifar o trigo. Assim, nós não podemos, por intermédio da legalização, resolver o problema da criação de uma organização profissional menos clandestina e a maior possível (mas ficaríamos muito felizes se os Zubatov e os Ozerov nos oferecessem a possibilidade, mesmo parcial, de assim resolver o problema, pois devemos lutar contra eles com o máximo de energia!). Resta o caminho das organizações profissionais secretas, e devemos, por todos os meios, ajudar os operários que já seguem por esse caminho (sabemos isso de fonte segura). As organizações profissionais podem não só ser de imensa utilidade para o desenvolvimento e o fortalecimento da luta económica, mas também, tornar-se num precioso auxiliar da agitação política e da organização revolucionária. Para chegar a esse resultado, para orientar o movimento profissional nascente no caminho desejado pela social-democracia, é preciso antes de tudo compreender bem o absurdo do plano de organização do qual se envaidecem, já há cinco anos, os "economistas" de Petersburgo. Esse plano também está exposto nos Estatutos da Caixa Operária, de Julho de 1897 (Listok "Rab. ", n.º 9-10, p. 46, no n.º 1 da Rabótchaia Mysl) e nos Estatutos da Organização Operária Profissional, de Outubro de 1900 (folha especial, impressa em São Petersburgo e mencionada no n.º 1 do Iskra). Esses estatutos têm um defeito essencial: expõem todos os detalhes de uma grande organização operária, que confundem com uma organização de revolucionários. Tomemos os segundos estatutos, melhor elaborados. Apresentam cinquenta e dois parágrafos: 23 parágrafos expõem a estrutura, o modo de gestão e as funções dos "círculos operários" que serão organizados em cada fábrica ("não mais de 10 pessoas") e elegerão os "grupos centrais (de fábrica)". O parágrafo 2 especifica: "O grupo central observa tudo o que se passa na fábrica ou na oficina, e encarrega-se da crónica dos acontecimentos". "O grupo central presta contas do estado da caixa, mensalmente, a todos os contribuintes (parágrafo 17) etc.; dez parágrafos são dedicados à "organização de bairro", e dezanove à intrincadíssima relação do "Comité da Organização Operária" e do "Comité da União de Luta de São Petersburgo (delegados de cada bairro e dos "grupos executivos" - "grupos de propagandistas para as relações com a província, para as relações com o exterior, para a administração dos depósitos, das edições, da caixa"). A social-democracia incorpora-se nos "grupos executivos", no que diz respeito à luta económica dos operários! Seria difícil demonstrar de forma mais relevante como o pensamento do "economista" se desvia do "social-democratismo" em direcção ao sindicalismo, e como se preocupa pouco com o facto de o social-democrata dever, antes de tudo, pensar em organizar revolucionários capazes de dirigir toda a luta emancipadora do proletariado. Falar da "emancipação política da classe operária", da luta contra a "arbitrariedade czarista" e redigir semelhantes estatutos, significa nada compreender, mas absolutamente nada, das verdadeiras tarefas políticas da social-democracia. Nenhum dos cinquenta parágrafos revela o menor traço de compreensão da necessidade de se fazer entre as massas uma grande agitação política, esclarecendo todos os aspectos do absolutismo russo, toda a fisionomia das diferentes classes sociais na Rússia. Além disso, com tais estatutos, não só os fins políticos como até mesmo os fins sindicais do movimento jamais poderiam ser atingidos, visto exigirem urna organização por profissões, da qual os estatutos nada dizem. Mas o mais característico é talvez o surpreendente peso de todo esse "sistema", que procura ligar cada fábrica ao "comité" por intermédio de regulamentos uniformes e minuciosos até ao ridículo, com um sistema eleitoral em três níveis. Comprimidos no estreito horizonte do "economicismo", o pensamento perde-se em detalhes que exalam um forte odor de papelada e burocracia. Na realidade, três quartos desses parágrafos nunca serão aplicados; por outro lado, semelhante organização "clandestina", com um grupo central em cada fábrica, facilita à polícia as prisões em massa. Os camaradas polacos já passaram por essa fase do movimento; houve um período em que todos desejavam fundar caixas operárias por toda a parte: mas logo renunciaram a essa ideia, quando se convenceram que simplesmente favoreciam a polícia. Se queremos amplas organizações operárias e não amplas acções policiais, se não queremos fazer o jogo dos polícias, devemos fazê-las de forma que não sejam de modo algum regulamentadas. Mas como poderão elas, então, funcionar? Consideremos um pouco essas funções: "Observar tudo o que se passa na fábrica e fazer a crónica dos acontecimentos" (§ 2 dos estatutos). Será preciso, na verdade, regulamentar essa função? O seu objectivo não será melhor atingido através das crónicas na imprensa ilegal, sem que grupos de qualquer espécie sejam especialmente constituídos para esse fim? "... Dirigir a luta dos operários para melhorar a sua condição na fábrica" (§ 3). Mais urna vez, é inútil regulamentar. Urna simples conversa basta para um agitador (mesmo pouco inteligente) saber exactamente quais são as reivindicações que os operários desejam formular; depois, conhecendo-as, saberá transmiti-las a uma organização restrita - e não ampla - de revolucionários, que editará um panfleto apropriado. "... Organizar uma caixa ... com a contribuição de 2 copeques por rublo" (§ 9) e prestar contas do estado da caixa, mensalmente, a todos os contribuintes (§ 17); excluir os membros que não paguem sua contribuição (§ 10) etc. Para a polícia, isto é um verdadeiro paraíso, pois nada é mais fácil do que denunciar esse trabalho de conspiração da "caixa central da fábrica", de confiscar o dinheiro e encarcerar toda a "elite". Não seria mais simples emitir selos de um ou dois copepues de uma certa organização (muito restrita e muito secreta), ou ainda, sem qualquer símbolo, fazer colectas, cujos resultados seriam dados por um jornal ilegal, com uma linguagem combinada? Dessa forma, os mesmos objectivos seriam atingidos, e a polícia teria de trabalhar cem vezes mais para descobrir a trama da organização. Poderia continuar esta análise-tipo dos estatutos, mas creio já ter dito o suficiente. Um pequeno núcleo compacto, composto dos operários mais seguros, mais experimentados e mais fortalecidos, um núcleo tendo homens de confiança nos principais bairros, e ligado de acordo com as regras da mais estrita acção clandestina à organização dos revolucionários, poderá perfeitamente, com maior colaboração da massa e sem qualquer regulamentação, encarregar-se de todas as funções que competem a uma organização profissional e, além disso, realizá-las exactamente segundo as aspirações da social-democracia. Só assim poderemos consolidar e desenvolver, apesar de toda a polícia, o movimento profissional social-democrata. Poderiam objectar que uma organização lose ao ponto de não ter qualquer regulamento, nem membros declarados e registados, não poderia ser qualificada de organização. Talvez: não me importo com o nome. Mas, essa "organização sem membros" fará tudo o que é necessário, assegurará desde o princípio uma ligação sólida entre os nossos futuros sindicatos e o socialismo. E aqueles que, sob o absolutismo, desejam uma grande organização de operários com eleições, contas prestadas, sufrágio universal etc., são todos utópicos incuráveis e de boa fé. A moral a extrair disso é simples: se começamos por estabelecer urna organização de revolucionários, forte e sólida, poderemos assegurar a estabilidade do movimento no seu conjunto, atingir simultaneamente os objectivos sociais-democratas e os objectivos propriamente sindicais. Mas, se começamos por constituir uma organização operária ampla, pretensamente a mais "acessível" à massa (na realidade, a mais acessível à polícia e que tornará os revolucionários mais acessíveis à polícia), não atingiremos nenhum desses objectivos. Não nos livraremos dos nossos métodos artesanais e, pela nossa fragmentação, pelos nossos fracassos contínuos, apenas tornaremos mais acessíveis à massa os sindicatos do tipo Zubatov ou Ozerov. Quais devem ser, propriamente, as funções dessa organização de revolucionários? Falaremos disso em detalhe. Mas examinaremos primeiro um outro raciocínio bem típico do nosso terrorista que, mais uma vez (triste destino o seu!), se encontra próximo do "economismo". A Svoboda (nº1), revista para os operários, contém um artigo intitulado "A Organização", cujo autor busca defender os seus amigos, os "economistas" operários de Ivanovo-Voznessensk. "É deplorável", diz ele, "quando uma multidão é silenciosa, inconsciente, quando um movimento não vem de baixo. Observem o que acontece numa cidade universitária, quando os estudantes, na época de festas ou durante o verão, voltam para as suas casas; o movimento operário paralisa-se. Um movimento operário estimulado a partir do exterior pode constituir uma força verdadeira? Não, certamente... Ainda não aprendeu a marchar por si, deve ser amparado. Isso ocorre em todo lugar: os estudantes partem, e o movimento cessa; os elementos mais capazes, a nata, são aprisionados, e o leite azeda; prende-se o 'Comité', e enquanto um novo 'Comité' não for formado, sobrevém a calmaria; e não se sabe ainda o que será o novo 'Comité'; talvez não se assemelhe ao antigo: este dizia uma coisa, aquele dirá o contrário. Rompeu-se o laço entre ontem e hoje, a experiência do passado não beneficia o futuro. E tudo isso porque o movimento não tem raízes profundas na multidão; porque o trabalho é feito não por uma centena de imbecis, mas por uma dezena de cabeças dotadas de inteligência. Uma dezena de homens cai facilmente na boca do lobo; mas, quando a organização engloba a multidão, quando tudo vem da multidão, é impossível destruir o movimento" (p. 63). Os factos estão fielmente relatados. Eis um bom quadro do nosso trabalho artesanal. Mas, as conclusões, pela sua falta de lógica e de tacto político, são dignas da Rabótchaia Mysl. É o cúmulo da falta de lógica, pois o autor confunde a questão filosófica, histórica e social das "raízes profundas" do movimento com o problema da organização técnica de uma luta mais eficaz contra a polícia. É o cúmulo da falta de tacto político, pois, em lugar de submeter os maus dirigentes aos bons dirigentes, o autor submete os dirigentes em geral à "multidão". É ainda uma forma de nos fazer retroceder no que diz respeito à organização, do mesmo modo que a ideia de substituir a agitação política pelo "terror excitativo" nos faz retroceder politicamente. Isto é um verdadeiro embarras de richesses!


Não sei por onde começar a análise do imbróglio oferecido pela Svoboda. Para maior clareza, tentarei começar por um exemplo: tomemos os alemães. Espero que não neguem que, entre eles, a organização abrange a multidão, que tudo vem da multidão, que o movimento operário, na Alemanha, aprendeu a marchar sozinho. E contudo, como essa multidão de milhões de homens sabe apreciar a "dezena" dos seus experimentados chefes políticos, e como os apoiam! Mais de uma vez, no Parlamento, os deputados dos partidos adversários atormentaram os socialistas dizendo: "Que belos democratas são vocês! O movimento da classe operária, para vocês, existe apenas em palavras: na realidade, é sempre o mesmo grupo de chefes que faz tudo. Durante anos, durante dezenas de anos, é sempre o mesmo Bebel, o mesmo Liebknecht! Mas os seus delegados, pretensamente eleitos pelos operários, são mais permanentes que os funcionários nomeados pelo imperador!" Mas os alemães acolhem com um sorriso de desprezo essas tentativas demagógicas de opor a "multidão" aos "dirigentes", de acender nela os maus instintos de vaidade e de privar o movimento de solidez e estabilidade, arruinando a confiança da massa nessa "dezena de cabeças dotadas de inteligência". Os alemães são bastante desenvolvidos politicamente, têm suficiente experiência política para compreender que, sem uma "dezena" de chefes capazes (os espíritos capazes não surgem às centenas), experimentados, profissionalmente preparados e instruídos por uma longa aprendizagem, perfeitamente de acordo entre si, nenhuma classe da sociedade moderna pode conduzir resolutamente a luta. Os alemães também tiveram os seus demagogos, que adulavam as "centenas de imbecis" colocando-os acima das "dezenas de cabeças dotadas de inteligência"; que adulavam o "punho musculoso" da massa, empurravam (como Most ou Hasselmann) essa massa a actos "revolucionários" irreflectidos, e semeavam a desconfiança em relação aos chefes firmes e resolutos. E foi apenas graças a uma luta obstinada, implacável, contra os elementos demagógicos de toda espécie e de toda ordem no seio do socialismo, que o socialismo alemão cresceu tanto e se fortaleceu. Ora, neste período onde toda a crise da social-democracia russa se explica pelo facto de as massas espontaneamente despertadas não terem dirigentes suficientemente preparados, desenvolvidos e experimentados, os nossos sabichões vêm dizer-nos sentenciosamente, com a profundidade de pensamento de um Gribouille "é deplorável quando um movimento não vem de baixo!" "Um comité de estudantes não nos convém, porque é instável." Perfeitamente correcto. Mas a conclusão a extrair é que é necessário um comité de revolucionários profissionais, operários ou estudantes, pouco importa, que saibam proceder à sua educação de revolucionários profissionais. Enquanto que a conclusão que os senhores tiram, é que não é necessário estimular o movimento operário a partir do exterior! Com esta ingenuidade política, nem mesmo notam que assim fazem o jogo dos nossos "economistas" e utilizam os nossos métodos artesanais. Permitam-me colocar uma questão: como é que os nossos estudantes "estimularam" os nossos operários? Unicamente levando-lhes o pouco conhecimento político que eles próprios tinham, os fragmentos de ideias socialistas que puderam recolher (pois o principal alimento espiritual do estudante contemporâneo, o marxismo legal, não lhe pode oferecer senão o á-bê-cê e os fragmentos). Esse estímulo de fora não foi oferecido em abundância, ao contrário, no nosso movimento esse estímulo foi escandalosa e vergonhosamente insignificante; pois, até aqui, não fizemos mais do que "cozinharmo-nos mais do que o necessário no nosso próprio molho", inclinando-nos servilmente diante da "elementar luta económica dos operários contra os patrões e o governo". Nós, revolucionários de profissão, devemos ocupar-nos cem vezes mais desse "estímulo", e é o que faremos. Mas, justamente porque os senhores, empregam essa odiosa expressão, "estímulo a partir do exterior", que inevitavelmente inspira o operário (pelo menos o operário tão pouco desenvolvido como os senhores) a desconfiar de todos aqueles que lhe trazem de fora os conhecimentos políticos e a experiência revolucionária, e suscita nele o desejo instintivo de mandar passear todas as pessoas desse tipo - os senhores mostram-se como demagogos; ora, os demagogos são os piores inimigos da classe operária. Perfeitamente! E não se apressem a gritar contra os procedimentos "inadmissíveis entre camaradas" da minha discussão! Nem penso em suspeitar da pureza das intenções; já disse que é possível qualquer um tornar-se demagogo unicamente através da ingenuidade política. Mas mostrei que os senhores se deixaram levar até à demagogia. E jamais deixarei de repetir que os demagogos são os piores inimigos da classe operária. Os piores, precisamente, porque acendem os maus instintos da multidão, e é impossível para os operários pouco desenvolvidos reconhecer esses inimigos que se apresentam, e às vezes sinceramente, como seus amigos. Os piores porque, num período de dispersão e de hesitação, quando o nosso movimento ainda busca encontrar-se, nada mais fácil do que arrastar demagogicamente a multidão, que só as provações mais amargas poderão, depois, convencer do erro em que incorreram. Eis por que a palavra de ordem do momento para os sociais-democratas russos deve ser a luta resoluta contra a Svoboda, que se deixa levar à demagogia, e contra o Rabótcheie Dielo, que também assim procede (ainda voltaremos a isso). "É mais fácil caçar uma dezena de cabeças dotadas de inteligência do que uma centena de imbecis". Essa grande verdade (que sempre receberá o aplauso da centena de imbecis) parece evidente apenas porque, no curso do raciocínio, os senhores pularam de uma questão a outra. Começaram e continuam a falar da captura do "Comité", da "organização", e depois passam a uma outra questão, à captura das "raízes"' do movimento "em profundidade". Certamente, nosso movimento é apreensível, porque tem centenas de milhares de profundas raízes, mas não é essa a questão, de modo algum. Mesmo agora, apesar de todos os nossos métodos artesanais, e impossível "apreendermos" as nossas "profundas raízes" e todavia, todos deploramos, e não podemos deixar de deplorar, a captura das "organizações", o que impede toda continuidade no movimento. Ora, se os senhores colocam a questão da captura das organizações, e se a prendem a essa questão, dir-lhes-ei que é muito mais difícil apreender uma dezena de cabeças dotadas de inteligência do que uma centena de imbecis. E sustentarei esta tese, não importa o que façam para excitar a multidão contra meu "anti-democratismo" etc. É preciso entender por "cabeças inteligentes", em matéria de organização, como já mencionei em várias ocasiões, unicamente os revolucionários profissionais, estudantes ou operários de origem, pouco importa. Ora, eu afirmo: 1º) que não seria possível haver movimento revolucionário sólido sem uma organização estável de dirigentes, que assegure a continuidade do trabalho; 2º) que quanto maior a massa espontaneamente integrada à luta, formando a base do movimento e dele participando, mais imperiosa é a necessidade de se ter tal organização, e mais sólida deve ser essa organização (senão será mais fácil para os demagogos arrastar as camadas incultas da massa); 3º) que tal organização deve ser composta principalmente de homens tendo por profissão a actividade revolucionária; 4º) que, num país autocrático, só se o recrutamento for tão restringido ao ponto de não serem aceites na organização senão os revolucionários de profissão que fizeram a aprendizagem da arte de enfrentar a polícia política, é que será difícil "capturar" tal organização e 5º) mais numerosos serão os operários e os elementos das outras classes sociais, que poderão participar do movimento e nele militar de forma activa. Convido os nossos "economistas", os nossos terroristas, e os nossos "economistas terroristas" a refutar essas teses, das quais, neste momento, desenvolverei apenas as duas últimas. A questão de saber se é mais fácil capturar uma "dezena de cabeças dotadas de inteligência" ou uma "centena de imbecis" reconduz à questão que analisei mais acima: é possível uma organização de massa estabelecer-se com base num regimento estritamente clandestino? Jamais poderemos dar a uma grande organização um carácter clandestino, sem o qual não seria possível falar de uma luta firme contra o governo e cuja continuidade fosse assegurada. A concentração de todas as funções clandestinas entre as mãos do menor número possível de revolucionários profissionais não significa absolutamente que esses "pensarão por todos", que a multidão não tomará parte activa no movimento. Ao contrário, a multidão fará surgir esses revolucionários profissionais em número sempre maior, pois saberá, então, que não basta alguns estudantes e alguns operários, que conduzem a luta económica, reunirem-se para constituir um "comité", mas é necessário, durante anos, que procedam à sua educação de revolucionário profissional; e a multidão não "pensará" unicamente no trabalho artesanal, mas exactamente nessa educação.  

 

     A centralização das funções clandestinas da organização não significa absolutamente a centralização de todas as funções do movimento. Longe de diminuir, a colaboração activa na maior parte da literatura ilegal multiplicar-se-á dez vezes, quando uma "dezena" de revolucionários profissionais centralizar nas suas mãos a edição clandestina dessa literatura. Então, e somente então, conseguiremos que a leitura das publicações ilegais, a colaboração nessas publicações e mesmo, até certo ponto, a sua difusão, deixem (quase) de ser clandestinas: a polícia logo terá compreendido o absurdo e a impossibilidade de perseguição judicial e administrativa a propósito de cada exemplar de publicações distribuídas aos milhares. E isto é verdade, não somente para a imprensa, mas também para todas as funções do movimento, inclusive as manifestações. A participação mais activa e maior da massa em manifestações, longe de sofrer, ganhará mais se uma "dezena" de revolucionários experimentados, e pelo menos tão bem preparados profissionalmente como a nossa polícia, centralizar todos os aspectos clandestinos: elaboração de panfletos, de um plano aproximado, nomeação de um grupo de dirigentes para cada bairro da cidade, cada grupo de fábricas, cada estabelecimento de ensino etc. (Sei que poderão objectar que os meus pontos de vista "nada têm de democrático", mas responderei a tal objecção, mais adiante, e em detalhe, que nada é menos inteligente). A centralização das funções mais clandestinas pela organização dos revolucionários, longe de enfraquecer, enriquecerá e alargará a acção de uma multidão de outras organizações que se dirigem ao grande público e que, por razões que lhes são próprias, também são tão pouco regulamentadas e clandestinas quanto possível: associações profissionais de operários, círculos operários de instrução e de leitura de publicações ilegais, círculos socialistas e também círculos democráticos para todas as outras camadas da população etc. etc. Esses círculos, associações profissionais de operários e organizações são necessários em toda a parte; é preciso que sejam mais numerosos e que suas funções sejam as mais variadas; mas é absurdo e prejudicial confundi-las com a organização de revolucionários, apagar a linha de demarcação que existe entre elas, extinguir na massa o sentimento já incrivelmente adormecido de que, para "servir" um movimento de massa, é preciso ter homens que se dediquem especial e integralmente à actividade social-democrata, e que, paciente e obstinadamente, procedam à sua educação de revolucionários profissionais. Sim, esse sentimento está incrivelmente adormecido. Através dos nossos métodos artesanais, comprometemos o prestígio dos revolucionários na Rússia; é o nosso pecado capital em matéria de organização. Um revolucionário sem energia, hesitante nos problemas teóricos, com horizontes limitados, justificando a sua inércia pela espontaneidade do movimento de massa; mais semelhante a um secretário de sindicato que a um tribuno popular, incapaz de apresentar um plano amplo e corajoso que imponha respeito aos adversários, um revolucionário sem experiência e pouco hábil na sua arte profissional - a luta contra a polícia política - será um revolucionário? Não, não passa de um artesão digno de piedade. Que nenhum prático se ofenda com esse epíteto severo, pois, no que diz respeito à falta de preparação, aplico esse epíteto a mim mesmo, antes de todos. Trabalhei num círculo que atribuía a si próprio, tarefas muito amplas e múltiplas; todos nós, membros desse círculo, sofremos muito ao percebermos que éramos apenas os artesãos naquele momento histórico em que se poderia dizer, parafraseando a célebre máxima: dêem-nos uma organização de revolucionários e revolucionaremos a Rússia! E quanto mais me recordo desse agudo sentimento de vergonha que então experimentei, mais sinto aumentar em mim a amargura contra esses pseudo-sociais-democratas, cuja propaganda "desonra o título de revolucionário", e que não compreendem que a nossa tarefa não é defender o rebaixamento do revolucionário ao nível dos artesãos, mas de elevar os artesãos ao nível dos revolucionários. 

 

d) Envergadura do trabalho de organização 

 

     Como já vimos, B-v fala da "escassez de forças revolucionárias aptas para a acção, que se faz sentir não apenas em Petersburgo, mas em toda a Rússia". Não creio que se encontre alguém para contestar esse facto. Trata-se, porém, de saber como explicá-lo. B-v escreve: "não vamos aprofundar as razões históricas desse fenómeno; diremos somente que, desmoralizada por uma prolongada reacção política e dividida pelas mudanças económicas que se processaram e ainda se processam, a sociedade fornece apenas um número infinitamente restrito de pessoas aptas para o trabalho revolucionário; a classe operária, fornecendo os operários revolucionários, completa em parte as fileiras das organizações ilegais, porém, o número desses revolucionários não corresponde às necessidades da época. Tanto mais que o operário, pela sua própria situação, pois está ocupado onze horas e meia por dia na fábrica, pode apenas preencher funda mentalmente as funções de agitador, enquanto a propaganda e a organização, a reprodução e a distribuição de literatura ilegal, a publicação de proclamações etc., constituem forçosamente, na maior parte dos casos, as funções de um número ínfimo de intelectuais" (Rabótcheie Dielo, nº6, p. 38-39). Não estamos de acordo com essa opinião de B-v em relação a vários pontos, e salientamos especialmente os que mostram de forma relevante que, tendo sofrido muito por causa do nosso trabalho artesanal (como todo militante que pensa um pouco), B-v, subjugado pelo "economismo", não consegue encontrar um meio de sair dessa situação intolerável. Não, a sociedade fornece um número muito grande de homens aptos para o "trabalho", mas não sabemos utilizá-los a todos. O estado crítico, o estado transitório do nosso movimento nesse aspecto pode ser assim formulado: há falta de homens embora os homens existam em grande quantidade. Os homens existem em grande quantidade porque a classe operária e camadas cada vez mais variadas da sociedade fornecem, a cada ano, um número sempre maior de descontentes, desejosos de protestar, prontos a cooperar de acordo com suas forças na luta contra o absolutismo, cujo carácter intolerável ainda não foi reconhecido por toda a gente, mas é cada vez mais vivamente sentido por uma massa cada vez maior. E, ao mesmo tempo, há falta de homens, porque não há dirigentes, chefes políticos, organizadores capacitados para realizar um trabalho simultaneamente amplo, coordenado e harmonioso, que permita utilizar todas as forças, mesmo as mais insignificantes. "O crescimento e o desenvolvimento das organizações revolucionárias" retardam não apenas o crescimento do movimento operário - como o reconhece o próprio B-v -, mas também o crescimento do conjunto do movimento democrático em todas as camadas do povo. (Aliás, é provável que hoje B-v subscrevesse tal complemento da sua conclusão). O quadro do trabalho revolucionário é demasiado restrito em relação à grande base espontânea do movimento, e está demasiado comprimido pela precária teoria da "luta económica contra os patrões e o governo". Ora, hoje, não são apenas os agitadores políticos, mas também os sociais-democratas organizadores que devem "ir a todas as classes da população". Os sociais-democratas poderão perfeitamente repartir as inúmeras funções fragmentárias do trabalho de organização entre os representantes das mais diversas classes: nenhum militante, creio eu, duvidará disso. A falta de especialização, que B-v lamenta amargamente e com tanta razão, constitui um dos maiores defeitos dos nossos procedimentos técnicos. Quanto menores forem as diferentes "operações" da acção comum, tanto maior será o número de pessoas capazes de executá-las que poderão ser encontradas (e, na maior parte dos casos, completamente incapazes de se tornarem revolucionários profissionais); quanto mais difícil for para a polícia "marcar" todos esses "militantes especializa dos", mais difícil será montar, com o delito insignificante de um indivíduo, um "caso" de importância que justifique as verbas despendidas pelo Estado com a "segurança". Quanto ao número de pessoas, prontas a fornecer-nos cooperação, já observámos, no capítulo precedente, a grande mudança que se processou a esse respeito, somente nos últimos cinco anos. Mas, por outro lado, para agrupar todas essas mínimas fracções num só todo e para não fragmentar o próprio movimento juntamente com as funções, para inspirar no executante das pequenas funções a fé na necessidade e na importância do seu trabalho, sem a qual jamais realizará nada , para tudo isto é preciso ter uma forte organização de revolucionários experimentados. Com tal organização, a fé na força do partido será fortalecida e expandir-se-á de forma cada vez mais intensa quanto mais essa organização for clandestina; ora, na guerra, todos nós sabemos que o que importa acima de tudo não é apenas inspirar no exército a confiança nas suas próprias forças, mas também impô-la ao inimigo e a todos os elementos neutros; por vezes uma neutralidade benevolente pode decidir a vitória. Com tal organização fundamentada em base teórica bastante firme e dispondo de um órgão social-democrata, nada haverá a recear quanto ao facto de o movimento poder ser desviado pelos numerosos elementos de "fora", que a ele tenham aderido (ao contrário, é exactamente agora com o trabalho artesanal que predomina entre nós, que vemos inúmeros sociais-democratas empurrarem o movimento em direcção ao Credo, pretendendo serem os únicos sociais-democratas). Numa palavra, a especialização implica necessariamente a centralização, exigindo-a de forma absoluta. Mas o próprio B-v, que tão bem demonstrou toda a necessidade da especialização, não avalia suficientemente o seu valor, conforme nos parece, na segunda parte do raciocínio citado. Diz ele que o número de revolucionários saídos dos meios operários é insuficiente. Essa observação é perfeitamente correcta, e mais uma vez sublinhamos que a "preciosa informação de um observador directo" confirma inteiramente o nosso ponto de vista sobre as causas da crise actual da social-democracia e, portanto, sobre os meios de remediá-la. Não são apenas os revolucionários que, em geral, estão atrasados em relação ao impulso espontâneo das massas operárias. E esse facto confirma com toda a evidência, mesmo do ponto de vista "prático", não apenas o absurdo, mas também o carácter político reaccionário da "pedagogia" com que somos obsequiados frequentemente a propósito dos nossos deveres em relação aos operários. Atesta que a nossa primeira e imperiosa obrigação é contribuir para formar revolucionários operários, que estejam no mesmo nível dos revolucionários intelectuais em relação à actividade no Partido. (Salientamos "em relação à actividade no Partido", pois, em relação aos outros aspectos, atingir esse mesmo nível constitui, para os operários, algo muito menos fácil e muito menos urgente, embora necessário). Por isso, é preciso que nos dediquemos principalmente a elevar os operários ao nível dos revolucionários, e nunca devemos descer, nós próprios, ao nível da "massa operária" como desejam os "economistas", ao nível do "operário médio" como quer a Svoboda (que, sob esse aspecto, eleva ao quadrado a "pedagogia" economista). Longe de mim negar a necessidade de uma literatura popular para os operários, e de uma outra especialmente popular (mas não uma literatura de má qualidade) para os operários mais atrasados. Mas o que me revolta é essa tendência de se unir a pedagogia às questões de política, às questões de organização. Porque, afinal, os senhores que se arvoram em defensores do "operário médio", insultam antes de tudo esse operário, sempre que manifestam o desejo de se inclinarem na sua direcção, ao invés de lhe falarem de política operária ou de organização operária. Corrijam-se, portanto, e falem de coisas sérias, deixando a pedagogia aos pedagogos, e não aos políticos e aos organizadores! Não existem também entre os intelectuais elementos avançados, elementos "médios" e uma "massa"? Não reconhecem todos a necessidade de uma literatura popular para os intelectuais, e não se publica essa literatura? Mas imaginem que, num artigo sobre a organização de estudantes universitários ou liceais, o autor, em tom de quem faz uma descoberta, fica repisando inutilmente que, antes de mais nada, é preciso uma organização de "estudantes médios". Com toda a certeza, e justamente, tal autor seria ridicularizado. Mas, poderão dizer-lhe: dê-nos algumas ideias sobre a organização, se é que as tem, e deixe-nos a tarefa de ver quais são entre nós os elementos médios, os superiores ou os inferiores; se não tiver, porém, ideias próprias sobre a organização, todos os seus discursos sobre "a massa" e sobre os elementos "médios" serão simplesmente fastidiosos. Portanto, as questões de "política" e de "organização" são em si mesmas tão sérias, que somente podem ser tratadas seriamente: pode-se e deve-se preparar os operários (e também os estudantes universitários e liceais) de modo a que se possa abordar diante deles essas questões, mas, uma vez abordadas, dêem-lhes uma resposta verdadeira, não façam marcha à ré em direcção aos "médios" ou à "massa", não se considerem dispensados com frases ou anedotas. A fim de se preparar integralmente para essa tarefa, o operário revolucionário deve tornar-se também um revolucionário profissional. Por isso, B-v não tem razão ao dizer que, estando o operário ocupado durante onze horas e meia na fábrica, as outras funções revolucionárias (salvo a agitação) "devem estar a cargo forçosamente de um número ínfimo de intelectuais". De forma alguma isto acontece "forçosamente", mas, sim em consequência de nosso atraso; porque não compreendemos o nosso dever, que é ajudar todo o operário que se faz notar pelas suas capacidades a tornar-se agitador, organizador, propagandista, divulgador profissional etc. etc. Em relação a este aspecto, desperdiçamos vergonhosamente as nossas forças, pois não sabemos cuidar do que precisa ser cultivado e desenvolvido com o maior desvelo. Vejam os alemães: têm cem vezes mais forças que nós, mas compreendem perfeitamente que os operários "médios" não fornecem com muita frequência agitadores verdadeiramente capazes etc. Por isso, tomam a peito a questão de colocar imediatamente todo operário capaz em condições que lhe permitam desenvolver a fundo e aplicar as suas aptidões; fazem dele um agitador profissional, encorajam-no a alargar o seu campo de acção, a estendê-lo de uma única fábrica a toda a profissão, de uma única localidade a todo o país. Assim, adquire a experiência e a habilidade na sua profissão; alarga o seu horizonte e os seus conhecimentos, observa de perto os chefes políticos eminentes de outras localidades e de outros partidos; esforça-se por elevar-se ao nível de tais chefes e aliar o conhecimento do meio operário e o ardor da fé socialista à competência profissional, sem a qual o proletariado não pode empreender uma luta tenaz contra um inimigo perfeitamente preparado. É assim, e apenas assim, que surgem os Bebel e os Auer da massa operária. Mas aquilo que num país politicamente livre é feito por si só, entre nós deve ser realizado sistematicamente pelas nossas organizações. Todo o agitador operário, um pouco dotado e em quem se "deposite esperanças", não deve trabalhar onze horas na fábrica. Devemos cuidar para que viva por conta do partido e possa, no momento desejado, passar à acção clandestina, mudar de localidade, pois, de outro modo, não adquirirá grande experiência, não alargará o seu horizonte, não se poderá manter sequer por alguns anos na luta contra a polícia. Quanto mais amplo e profundo se tornar o impulso espontâneo das massas operárias, mais serão colocados em destaque os agitadores com talento, e também os organizadores e propagandistas talentosos e "práticos" no melhor sentido da palavra (que são tão poucos entre os nossos intelectuais, na sua maioria tão apáticos e indolentes à maneira russa). Quando tivermos destacamentos de operários revolucionários especialmente preparados (e, bem entendido, de "todas as armas" da acção revolucionária) por uma longa aprendizagem, nenhuma polícia política do mundo poderá derrubá-los, porque esses destacamentos de homens devotados de corpo e alma à revolução gozarão da confiança ilimitada das massas operárias. E cometemos um erro não "empurrando" bastante os operários para esse caminho, comum tanto a eles como aos intelectuais, o caminho da aprendizagem revolucionária profissional, e, pelo contrário, arrastando-os com muita frequência para trás com os nossos discursos estúpidos sobre o que é "acessível" à massa operária, aos "operários médios" etc. Também sob esse aspecto, a estreiteza do trabalho de organização apresenta uma conexão inegável, íntima (embora a imensa maioria dos "economistas" e dos práticos novatos não tenham consciência disso) com as nossas fraquezas teóricas e o nosso atraso nas tarefas políticas. O culto da espontaneidade faz com que, de certa forma, tenhamos medo de nos afastarmos, nem que seja um só passo, daquilo que é "acessível" à massa; de nos elevarmos muito acima da simples satisfação das suas necessidades directas e imediatas. Nada temam, senhores! Lembrem-se que em matéria de organização estamos num tão baixo nível que é até absurdo pensar que poderíamos subir tão alto! 


Que fazer? IV-3- Os métodos artesanais dos economistas e a organização dos revolucionários

 

e) A organização de "conspiradores" e o democratismo

 

     E é justamente isso que temem acima de tudo aquelas pessoas muito numerosas entre nós cujo "senso das realidades" é extremamente desenvolvido, e que acusam os que apoiam o ponto de vista aqui exposto de aferrar-se à opinião da "Narodnaia Volia", de não compreender o "democratismo" etc. Devemos deter-nos nessas acusações, que o Rabótcheie Dielo naturalmente também apoiou. O autor destas linhas sabe muito bem que os "economistas" de Petersburgo já acusavam a Rabótchaia Gazeta de se entregar ao "narodnolismo" (o que é compreensível, se comparada à Rabótchaia Mysl). Por isso, absolutamente não nos surpreendemos ao saber através de um camarada, pouco depois do nascimento do Iska, que os sociais-democratas da cidade X... o chamavam de órgão do "narodnolismo". Tal acusação, evidentemente, constituiu para nós um elogio, pois qual é o social-democrata digno desse nome, que os "economistas" não tenham acusado de "narodnolismo"? Essas acusações são originadas por duplo mal-entendido. Em primeiro lugar, a história do movimento revolucionário é tão precariamente conhecida entre nós, que é taxada de "narodnolismo toda a ideia referente a uma organização de combate centralizada e que declare resolutamente a guerra contra o czarismo. Mas a excelente organização revolucionária de 1870-1880 que deveria servir de modelo a todos nós, não foi criada pelos partidários da "Narodnaia Volia", mas pelos adeptos de "Zemlia i Volia", que em seguida se cindiram em partidários do "Tcherny Perediel" e em narodnoltsy. Portanto, ver numa organização revolucionária de combate uma herança específica dos "narodnoltsy" constitui um absurdo lógico e histórico, pois qualquer tendência revolucionária, ainda que vise pouco seriamente a luta, não poderia prescindir de uma organização desse género. O facto de serem tentados a atrair todos os descontentes para sua organização e de orientá-la para uma luta decisiva contra a autocracia não constituiu o erro, mas, sim, o grande mérito histórico dos "narodnoltsy". O erro dos "narodnoltsy" consistiu em terem-se apoiado sobre uma teoria que, no fundo, não era de forma alguma revolucionária, e em não terem sabido, ou podido, ligar indissoluvelmente o seu movimento à luta de classes no seio da sociedade capitalista em desenvolvimento. E só a mais grosseira incompreensão do marxismo (ou,  uma "compreensão" à maneira do "struvismo") podia conduzir à crença de que o nascimento de um movimento operário de massa espontâneo nos liberta da obrigação de criar uma organização revolucionária tão boa, ou incomparavelmente melhor, do que a do "Zemlia "Volia". Pelo contrário, é esse movimento que nos impõe precisamente essa obrigação, pois, a luta espontânea do proletariado não se transformará numa verdadeira luta de classe do proletariado enquanto não for dirigida por uma forte organização de revolucionários. Em segundo lugar, há muitos - e ao que parece também B. Kritchévski (Rab. Dielo, n.º 10, p. 18) - que interpretam erradamente a polémica sobre a posição dos sociais-democratas contra a concepção da luta política como "conspiração". Combatemos e sempre combateremos a limitação de luta política às dimensões de uma conspiração, mas isto não significa absolutamente, como se pensa, que neguemos a necessidade de uma organização revolucionária forte. Assim, na brochura mencionada na nota, encontra-se ao lado da polémica contra aqueles que desejariam restaurar a luta política como uma conspiração, o esboço de uma organização (apresentada como a ideal dos sociais-democratas) bastante forte para poder "recorrer à insurreição" e a qualquer "outra forma de ataque", "a fim de dar um golpe decisivo no absolutismo". Considerando apenas a forma, essa organização revolucionária num país autocrático pode ser qualificada como organização "conspirativa", pois o segredo é-lhe absolutamente necessário e indispensável, a ponto de todas as outras qualidades (número de membros, escolha dos membros,  funções etc.) deverem ajustar-se a isso. Seríamos, portanto, muito ingénuos se nós, sociais-democratas, receássemos ser acusados de criar uma organização conspirativa. Semelhante acusação também é lisonjeira para qualquer inimigo do "economismo", tal como a acusação de "narodnolismo". Ouviremos, porém, a objecção de que uma organização tão poderosa e tão estritamente secreta, que concentre nas suas mãos todos os fios de acção clandestina, organização necessariamente centralizada, poder lançar-se num ataque prematuro demasiado facilmente e poder estimular de forma imprudente o movimento, antes que este se torne possível e necessário pelos progressos do descontentamento político, pela força da efervescência e da exasperação da classe operária etc. A isso responderemos: falando de maneira abstracta, evidentemente não seria possível negar que uma organização de combate pudesse empenhar-se irreflectidamente numa batalha, que pode terminar em derrota o que, noutras condições, não aconteceria. Mas, no caso, é impossível restringir-se a argumentação a considerações abstractas, pois todo o combate implica possibilidades abstractas de derrota, e não há outro meio de diminuí-las senão preparando-se sistematicamente para o combate. E se a questão é colocada sobre o terreno concreto da situação russa de hoje, chega-se à conclusão positiva de que uma organização revolucionária forte é absolutamente necessária justamente para dar estabilidade ao movimento, e preservá-lo da possibilidade de ataques irreflectidos. Mas é porque nos falta essa organização e o movimento revolucionário espontâneo faz rápidos progressos,  que se observa o aparecimento de dois extremos opostos (que, como é lógico, "tocam-se"): um "economismo" completamente inconsistente e com a prédica da moderação, ou então um "terrorismo excitativo" não menos inconsistente, buscando "provocar artificialmente os sintomas para colocar um termo ao movimento, num movimente que progride e se fortalece, mas que ainda está mais perto, do seu ponto de partida do que do seu fim". (V. Zassoulitch, Zaria n.º 2-3, p. 353). O exemplo do Rabótcheie Dielo mostra que existem sociais-democratas que cedem diante desses dois extremos. Isto nada apresenta de surpreendente, pois, abstraindo as outras circunstâncias, "a luta económica contra os patrões e o governo" jamais satisfará um revolucionário, e os extremos opostos sempre aparecerão, aqui ou ali. Apenas uma organização de combate centralizada que pratique com firmeza a política social-democrata e, por assim dizer, que satisfaça a todos os instintos e aspirações revolucionárias, está em condições de preservar o movimento contra um ataque irreflectido e preparar outro que prometa o êxito. Em seguida, ser-nos-á colocada a objecção de que nosso ponto de vista sobre a organização está em contradição com o "princípio democrático". Da mesma forma que a acusação precedente apresenta uma origem especificamente russa, esta apresenta um carácter especificamente estrangeiro. Apenas uma organização sediada no estrangeiro (a "União dos Sociais-Democratas Russos") podia dar à luz, entre outras, a seguinte instrução: "Princípio de organização. No interesse do bom desenvolvimento da união da social-democracia, é conveniente sublinhar, desenvolver, reivindicar o princípio de uma ampla democracia na organização do Partido, o que se tornou particularmente necessário pelas tendências antidemocráticas que se revelaram nas fileiras de nosso Partido" (Dois Congressos. p. 18). Veremos no capítulo seguinte como o Rabótcheie Dielo luta contra as "tendências antidemocráticas" do Iskra. No momento, examinaremos mais de perto esse "princípio" colocado pelos "economistas". O "princípio de uma ampla democracia" como todos provavelmente concordarão, implica duas condições expressas: em primeiro lugar, a publicidade completa e, em segundo, a eleição para todas as funções. Seria ridículo falar de "democratismo" sem uma publicidade que não se limitasse aos membros da organização. "Chamaremos ao partido socialista alemão uma organização democrática, pois tudo aí se faz abertamente, até as sessões do congresso do partido; mas ninguém qualificará de democrática uma organização encoberta pelo véu do segredo para todos aqueles que não são membros. Por que então colocar o "princípio de uma ampla democracia", quando a condição essencial desse princípio, é inexequível numa organização clandestina? Esse "amplo princípio", no caso, é apenas uma frase sonora, porém oca. E ainda mais. Essa frase atesta uma incompreensão total das tarefas imediatas em matéria de organização. Todos sabem que, entre nós, a "grande" massa dos revolucionários guarda mal o segredo. Vimos com que amargura B.v se queixa, reclamando com justa razão uma "selecção rigorosa dos membros" (Rab. Dielo, nº6, p.42). E eis que as pessoas que se vangloriam do seu "senso das realidades" vêm sublinhar numa situação semelhante, não a necessidade de um segredo rigoroso e de uma selecção severa (portanto, mais restrita) dos membros, mas o "princípio de uma ampla democracia"! É o que se chama "meter os pés pelas mãos". Em relação ao segundo critério do "democratismo", o princípio electivo, as coisas não são melhores. Nos países onde reina a liberdade política, esse factor existe por si mesmo. "São membros do partido todos aqueles que reconhecem os princípios do seu programa e apoiam o partido na medida de suas forças", diz o primeiro parágrafo dos estatutos do partido social-democrata alemão. E como a arena política é visível a todos, como o palco de um teatro para os espectadores, todos sabem pelos jornais e assembleias públicas se essa ou aquela pessoa reconhece ou não esses princípios, apoia o partido ou a ele se opõe. Sabe-se que tal militante político teve este ou aquele início, teve esta ou aquela evolução, que num determinado momento difícil da sua vida se comportou de determinada maneira, que se distingue por estas ou aquelas qualidades; além disso, todos os membros do partido podem, com conhecimento de causa, eleger ou não esse militante para um determinado posto do partido. O controlo geral (no sentido restrito da palavra) de cada passo dado por um membro do partido na sua carreira política cria um mecanismo que funciona automaticamente, e que assegura o que em biologia se denomina a "sobrevivência do mais apto". Graças a essa "selecção natural", resultado de uma publicidade completa, da elegibilidade e do controlo geral, cada militante é "classificado no seu lugar", assume a tarefa mais apropriada às suas forças e capacidades, arca ele próprio com todas as consequências das suas faltas, e demonstra diante de todos que capacidade tem de tomar consciência das suas faltas e de as evitar. Tentem encaixar esse quadro na moldura de nossa autocracia! Seria possível entre nós, que todos aqueles "que reconhecem os princípios do programa do partido e o sustentam na medida das suas forças", pudessem controlar cada passo dado pelos revolucionários clandestinos? Que todos fizessem uma escolha entre estes últimos, quando o revolucionário é obrigado, no interesse do trabalho, a esconder aquilo que realmente é de nove entre dez pessoas? Se reflectíssemos um pouco no verdadeiro sentido das frases grandiloquentes lançadas pelo Rabótcheie Dielo, compreenderíamos que o "amplo democratismo" da organização do partido, nas trevas da autocracia e sob um regime de selecção policial, "não é senão uma futilidade prejudicial, pois, de facto, nenhuma organização revolucionária jamais aplicou, nem poderá aplicar, apesar de toda a sua boa vontade, um amplo "democratismo". É uma futilidade prejudicial, pois as tentativas para se aplicar de facto o "princípio de uma ampla democracia" apenas facilitam o grande número de detenções que a polícia realiza, perpetuam o reinado do trabalho artesanal, desviam o pensamento dos práticos da sua séria e imperiosa tarefa, que é, "proceder à educação de revolucionários profissionais, para a redacção de detalhados estatutos" burocráticos sobre os sistemas de eleição. Apenas no estrangeiro, onde frequentemente se reúnem homens que não têm possibilidade de realizar um trabalho útil e prático, é que se pode desenvolver essa mania de "brincar ao democratismo", sobretudo em alguns pequenos grupos. Para mostrar ao leitor como é indigna a maneira de proceder do Rabótcheie Dielo, que prega esse "princípio"' aparentemente verdadeiro que é o "democratismo" no trabalho revolucionário, mais uma vez recorreremos a uma testemunha. Essa testemunha, E. Serbriakov, director da revista Nakanune, em Londres, mostra nitidamente uma fraqueza pelo Rabótcheie Dielo e uma aversão acentuada por Plekhanov e seus "plekhanovianos";  nos seus artigos sobre a cisão Nakanune tomou resolutamente o partido do Robótcheie Dielo e derramou uma onda de palavras desprezíveis contra Plekhanov. Por isso é que o seu testemunho sobre essa questão nos é tão precioso. No artigo intitulado "A Propósito do Apelo do Grupo de Auto libertação dos Operários" (Nakanune, n.º 7 Julho de 1899), E. Serebriakov, observando a "inconveniência que havia em levantar as questões de prestígio e de primazia no chamado areópago  de um movimento revolucionário sério", escrevia, entre outras coisas: "Mychkine, Rogatchev, Jehabov, Míkhailov, Perovskaía, Figner e outros nunca se consideraram dirigentes. Ninguém os elegeu ou nomeou e, no entanto, eram chefes, pois, tanto em período de propaganda como em período de luta contra o governo, assumiam o trabalho mais difícil, iam aos lugares mais expostos, e a sua actividade era a mais proveitosa. E essa primazia não era o resultado dos seus desejos, mas da confiança dos camaradas que os rodeavam,  na sua inteligência, na sua energia e no seu devotamento. E seria muita ingenuidade temer um areópago, qualquer que seja, (e se ele não for temido, por que fala nisso?) que dirigisse autoritariamente o movimento. Então, quem lhe obedeceria?" Perguntamos ao leitor: Qual a diferença entre um "areópago" e as "tendências antidemocráticas"? Não é evidente que o princípio de organização aparentemente verdadeiro do Rabótcheie Dielo é tão ingénuo quanto inconveniente? Ingénuo, porque o "areópago" ou as pessoas com "tendências antidemocráticas" não serão obedecidas sinceramente por ninguém, desde o momento que "os camaradas que os cercam não tiverem confiança nas suas inteligência, energia e devotamento". Inconveniente, como procedimento demagógico que se aproveita da vaidade de alguns e da ignorância de outros no que respeita ao verdadeiro estado de nosso movimento, da falta de preparação e ainda da ignorância da história do movimento revolucionário. Para os militantes do nosso movimento, o único princípio sério em matéria de organização deve ser: segredo rigoroso, escolha rigorosa dos membros, formação de revolucionários profissionais. Reunidas essas qualidades, teremos algo mais do que "democratismo": teremos uma confiança plena e fraternal entre revolucionários. Ora, esse algo a mais é-nos absolutamente necessário, pois, entre nós, na Rússia, não seria possível substituí-lo pelo controlo democrático geral. E seria um grande erro acreditar que a impossibilidade de um controlo verdadeiramente "democrático" torna os membros da organização revolucionária incontroláveis: de facto, estes não têm tempo de pensar nas formas pueris de "democratismo" ("democratismo" no seio de um núcleo restrito de camaradas entre os quais, haja plena confiança), mas percebem com muita clareza a sua responsabilidade, e além disso sabem pela própria experiência que, para se livrar de um membro indigno, uma organização de verdadeiros revolucionários não recuará diante de qualquer meio. Além disso, existe entre nós, no meio revolucionário russo (e internacional), uma opinião pública bastante desenvolvida, que tem uma longa história e castiga com rigor implacável qualquer falta aos deveres de camaradagem (ora, o "democratismo", o democratismo verdadeiro e não pueril, é um elemento constitutivo dessa noção de camaradagem!). Levando tudo isto em conta, compreenderemos como esses discursos e resoluções sobre as "tendências antidemocráticas" exalam o cheiro a porão característico da emigração,  com as suas pretensões ao generalato! É conveniente notar, além da ingenuidade, uma outra fonte desses discursos: a ideia confusa que se faz da democracia. A obra do casal Webb sobre os sindicatos ingleses apresenta um capítulo curioso sobre a "democracia primitiva". Os autores narram aí que os operários ingleses, no primeiro período de existência dos seus sindicatos, consideravam como condição necessária da democracia a participação de todos os membros em todos os detalhes da gestão dos sindicatos, não só todas as questões eram resolvidas pelo voto de todos os membros, mas também as próprias funções eram exercidas por todos os membros, sucessivamente. Foi preciso uma longa experiência histórica para que os operários compreendessem o absurdo de tal concepção da democracia e a necessidade de instituições representativas,  por um lado, e de funcionários profissionais, por outro. Foi preciso ocorrerem inúmeras falências de caixas sindicais para fazer com que os operários compreendessem que a questão da relação proporcional entre as quotizações depositadas e os subsídios recebidos não podia ser decidida apenas pelo voto democrático, e que tal questão também exigia o parecer de um especialista em seguros. Em seguida, tomem o livro de Kaustsky sobre o parlamentarismo e a legislação popular, e verão que as conclusões desse teórico marxista concordam com os ensinamentos advindos da longa prática dos operários "espontaneamente" unidos. Kautsky ergue-se resolutamente contra a concepção primitiva da democracia de Rittinghausen, zomba das pessoas prontas a reclamar, em nome dessa democracia, de "os jornais populares serem redigidos pelo próprio povo", prova a necessidade de jornalistas, de parlamentares profissionais etc., para a direcção social-democrata da luta de classe do proletariado, "ataca o socialismo dos anarquistas e dos literatos" que, "visando o efeito", pregam a legislação popular directa e não compreendem que a sua aplicação é muito relativa na sociedade actual. Aqueles que trabalham na prática no nosso movimento, sabem como a concepção "primitiva" da democracia se difundiu amplamente entre a juventude estudantil e os operários. Não é de surpreender que essa concepção também invada os estatutos e a literatura. Os "economistas" do tipo bernisteiniano escreviam nos seus estatutos: "§ 10. Todos os casos que interessem à organização como um todo serão decididos por maioria dos votos de todos os seus membros". Os "economistas" do tipo terroristas repetem atrás deles: "É preciso que as decisões dos comités tenham passado por todos os círculos antes de se tornarem decisões válidas" (Svoboda, n.º 1, P. 67). Observem que essa reivindicação relativa à aplicação ampla do referendo é acrescentada à que deseja que toda a organização seja construída sobre o princípio electivo! Longe de nós, bem entendido, a ideia de condenar por isso os práticos que tiveram tão pouca possibilidade de se iniciarem na teoria e na prática de organizações verdadeiramente democráticas. Mas quando o Rabótcheie Dielo, que aspira a um papel de dirigente, se limita, numa situação como esta, a uma resolução sobre o princípio de uma ampla democracia, por que não dizer de forma simples que unicamente "visa o efeito"? 


f) O trabalho à escala local e nacional 

     Se as objecções ao "não-democratismo" e ao carácter conspirativo da organização cujo plano foi exposto aqui, estão destituídas de qualquer fundamento, resta ainda uma questão que frequentemente é levantada e merece exame detalhado. É o problema da relação entre o trabalho local e o trabalho em escala nacional.  A formação de uma organização centralizada, pergunta-se com inquietude, não levará ao deslocamento do centro de gravidade do primeiro em direcção ao segundo? Isto não prejudicará o movimento, visto que nossa ligação com a massa operária será enfraquecida e, de maneira geral, também será abalada a estabilidade da agitação local? A isso responderemos que, nestes últimos anos, o nosso movimento se tem ressentido precisamente do facto de os militantes locais estarem excessivamente absorvidos pelo trabalho local; que é absolutamente necessário, por conseguinte, deslocar um pouco o centro de gravidade em direcção ao trabalho em escala nacional; que esse deslocamento longe de enfraquecer, apenas reforçará a nossa ligação com a massa e a estabilidade da nossa agitação local. Tomemos a questão do órgão central e dos órgãos locais; pedimos ao leitor que não se esqueça que a imprensa, para nós, é apenas um exemplo que ilustra uma acção revolucionária infinitamente maior e diversa, em geral. No primeiro período do movimento de massa (1896-1898), os militantes locais fizeram uma tentativa de criar um órgão para toda a Rússia: a Rabótchaia Gazeta; no período seguinte (1898-1900), o movimento deu um grande passo em frente, mas a atenção dos dirigentes estava inteiramente absorvida pelos órgãos locais. Se todos esses órgãos locais fossem levados em conta, verificar-se-ia que, em números redondos, se publicava um número por mês. Tal ilustração não é representativa do facto de o nosso trabalho ser artesanal? Isto não mostra de forma evidente que a nossa organização revolucionária se atrasa em relação ao impulso espontâneo do movimento? Se a própria quantidade de números de jornais tivesse sido publicada não por grupos locais dispersos, mas por uma única organização, não somente teríamos economizado uma quantidade de forças,  como também o nosso trabalho teria sido infinitamente mais estável e contínuo. Eis uma constatação bastante simples frequentemente esquecida pelos práticos que trabalham activamente de uma forma quase exclusiva nos órgãos locais (infelizmente, isto ocorre ainda hoje na grande maioria das vezes) e pelos publicistas que aqui dão provas de um espantoso quixotismo. O prático contenta-se normalmente em objectar que é "difícil", para os militantes locais, montar um jornal para todo o país, e que é melhor ter jornais locais do que não ter nenhum. Naturalmente, isto é perfeitamente correcto, e para reconhecer a enorme importância e utilidade dos órgãos locais em geral, não necessitamos da advertência de nenhum prático. Mas não é essa a questão; o que importa é saber se não é possível remediar essa dispersão, esse trabalho rudimentar, que o aparecimento de trinta números de jornais locais em toda a Rússia, nestes dois anos e meio, atesta de maneira tão clara. Portanto, não se contentem com uma tese incontestável, porém demasiado geral, sobre a utilidade dos jornais locais em geral; tenham também coragem de reconhecer abertamente os aspectos negativos revelados pela experiência de dois anos e meio. Essa experiência atesta que, dadas as nossas condições, os jornais locais, na maior parte dos casos, são instáveis do ponto de vista dos princípios, não têm penetração política, são excessivamente onerosos no que diz respeito ao dispêndio de forças revolucionárias, e absolutamente insatisfatórios do ponto de vista técnico (não me refiro, bem entendido, à técnica de impressão, mas à frequência e regularidade da publicação). E todos os defeitos indicados não constituem obra do acaso, mas são o resultado inevitável desse esfacelamento que, de um lado, explica a predominância dos jornais locais no período examinado e, de outro, é sustentado por essa predominância. Uma organização local, por si mesma, não pode assegurar a estabilidade de seu jornal do ponto de vista dos princípios e elevá-lo ao nível de um órgão político; não pode, por si própria, reunir e utilizar documentação suficiente para esclarecer toda a nossa vida política. Quanto ao argumento ao qual geralmente se recorre nos países livres para justificar a necessidade de numerosos jornais locais - o facto de terem preços módicos, por serem impressos pelos operários do lugar, e de apresentarem maior amplitude e rapidez de informações à população - esse argumento, conforme o demonstra a experiência, volta-se, entre nós, contra os jornais locais. Estes últimos custam demasiado caro, em relação ao dispêndio de forças revolucionárias, e aparecem em intervalos extremamente espaçados pela simples razão de que um jornal ilegal, por menor que seja, exige um enorme aparelho clandestino, que se é possível montar num grande centro fabril, já não o é numa oficina de artesão. O carácter rudimentar do aparelho clandestino permite ordinariamente (qualquer militante conhece inúmeros exemplos deste género) à polícia realizar prisões em massa, após o aparecimento e a divulgação de um ou dois números, e destruir as coisas ao ponto de ser preciso recomeçar tudo de novo. Um bom aparelho clandestino exige, uma boa preparação profissional dos revolucionários e uma divisão rigorosamente lógica do trabalho. Duas condições absolutamente impossíveis para uma organização local, por mais forte que seja num determinado momento. Sem falar dos interesses de nosso movimento como um todo (educação socialista e uma política operária consequente), não é através dos órgãos locais que os interesses especificamente locais são melhor defendidos; apenas à primeira vista isto poderia parecer um paradoxo; mas, na realidade, é um facto irrefutável, provado pela experiência de dois anos e meio de, que já falamos.  Todos concordarão que, se todas as forças locais que publicaram trinta números de jornais tivessem trabalhado para um único jornal, esse jornal teria facilmente chegado a sessenta ou até cem números e, por conseguinte, teria reflectido de forma mais completa todas as particularidades puramente locais do movimento. Na verdade, não é fácil atingir este grau de organização, mas também é preciso que tomemos consciência da necessidade de que cada círculo local pense e trabalhe activamente nesse sentido, sem esperar um impulso de fora, sem se deixar seduzir pela acessibilidade, pela proximidade de um órgão local, proximidade que é em grande parte ilusória, como o demonstra a nossa experiência revolucionária. E os publicistas, que não percebem este carácter ilusório, que acreditam estar especialmente próximos dos práticos e se esquivam do jornal para toda a Rússia com o raciocínio espantosamente fácil e vazio da necessidade de jornais locais e de jornais regionais,  afinal só prestam serviços precários ao trabalho prático. Em princípio, tudo isso é necessário, evidentemente, mas também é preciso pensar nas condições do meio e do momento quando se aborda um problema concreto de organização. De facto, não é quixotismo dizer, como a Svoboda (nº 1, p. 68), ao "tratar especificamente a questão do jornal" que: "Em nossa opinião, cada aglomeração operária algo significativa deve ter o seu próprio jornal. O seu próprio jornal feito por ela, e não trazido de fora". Se este publicista não quer reflectir no sentido das suas palavras, que o leitor ao menos reflicta por ele: quantas dezenas ou centenas "de aglomerações operárias algo significativas" existem na Rússia e da forma como os nossos métodos artesanais seriam perpetuados se cada organização local começasse realmente a editar o seu próprio jornal! Da forma como esse fraccionamento facilitaria o trabalho da polícia: prender sem qualquer esforço "considerável" "os militantes locais no início da sua actividade, antes que tivessem tempo de se transformarem em verdadeiros revolucionários! Num jornal para toda a Rússia, continua o autor, seriam fastidiosas as tramas dos fabricantes e "os pequenos factos da vida de fábrica noutras cidades que não a do leitor", mas "o habitante de Orel não se aborrecerá ao ler o que se passa em Orel. Em cada ocasião pode reconhecer aqueles que 'foram pilhados', os que foram 'perseguidos' e a sua mente trabalha" (p. 69). Sim, naturalmente a mente do habitante de Orel trabalha, mas a imaginação do nosso publicista também "trabalha" demasiadamente. É oportuno defender assim semelhante mesquinharia? É nisso que deveria reflectir. Naturalmente as revelações sobre a vida das fábricas são necessárias e importantes, isso reconhecemos melhor que ninguém, mas é preciso lembrar que chegámos a uma situação em que os habitantes de Petersburgo já se cansaram de ler a correspondência petersburguesa do jornal petersburguês Rabótchaia Mysl. Para as revelações do que ocorre nas fábricas sempre tivemos e sempre deveremos ter as folhas volantes, mas quanto ao conteúdo do nosso jornal, devemos elevá-lo e não rebaixa-lo ao nível de uma folha volante de fábrica. Quando se trata de um "jornal", é preciso revelar não tanto os "pequenos factos" como os defeitos essenciais, particulares à vida da fábrica, revelações na base de exemplos relevantes e, por conseguinte, susceptíveis de interessar a todos os operários e dirigentes do movimento, enriquecendo verdadeiramente os seus conhecimentos, alargando o seu horizonte, despertando uma nova região, uma nova categoria profissional de operários. "Em seguida, no jornal local pode-se apreender in loco, ainda quentes, todas as tramas da hierarquia da fábrica ou das autoridades. Ao contrário, com um jornal central, distante, a notícia demoraria a chegar, e quando o jornal saísse o acontecimento estaria esquecido: "Quando foi isto, que vá pró diabo quem se lembra!" (Mid). Precisamente: para o diabo quem se lembra! Segundo a mesma fonte, os trinta números publicados em dois anos e meio vêm de seis cidades. Isto significa que, em média, há um número a cada seis meses por cidade! Supondo mesmo que nosso publicista, irreflectidamente, triplica o rendimento do trabalho local (o que seria, absolutamente falso para uma cidade média, pois os nossos métodos artesanais impedem um aumento sensível do rendimento), teremos apenas um número a cada dois meses; portanto, não seria possível "apreender ainda quentes" as notícias: Porém, bastaria que dez organizações locais se unissem e confiassem aos seus delegados a função activa de organizar um jornal comum, para que fosse possível "apreender" não somente os pequenos factos, mas os abusos gritantes e típicos de toda a Rússia e isto a cada quinze dias. Aqueles que conhecem a situação nas nossas organizações não podem duvidar disso. Quanto a surpreender o inimigo em flagrante delito, se quisermos levar a sério e não ser levados pela beleza do estilo, um jornal ilegal não poderia sequer pensar nisso: isso só pode ser feito através de folhas volantes, pois a maior parte das vezes, só se dispõe de um ou dois dias (por exemplo, quando se trata de uma greve comum e curta, de um tumulto na fábrica, de uma manifestação qualquer etc.). "O operário não vive apenas na fábrica, vive também na cidade" prossegue o nosso autor, passando do particular para o geral com um tão rigoroso sentido de sequência que honraria o próprio Bóris Kritchévski. E indica as questões a tratar: as dumas municipais, os hospitais, as escolas, e declara que um jornal operário não poderia silenciar os assuntos municipais. Tal disposição é, em si, excelente, mas mostra bem as abstracções vazias de sentido com as quais nos contentamos com tanta frequência quando se trata de jornais locais. Primeiro, se em "toda organização operária algo significativa" fossem fundados de facto jornais com uma secção municipal tão pormenorizada como quer a Svoboda, isso infalivelmente degeneraria em verdadeiras mesquinharias, nas condições russas, enfraqueceria o sentimento que temos sobre a importância de uma investida revolucionária de toda a Rússia contra a autocracia; reforçaria os germes bastante resistentes - mais dissimulados ou reprimidos do que extirpados - da tendência tornada célebre pela famosa frase sobre os revolucionários que falam muito do parlamento inexistente, e pouco das dumas municipais existentes. Infalivelmente, dizemos acentuando assim que não é isso que a Svoboda deseja, mas o contrário. Não bastam as boas intenções. Para que os assuntos municipais sejam tratados sob uma perspectiva apropriada ao conjunto do nosso trabalho, é preciso, primeiro, que essa perspectiva seja perfeitamente definida, firmemente estabelecida não apenas por simples raciocínios, mas também por inúmeros exemplos; é preciso que adquira a solidez de uma tradição. Ainda estamos longe disso, e portanto é preciso começar daí, antes que se possa pensar em uma grande imprensa local, ou dela falar. Em segundo lugar, para escrever verdadeiramente bem e de forma interessante sobre os assuntos municipais, é preciso conhecê-los bem, e não apenas através dos livros. Ora, em toda a Rússia, quase não há sociais-democratas que possuam esse conhecimento. Para escrever num jornal (e não numa brochura popular) sobre os assuntos da cidade e do Estado, é preciso ter uma documentação nova, múltipla, recolhida e elaborada por homens competentes. Ora, para recolher e elaborar semelhante documentação, não basta a "democracia primitiva" de um círculo primitivo, no qual todos se ocupam de tudo e divertem com referendos. Para isso, é preciso um estado-maior de escritores especializados, de correspondentes especializados, um exército de repórteres sociais-democratas que estabeleçam relações de todos os lados, saibam penetrar até nos menores "segredos de Estado"(dos quais o funcionário russo tanto se gaba e com tanta facilidade divulga), introduzir-se em todos os "bastidores", um exército de pessoas obrigadas "pelas suas funções" a serem omnipresentes e omniscientes. E nós, Partido de luta contra toda opressão económica, política, social, nacional, podemos e devemos encontrar, reunir, instruir, mobilizar e pôr em marcha esse exército de homens omniscientes. Porém, isso ainda não está feito! Ora, nada temos realizado nesse sentido, na maior parte das localidades, e, frequentemente,  nem sequer temos consciência dessa necessidade. Procurem na nossa imprensa social-democrata artigos vivos e interessantes, notícias que revelem os nossos assuntos diplomáticos, militares, religiosos, municipais, financeiros etc., grandes ou pequenos; quase nada ou muito pouco será encontrado. Por isso, "fico terrivelmente irritado quando alguém me vem dizer uma série de coisas muito lindas e notáveis" sobre a necessidade de haver, "em cada aglomeração operária algo significativa", jornais que denunciem os abusos que ocorrem nas fábricas, na administração municipal, e no Estado! A predominância da imprensa local sobre a imprensa central ou é um indício de miséria ou então de opulência. De miséria, quando o movimento ainda não forneceu forças suficientes para a produção em grande escala, quando ainda vegeta nos métodos artesanais e está quase imerso nos "pequenos factos da vida de fábrica". De opulência, quando o movimento já teve êxito completo no cumprimento das suas múltiplas tarefas de divulgação e de agitação, e surge a necessidade de se ter, paralelamente a um órgão central, numerosos órgãos locais. Quanto ao significado da preponderância dos órgãos locais, entre nós, no momento actual, deixo a cada um a preocupação de decidir. Quanto a mim, para evitar qualquer mal-entendido, formularei de forma precisa a minha conclusão. Até agora, a maioria das nossas organizações locais pensa quase que exclusivamente nos órgãos locais: ocupam-se activamente apenas desses últimos. Isto não é normal. Pelo contrário, é preciso que a maioria das organizações locais pense principalmente na criação de um órgão para toda a Rússia, que disso se ocupe. Enquanto não for assim, não poderemos publicar nem mesmo um único jornal que seja capaz de servir verdadeiramente o movimento através de uma grande agitação pela imprensa. E quando isso ocorrer, as relações normais entre o órgão central indispensável e os indispensáveis órgãos locais serão estabelecidas por si próprias. À primeira vista pode parecer que a necessidade de deslocar o centro de gravidade, do trabalho local para o trabalho à escala nacional, não é indicada no terreno da luta económica pura. Aqui, o inimigo directo dos operários é representado pelos empregadores isolados ou grupos de empregadores não ligados entre si por uma organização que lembre, mesmo que apenas longinquamente, uma organização puramente militar, estritamente centralizada, dirigida nos menores detalhes por uma vontade única, como é a organização do governo russo, nosso inimigo directo na luta política. Mas, não é assim. A luta económica - já dissemos milhares de vezes - é uma luta profissional, e por isso exige o agrupamento dos operários por profissão, e não unicamente por local de trabalho. E esse agrupamento por profissões é tanto mais urgente quanto maior for a precipitação dos empregadores em se agruparem em sociedades e sindicatos de toda a espécie. O nosso fraccionamento e os nossos métodos artesanais entravam nitidamente esta agrupamento, que necessita de uma só organização de revolucionários para toda a Rússia,   capaz de assumir a direcção das associações profissionais operárias á escala nacional. Expusemos acima o tipo de organização apropriada; acrescentaremos a seguir algumas palavras apenas em relação à nossa imprensa.

Ninguém contesta que todo jornal social-democrata deva trazer uma secção dedicada à luta profissional (económica). Mas o crescimento do movimento profissional obriga-nos a pensar também na criação de uma imprensa profissional. Contudo, parece-nos que, com raras excepções, ainda não é possível colocar, na Rússia, tal questão: é um luxo quando frequentemente nos falta o pão de cada dia. Em matéria de imprensa profissional, a melhor forma adaptada às condições actuais do trabalho ilegal, a forma desde hoje necessária, seria a brochura por profissão.  Nela deveria ser coligida e agrupada sistematicamente a documentação legal e ilegal sobre as condições de trabalho nesta ou naquela profissão, o que distingue a esse respeito as diferentes regiões da Rússia, as principais reivindicações dos operários de uma dada profissão, as insuficiências de legislação a que ela se refere; sobre os exemplos mais relevantes da luta económica dos operários desta ou daquela corporação; sobre o início, o estado actual e as necessidades da sua organização sindical etc. Inicialmente, estas brochuras necessitariam que a nossa imprensa social-democrata fornecesse uma série de detalhes profissionais que interessassem especialmente os operários de uma determinada profissão; em seguida, reproduziriam os resultados da nossa experiência na luta sindical, conservariam a documentação colectada, que hoje literalmente se perde na massa de folhas volantes e publicações fragmentárias, e generalizariam essa documentação. Em terceiro lugar, poderiam servir, de alguma forma, como guia para os agitadores, uma vez que as condições de trabalho se modificam de forma relativamente lenta, e as reivindicações essenciais dos operários de uma determinada profissão são muito estáveis (comparem as reivindicações dos tecelões da região de Moscovo, em 1885, e as da região de Petersburgo, em 1896). O resumo dessas reivindicações e necessidades poderia constituir, durante anos, um excelente manual para a agitação económica nas localidades atrasadas ou entre as categorias de operários mais atrasadas. Os exemplos de greves vitoriosas, em determinada região, os dados ilustrando um nível superior de vida, de melhores condições de trabalho numa determinada localidade, encorajariam os operários de outras localidades a novas lutas. Enfim, tomando a iniciativa de generalizar a luta profissional e reforçando, assim, a ligação do movimento profissional russo com o socialismo, a social-democracia trabalharia simultaneamente para que a nossa acção sindical ocupasse um lugar, nem muito grande nem muito pequeno, no conjunto do nosso trabalho social-democrata. É muito difícil, quase impossível, para uma organização local, isolada das organizações de outras cidades, observar na justa proporção esse aspecto (e o exemplo da Rabótchaia Mysl indica o monstruoso exagero a que se pode chegar, em termos de sindicalismo). Mas uma organização de revolucionários para toda a Rússia, que se mantenha deliberadamente ligada ao ponto de vista do marxismo, que dirija toda a luta do ponto de vista do marxismo, que dirija toda a luta política e que disponha de um estado-maior de agitadores profissionais, jamais terá dificuldades para estabelecer essa justa proporção.


Que fazer? V-1- Plano de um jornal público para toda a Rússia

 

     "O maior erro do Iskra nesse aspecto", escreve B. Kritchévski que nos censura pela tendência de "isolando a teoria da prática, transformar a primeira numa doutrina morta" (Rab. Dielo, nº 10, p. 30), "é o seu 'plano' de uma organização geral do Partido" (isto é, o artigo "Por Onde Começar?"). Martynov faz coro e declara que "a tendência do Iskra em diminuir a importância da marcha progressiva da obscura luta quotidiana, em relação à propaganda de ideias brilhantes e acabadas... foi coroada pelo plano de organização do partido, proposto no artigo "Por Onde Começar?" publicado no número 4 desse jornal" (Idem, p. 61). Enfim, ultimamente, àqueles a quem esse "plano" agastou (as aspas exprimem a ironia quanto a isso), juntou-se L. Nadejdine que, numa brochura que acabámos de receber - Às Vésperas da Revolução (editada pelo "grupo revolucionário socialista" Svoboda, que já conhecemos) - declara que "falar agora de uma organização cujos fios seriam atados a um jornal para toda a Rússia, é produzir em profusão ideias abstractas e trabalho de gabinete" (p. 126), é fazer "literatura falsificada" etc. A solidariedade do nosso terrorista com os partidários da "marcha progressiva da obscura luta quotidiana" não nos poderia espantar: indicámos as raízes desse parentesco nos capítulos sobre a política e a organização. Mas, desde já devemos observar que L. Nadejdine, e somente ele, tentou conscienciosamente penetrar no sentido do artigo que lhe desagradou, ao qual tentou responder em profundidade, enquanto o Rab. Dielo nada disse de profundo e apenas procurou confundir a questão através de uma série de procedimentos demagógicos indignos. E por mais desagradável que seja, é preciso primeiro perder tempo para limpar as estrebarias de Augias.  

a) Quem se escandalizou com o artigo "Por onde começar"

Vamos citar o rosário de expressões e exclamações que o Rabótcheie Dielo lançou sobre nós. "Não é um jornal que pode criar a organização do Partido, mas, sim, o contrário"... "Um jornal colocado acima do Partido, fora do seu controlo e independente do Partido graças à sua própria rede de agentes"... "Qual foi o milagre que fez com que o Iskra esquecesse as organizações sociais-democratas já existentes de facto no Partido ao qual ele próprio pertence?"... "Os que possuem firmes princípios e um plano apropriado são também os supremos reguladores da luta real do partido, ao qual ditam a execução do seu plano"... "O plano relega as nossas organizações tão reais e viáveis para o reino das trevas, e quer dar vida a uma rede fantástica de agentes"... "Se o plano do Iskra fosse executado, acabaria por apagar inteiramente os traços do Partido Operário Social-Democrata da Rússia, em vias de formação entre nós"... "O órgão de propaganda torna-se um legislador incontrolado, autocrata, de toda a luta revolucionária prática"... "O que deve pensar o nosso partido sobre sua submissão absoluta a uma redacção autónoma" etc. etc. Como o conteúdo e o tom destas citações mostram ao leitor, o Rabótcheie Dielo escandalizou-se. Entretanto, escandalizou-se não por si próprio, mas pelas organizações e comités do nosso Partido que o Iskra pretensamente pretende relegar para o reino das trevas e até fazer apagar os traços. Que horror, pensarão vocês! Apenas uma coisa é estranha. O artigo "Por Onde Começar?" apareceu em Maio de 1901; os artigos do Rabótcheie Dielo, em Setembro de 1901; ora, já estamos a meio de Janeiro de 1902. Durante estes períodos de cinco meses (tanto antes como depois de Setembro) nem nenhum comité nem nenhuma organização levantaram protesto formal contra essa coisa monstruosa, que quer relegar comités e organizações para o reino das trevas! Ora, durante esse tempo, o Iskra e a grande maioria das outras publicações locais e não locais publicaram dezenas e centenas de informações vindas de todos os pontos da Rússia. Como pôde acontecer que aqueles a quem se quer relegar para o reino das trevas não se tenham apercebido nem escandalizado com tal coisa, mas sim, que tenha sido uma terceira pessoa a melindrar-se? Isto ocorreu porque os comités e as outras organizações não brincam ao "democratismo", mas realizam trabalho útil. Os comités leram o artigo "Por Onde Começar?" e perceberam que constituía uma tentativa de "traçar o plano de uma organização de modo a poder começar a sua construção de todos os lados, e ao mesmo tempo" e como sabiam e compreendiam perfeitamente que nenhum "desses lados" pensava em "empreender a construção" antes de se convencer da sua necessidade e da realidade do plano arquitectónico, naturalmente nem mesmo pensaram em "escandalizar-se" com a extrema audácia dos homens que declararam no Iskra o seguinte: "dada a urgência e a importância dessa questão, decidimos, da nossa parte, submeter à consideração dos camaradas o esboço de um plano que desenvolveremos de forma mais detalhada numa brochura já em preparação". Será possível, quando se considera seriamente tal questão, não compreender que se os camaradas aceitassem o plano que lhes era oferecido, executá-lo-iam não por "submissão", mas porque estavam convencidos da sua necessidade para a nossa causa comum, e se não o aceitassem, o "esboço" (que palavra pretensiosa, não é?) acabaria por permanecer um simples esboço? Não é verdade que constitui demagogia o facto de se declarar guerra a um esboço de plano, não apenas "demolindo-o completamente" e aconselhando os camaradas a rejeitá-lo, mas também voltando os homens menos competentes em matéria de revolução contra os autores do esboço, pelo simples facto de estes "ousarem legislar", de se colocarem como "reguladores supremos", isto é ousarem pregar um esboço de plano? Será que o nosso partido pode desenvolver-se e seguir em frente, quando uma tentativa de elevar os militantes locais para concepções e objectivos de planos mais amplos etc., recebe objecções não só porque essas concepções parecem falsas, mas também porque se fica "escandalizado" pela "preocupação" de nos elevarmos? Assim, L. Nadejdine, por exemplo, também "demoliu completamente" o nosso plano, mas não se deixou levar por uma demagogia que não poderia ser explicada a não ser pela ingenuidade ou pelo carácter primitivo das concepções políticas; desde o início repudiou deliberadamente a acusação de se colocarem "inspectores do Partido" para esse fim. Portanto, pode-se e deve-se responder em profundidade à crítica do plano feita por Nadejdine, e responder ao Rabótcheie Dielo apenas com desprezo. Mas o desprezo pelo escritor que se rebaixa ao ponto de censurar a "autocracia" e a "submissão", não nos dispensa da obrigação de desfazer a confusão que essas pessoas criam no leitor. Aqui, podemos demonstrar claramente a todos, qual é a qualidade das frases correntes sobre a "ampla democracia". Acusam-nos de esquecer os comités, de querer ou tentar relegá-los para o reino das trevas etc. O que responder a essas acusações, quando não podemos contar ao leitor quase nada de real sobre as nossas relações práticas com os comités por razões ligadas à conspiração? As pessoas que lançam uma acusação áspera, que irrita a multidão, ganham vantagem pela sua desenvoltura e pelo desdém que demonstram pelos deveres do revolucionário, que esconde cuidadosamente dos olhos do mundo as relações e ligações que realiza, estabelece ou procura estabelecer. Compreende-se porque renunciamos de uma vez por todas a competir com essas pessoas no campo da "democracia". Quanto ao leitor não iniciado em todos os assuntos do Partido, o único meio de cumprir o nosso dever, é contar não o que existe ou o que se encontra em Werden, mas uma pequena parte do que já aconteceu, sobre o qual já se pode falar como coisa passada. O Bund faz alusão à nossa "usurpação"; a "União" sediada no estrangeiro acusa-nos de querer fazer desaparecer os traços do Partido. Olhem, senhores, terão plena satisfação quando expusermos ao público quatro factos extraídos do passado. O primeiro facto. Os membros de uma das "Uniões de luta", que tiveram participação directa na formação do nosso Partido e no envio de um delegado ao congresso que fundou o Partido, entenderam-se com um dos membros do grupo Iskra para criar uma biblioteca operária especial a fim de atender às necessidades de todo o movimento operário. Não se conseguiu criar uma biblioteca operária e as brochuras escritas para ela, As Tarefas dos Sociais-Democratas Russos e A Nova Lei Operária, chegaram por vias transversas e por intermédio de terceiros ao estrangeiro, onde foram impressas. O segundo facto. Os membros do Comité Central do Bund propuseram a um dos membros do grupo Iskra montar, como então se expressou o Bund, um "laboratório literário". E lembraram que se isso não fosse conseguido, o nosso movimento poderia sofrer um recuo sensível. A brochura intitulada A Causa Operária na Rússia foi a consequência das negociações. O terceiro facto. O Comité Central do Bund, por intermédio de uma pequena cidade de província, propôs a um dos membros do Iskra que assumisse a direcção da Rabótchaia Gazeta a ser reinstituída; a proposta naturalmente foi aceite, mas depois modificada para proposta de colaboração, numa nova combinação com intervenção na redacção. De novo aceite. Foram enviados artigos (que se conseguiu conservar): "O Nosso Programa" - com um protesto directo contra a "bernsteiniada" e a reviravolta ocorrida na literatura legal e na Rabótchaia Mysl; "A Nossa Tarefa Imediata" ("a organização de um órgão do partido que apareça regularmente e esteja estreitamente ligado a todos os grupos locais", as insuficiências do "trabalho artesanal" predominante); "Uma Questão Urgente" (análise da objecção segundo a qual é preciso, primeiro, desenvolver a acção dos grupos locais, antes de se proceder à acção de um órgão comum; insistia-se sobre a importância primordial da "organização revolucionária", - sobre a necessidade de trazer para a organização, a disciplina e a técnica do trabalho clandestina elevada à mais alta perfeição"). A proposta de fazer reaparecer a Rabótchaia Gazeta não se concretizou e os artigos não foram impressos. O quarto facto. O membro do Comité, que organizou o segundo congresso ordinário do nosso Partido, deu conhecimento a um membro do grupo Iskra do programa do congresso, e propôs a candidatura desse grupo para as funções de redacção da Rabótchaia Gazeta a ser reinstituída. Tal providência, por assim dizer preliminar, foi em seguida sancionada pelo Comité ao qual pertencia, bem como pelo Comité central do Bund; o grupo Iskra foi informado do lugar e da data do congresso, e (não fora assegurada, por determinadas razões, a possibilidade de enviar um delegado a esse congresso) também redigiu um relatório escrito especialmente para o congresso. O relatório exprimia a ideia de que a eleição do comité central, em si, não nos permitiria resolver o problema da união naquele período de plena dispersão que vivíamos, mas que, no caso de ocorrerem novas ondas de prisões, o que é mais do que provável que aconteça nas actuais e precárias condições do trabalho clandestino, ainda assim arriscaríamos a comprometer uma grande ideia: fundar um partido; era preciso, portanto, começar a convidar todos os comités e todas as outras organizações para apoiar o órgão comum reinstituído, que realmente ligaria todos os comités através de laços efectivos e prepararia realmente um grupo que assumiria a direcção de todo o conjunto do movimento; os comités e o Partido poderiam, então, transformar facilmente esse grupo criado pelos comités num comité central a partir do momento em que esse grupo crescesse e adquirisse forças. O congresso, entretanto, não pôde realizar-se por causa de uma série de detenções, e o relatório foi destruído por questões de segurança, após ter sido lido apenas por alguns camaradas, entre eles os delegados de um comité. Que julgue o próprio leitor sobre a natureza das acusações como a alusão à usurpação, da parte do Bund, ou do argumento do Rabótcheie Dielo, que pretende termos sido nós a propor relegar os comités para o reino das trevas e "substituir" a organização do Partido pela organização da difusão das ideias através de um jornal. Sim, foi justamente perante esses comités, após vários convites que deles partiram, que apresentámos relatórios sobre a necessidade de aceitar um determinado plano de trabalho comum. Foi justamente para a organização do Partido que elaborámos esse plano nos artigos destinados à Rabótchaia Gazeta e num relatório para o congresso do Partido, e isso após termos sido convidados por aqueles que ocupavam posição tão influente no Partido, que assumiam a iniciativa da sua reconstituição (prática). E foi após o fracasso definitivo da nova tentativa de organização do Partido, para que juntamente connosco fosse oficialmente renovado o órgão central do Partido, que julgámos ser nosso primeiro dever lançar um órgão não oficial a fim de que, na terceira tentativa, os nossos camaradas pudessem ter diante deles certos resultados advindos da experiência, e não apenas de conjecturas hipotéticas. No momento actual, certos resultados dessa experiência já se encontram diante dos nossos olhos, e todos os camaradas podem julgar se compreendemos bem o nosso dever e, também, a opinião daqueles que buscam induzir o erro naqueles que ignoram o passado recente, a despeito de termos mostrado a uns, sua inconsequência na questão "nacional", e a outros, a inadmissibilidade das vacilações por falta de princípios. 

b) Pode um jornal ser um organizador colectivo?

     O artigo "Por Onde Começar?" apresenta de essencial a colocação precisa dessa questão e sua resolução pela afirmativa. Segundo sabemos, a única pessoa que tentou analisar a questão em profundidade e provar a necessidade de resolvê-la negativamente foi L. Nadejdine, cujos argumentos reproduzimos na íntegra: "...A maneira como o Iskra põe em foco a necessidade de um jornal para toda a Rússia muito nos agrada, mas não podemos de forma alguma admitir que esse ponto de vista se identifique ao título do artigo, "Por Onde Começar?. Inegavelmente isto constitui algo de extrema importância, mas não é dessa forma, nem com toda uma série de panfletos populares, nem com uma montanha de proclamações que os fundamentos de uma organização de combate para um momento revolucionário podem ser lançados. É preciso abordar a questão da criação de fortes organizações políticas locais. Não as temos, temos trabalhado sobretudo entre os operários instruídos, uma vez que as massas foram conduzidas quase que exclusivamente para a luta económica. Sem fortes organizações políticas locais bem treinadas, de que serviria um jornal para toda a Rússia, mesmo que fosse perfeitamente organizado? Uma sarça-ardente que queima sem se consumir, e que não inflama a ninguém! Ao redor desse jornal e por esse jornal, o povo reunir-se-á e organizar-se-á para a acção, assim pensa o Iskra. Mas, esse objectivo será alcançado de modo muito mais rápido através da reunião e organização em torno de um trabalho mais concreto! Que pode e deve consistir na criação de jornais locais em grande escala, na preparação imediata das forças operárias para manifestações; as organizações locais efectuarão uma acção constante entre os sem-trabalho (difundir sem cessar, entre eles, folhas volantes e panfletos; convocar os sem-trabalho para reuniões, exortá-los à resistência ao governo etc.) É precisam empreender localmente um trabalho político vivo; e quando surgir a necessidade da união nesse terreno real, não será artificial e não permanecerá no papel. Não será com jornais que se poderá unificar o trabalho local em um plano comum para toda a Rússia" (Às Vésperas da Revolução, p. 54). Grifámos nesta passagem eloquente, os trechos que permitem melhor apreender a falsa ideia que o autor faz do nosso plano e, em geral, a falsidade do ponto de vista que ele opõe ao Iskra. Sem organizações políticas locais, fortes e bem treinadas, de nada serviria à Rússia o melhor jornal que se pudesse fazer. Isto é absolutamente correcto. Infelizmente, para educar pessoas para formar organizações políticas fortes não há outro meio senão um jornal para toda a Rússia. O autor não notou a declaração essencial do Iskra: a que precede a exposição do seu "plano"; é preciso "apelar para a construção de uma organização revolucionária capaz de reunir todas as forças e que seja, não apenas nominalmente, mas também, de facto, a dirigente do movimento, isto é, uma organização sempre pronta a apoiar cada protesto e cada explosão, aproveitando-os para aumentar e fortalecer um exército apto para se dedicar ao combate decisivo". Agora, prossegue o Iskra, após os acontecimentos de Fevereiro e de Março, todos, em princípio, estarão de acordo com isso; ora, não necessitamos de urna solução que se baseie em princípios, mas de uma solução prática para a questão. É preciso formular imediatamente um plano preciso de construção para que, prontamente e de todos os lados, todos possam empreender essa construção. Ora, querem arrastar-nos de novo, para trás, afastando-nos da solução prática, em direcção, a essa grande verdade, justa em princípio, incontestável, mas absolutamente insuficiente e incompreensível para a grande massa dos trabalhadores: "a formação de organizações políticas fortes". Não se trata mais disso, respeitável autor, mas da forma conveniente para se proceder precisamente à formação e de facto realizá-la. É falso que "tenhamos trabalhado sobretudo entre os operários instruídos, enquanto as massas foram conduzidas quase que exclusivamente para a luta económica". Sob esta forma, esta afirmação desvia-se para a tendência radicalmente falsa, que a Svoboda sempre apresentou, de opor os operários instruídos à "massa". Durante estes últimos anos, os próprios operários instruídos também se conduziram, entre nós, "de forma quase exclusiva para a luta económica". Este é o primeiro ponto. Por outro lado, as massas nunca aprenderão a conduzir a luta política, se não ajudarmos a formar dirigentes para essa luta, tanto entre os operários instruídos, como entre os intelectuais. Ora, tais dirigentes apenas podem ser educados se iniciados na apreciação quotidiana e metódica de todos os aspectos da nossa vida política, de todas as tentativas de protesto e de luta das diferentes classes e por diferentes motivos. Por isso, falar de "formação de organizações políticas" e ao mesmo tempo opor "à trabalheira da papelada" de um jornal político, o "trabalho político vivo no plano local" é simplesmente ridículo! O Iskra não procura ajustar o "plano" do seu jornal ao "plano" que consiste em realizar um "grau de preparação" que permita apoiar ao mesmo tempo o movimento dos sem-trabalho, as revoltas camponesas, o descontentamento dos membros dos zemstvos, "a cólera da população contra um bachibuzuque czarista enfurecido" etc. De facto, todos os que conhecem o movimento sabem muito bem que a grande maioria das organizações locais nem sequer pensa nisso; que muitos dos projectos de "trabalho político vivo", aqui indicados, ainda não foram executados por nenhuma organização; que, por exemplo, a tentativa de chamar a atenção para o crescimento do descontentamento e dos protestos entre os intelectuais dos zemstvos, descontenta também a Nadejdine ("Deus! Não é aos membros dos zemstvos que esse órgão está dirigido?" Às Vésperas da Revolução, p. 129), os "economistas" (carta no nº 12 do Iskra) e numerosos activistas. Nestas condições, pode-se "começar" somente por isto: incitando as pessoas a pensar, a totalizar e a generalizar até as menores manifestações de efervescência e de luta activa. Numa época onde as tarefas da social-democracia são depreciadas, não se pode começar o "trabalho político vivo" senão através de uma agitação política viva, o que é impossível sem um jornal para toda a Rússia, que apareça frequentemente e que seja difundido de forma regular. Os que vêem no "plano" do Iskra apenas "literatura", não o compreenderam na sua essência; tomaram como fim o que se propõe, no momento presente, como o meio mais indicado. Essas pessoas não se deram ao trabalho de reflectir sobre as duas comparações que ilustram esse plano de maneira relevante.


     A elaboração de um jornal político para toda a Rússia - escrevia-se no Iskra - deve ser o fio condutor: seguindo-o, poderemos desenvolver ininterruptamente a organização, aprofundá-la e alargá-la (isto é, a organização revolucionária sempre pronta a apoiar todo protesto e efervescência). Por favor, digam-me: quando, os pedreiros colocam em diferentes pontos as pedras de um enorme edifício, de linhas absolutamente originais, esticam um fio que os ajuda a encontrar o lugar justo para as pedras, que lhes indica o objectivo final de todo o trabalho, que lhes permite colocar não apenas cada pedra, mas até cada pedaço de pedra que, cimentado ao que o precedeu e ao que o sucede, formará a linha definitiva e total. Será isto um trabalho "de escrita"? Não é evidente que hoje atravessamos no nosso Partido um período em que, possuindo as pedras e os pedreiros, nos falta exactamente o fio visível a todos e ao qual cada um se possa ater? Deixemos gritar aqueles que sustentam que, esticando o fio, queremos é mandar: se assim fosse, meus senhores, ao invés de intitularmos o nosso jornal de Iskra nº 1, teríamos utilizado o nome de Rabótchaia Gazeta nº 3, como nos foi proposto por alguns camaradas e como teríamos pleno direito de fazer após os acontecimentos relatados anteriormente. Mas não o fizemos, porque queríamos ter as mãos livres para combater sem piedade todos os pseudo-sociais-democratas: a partir do momento em que o nosso fio fosse esticado correctamente, queríamos que fosse respeitado pela sua própria rectidão, e não por ter sido esticado por um órgão oficial. "A unificação da actividade local nos órgãos centrais é uma questão que se movimenta num círculo vicioso", diz sentenciosamente L. Nadejdine. "Para tal unificação, necessitamos de elementos homogéneos: ora, essa homogeneidade não pode ser criada senão por algo que a unifique; mas a unificação só pode ser o produto de organizações locais fortes que, no momento presente, não se distinguem exactamente pela homogeneidade". Verdade tão respeitável e tão incontestável como a que afirma a necessidade de educar pessoas para formar organizações políticas fortes. Verdade, porém, não menos estéril. Qualquer questão "se movimenta num círculo vicioso", pois, toda a vida política é uma cadeia sem-fim composta de um número infinito de elos. A arte do político consiste precisamente em encontrar o elo e a ele agarrar-se fortemente, o elo mais difícil de escapar das mãos, o mais importante naquele momento, e que garanta ao seu possuidor a melhor forma de manter toda a cadeia. Se tivéssemos uma equipa de pedreiros experientes, suficientemente solidários para poder colocar as pedras onde é preciso (falando de forma abstracta, não é totalmente impossível), mesmo sem um fio condutor, poderíamos, talvez, agarrar-nos a um outro elo. Infelizmente não temos ainda esses pedreiros experientes e solidários; e, com muita frequência, as pedras são colocadas sem alinhamento, ao acaso, a tal ponto deslocadas que basta ao inimigo um sopro para dispersá-las, não como se fossem pedras, mas sim, grãos de areia. Outra comparação: "O jornal não é apenas um propagandista colectivo e um agitador colectivo; é também um organizador colectivo. A esse respeito, pode-se compará-lo aos andaimes que se levantam em redor de um edifício em construção; constitui o esboço dos contornos do edifício, facilita as comunicações entre os diferentes construtores, permitindo-lhes que repartam a tarefa e atinjam o conjunto dos resultados obtidos pelo trabalho organizado. Pode-se realmente dizer que, da parte de um literato, de um homem especializado no trabalho de gabinete, haverá um exagero do seu papel? Os andaimes não são de modo algum necessários à construção em si; são feitos com material da pior qualidade; são utilizados durante um curto período de tempo e atirados ao fogo antes de a obra estar terminada. No que diz respeito à construção de organizações revolucionárias, a experiência confirma que, por vezes, é possível construí-las mesmo sem andaimes - como em 1870-1880. Mas, neste momento, não podemos sequer imaginar a possibilidade de construir sem andaimes o edifício de que necessitamos. Nadejdine não está de acordo com isto, e diz: "Em torno desse jornal, por esse jornal, o povo reunir-se-á e organizar-se-á para a acção; assim pensa o Iskra. Mas esse objectivo será alcançado de modo muito mais rápido através da reunião e organização em torno de um trabalho mais concreto!" Certo, certo: "de modo muito mais rápido em torno de um trabalho mais concreto"... O provérbio russo diz: "Não cospe no poço quem precisará da água para saciar a sede." Mas há quem não se importe de saciar a sede no poço onde cuspiu. Nessa busca do mais concreto, quantas infâmias não foram levados a dizer e a escrever os nossos notáveis "críticos" legais "do marxismo" e os admiradores ilegais da Rabótchaia Mysl. Assim não é de espantar que o nosso movimento esteja comprimido pela nossa estreiteza, a nossa falta de iniciativa e de ousadia, justificadas por argumentos tradicionais semelhantes àquele que afirma ser muito mais rápida a unidade em torno de um trabalho mais concreto! E Nadejdine, que pretende ser particularmente dotado de senso das "realidades", que condena tão severamente os homens "de gabinete", que (com pretensões de sagacidade) recrimina o Iskra pela fraqueza de ver por toda a parte o "economismo", que imagina estar muito acima dessa divisão em ortodoxos e críticos, Nadejdine não percebe que, com os seus argumentos, faz o jogo dessa estreiteza que o indigna e que também bebe nos poços onde se cuspiu! Sim, a indignação mais sincera contra a estreiteza, o desejo mais ardente de desiludir aqueles que a reverenciam não são o bastante, se aquele que se indigna, erra ao sabor dos ventos, sem velas nem leme, e se aferra instintivamente", tal como os revolucionários de 1870-1880, ao "terrorismo excitativo", ao "terrorismo agrário", ao "toque a rebate" etc. Vejamos, agora, em que consiste esse "algo de mais concreto" em torno do qual, pensa o autor, "será feita de modo muito mais rápido" a união e a organização: 1º) jornais locais; 2º) preparação de manifestações; 3º) acção entre os desempregados. Vê-se, à primeira vista, que todas essas coisas foram tomadas ao completo acaso, ao azar, unicamente para dizer alguma coisa, pois, qualquer que seja o modo com que sejam consideradas, seria um verdadeiro absurdo que aí se encontrasse algo especialmente susceptível de levar à "união e organização". Além disso, o próprio Nadejdine declara duas páginas adiante: "Já é tempo de constatarmos simplesmente este facto: na província o trabalho é ínfimo, os comités não fazem um décimo do que poderiam... os centros de unificação que possuímos, actualmente, são apenas ficção, burocratismo revolucionário, mania geral de se atacar mutuamente, e assim será enquanto não forem constituídas organizações locais fortes." Essas palavras, ainda que exageradas, encerram incontestavelmente uma grande e amarga verdade; mas, porque é que Nadejdine não vê que o trabalho local ínfimo é resultado da estreiteza de visão dos militantes, da pequena envergadura de sua acção, coisas inevitáveis devido à falta de preparação dos militantes confinados ao quadro das organizações locais? Teria esquecido, tal como o autor do artigo publicado na Svoboda sobre a organização, que nos seus primórdios a formação de uma grande imprensa local (a partir de 1898) foi acompanhada por uma intensificação especial do "economismo" e do "trabalho artesanal"? E mesmo que fosse possível organizar de forma conveniente "uma grande imprensa local" (cuja impossibilidade, salvo raríssimas excepções, já demonstrámos anteriormente), as organizações locais não poderiam "unir e organizar" todas as forças de revolucionários para uma ofensiva geral contra a autocracia, para a direcção da luta comum. Não se esqueçam que, aqui, se trata unicamente de um jornal como "factor de recrutamento", de organização, e que poderíamos devolver a Nadejdine, campeão do fraccionamento, a questão irónica que ele próprio nos coloca: "Teríamos recebido como herança 200.000 organizadores revolucionários?" Além disso, não seria possível opor a preparação de manifestações" ao plano do Iskra, pela simples razão de esse plano prever justamente manifestações de maior repercussão como um dos objectivos a atingir; porém, do que aqui se trata é da escolha do meio prático. Mais uma vez Nadejdine enveredou por um caminho falso; esqueceu-se que apenas um exército já "recrutado e organizado" pode "preparar" manifestações (que até agora, na grande maioria dos casos, se desenrolaram de maneira espontânea). Ora, o que exactamente não sabemos fazer, é recrutar e organizar. "Acção entre os desempregados". Sempre a mesma confusão, pois aí também se trata de uma operação militar de uma tropa mobilizada, e não de um plano de mobilização de tropas. Veremos até que ponto Nadejdine ainda subestima o prejuízo que nos causou o nosso fraccionamento, a ausência entre nós de "200.000 organizadores". Muitos (entre eles Nadejdine) recriminaram o Iskra por fornecer precárias informações sobre o desemprego e dar apenas notícias fortuitas sobre as ocorrências mais comuns da vida rural. A recriminação tem fundamento; nesse caso, porém, o Iskra é "culpado sem ter culpa". Esforçamo-nos para "esticar o nosso cordão" também no campo; mas aí quase não há pedreiros; é preciso que encorajemos todos aqueles que nos comunicam os factos, mesmo os mais corriqueiros, na esperança de que isso aumente o número de nossos colaboradores nesse campo, e que nos ensine, a todos, a escolher quais são os factos verdadeiramente relevantes. Mas, a documentação para os estudos é tão restrita que, se não for difundida para toda a Rússia, decididamente nada teremos para nos instruir. Naturalmente, um homem que possua algumas das capacidades de agitador de Nadejdine e o seu conhecimento da vida dos vagabundos poderia, através da agitação efectuada entre os desempregados, prestar serviços inestimáveis ao movimento; porém, desperdiçaria o seu talento se não se preocupasse em colocar todos os camaradas russos ao corrente do menor progresso da sua acção, a fim de dar exemplo e informações às pessoas que, na sua grande maioria, nem mesmo sabem ainda juntar-se a essa tarefa, que lhes é desconhecida. Hoje, sem excepção, todos falam da importância que se atribui à unificação, da necessidade de "recrutar e organizar"; mas a maior parte das vezes não se tem ideias definidas sobre a questão de saber por onde começar e como realizar essa unificação. Sem dúvida estarão de acordo que para "unificar", por exemplo, os círculos de bairro de uma cidade, é preciso que haja instituições comuns, isto é, não apenas o nome comum de "união", mas um verdadeiro trabalho comum, uma troca de documentação, experiência e forças, uma partilha de funções para cada actividade dentro da cidade, não somente por bairros, mas por especialidades. Qualquer um concordará que um aparelho clandestino sério não poderá realizar as suas "empreitadas" (se for permitido empregar esta expressão comercial), se estiver limitado aos "recursos" (materiais e humanos, bem entendido) de um único bairro, e que o talento de um especialista não poderá ser desenvolvido num campo de acção tão restrito. O mesmo ocorre em relação à união das diferentes cidades, pois a história do nosso movimento social-democrata já demonstrou e mostra que o campo de acção de uma localidade isolada é extremamente limitado: isto já foi provado anteriormente, de forma detalhada, pelo exemplo da agitação política e do trabalho de organização. É preciso - e indispensável - antes de tudo, alargar esse campo de acção, criar uma ligação efectiva entre as cidades na base de um trabalho regular comum, pois o fraccionamento reprime as faculdades daqueles que, "encerrados numa torre" (segundo a expressão do autor de uma carta ao Iskra), ignoram o que se passa no mundo, não sabem com quem se informar, como adquirir experiência, como satisfazer a sua sede de uma acção extensa. E insisto em sustentar que apenas se pode começar a criar essa ligação efectiva com um jornal comum, empresa única e regular para toda a Rússia, que resumirá as mais variadas actividades e incitará as pessoas a progredir constantemente por todos os numerosos caminhos que conduzem à revolução, da mesma forma que todos os caminhos levam a Roma. Se nos queremos unir não apenas em palavras, é preciso que cada círculo local reserve imediatamente, digamos, um quarto das suas forças para a participação activa na obra comum. E o jornal mostrará prontamente os contornos gerais, as proporções e o carácter dessa obra; as lacunas que se fazem sentir mais fortemente na acção conduzida à escala nacional, os lugares onde a agitação é deficiente e onde a ligação é precária, as engrenagens do imenso mecanismo comum que o círculo poderia reparar ou substituir por outras melhores. Um círculo, que ainda não trabalhou e procura fazê-lo, poderia começar não como um artesão isolado na sua pequena oficina, que não conhece nem a evolução anterior da "indústria", nem o estado geral dos meios de produção industrial, mas como o colaborador de uma grande empresa que reflecte o impulso revolucionário geral contra a autocracia. E quanto mais perfeito fosse o acabamento de cada engrenagem, mais numerosos seriam os trabalhadores empregados nos diferentes detalhes da obra comum, mais densa seria a nossa rede, e menores as inevitáveis detenções a perturbar os nossos escalões. A própria função de difusão do jornal começaria a criar uma ligação efectiva (se esse jornal for digno do nome, isto é, se aparecer regularmente e não uma vez por mês, como as grandes revistas, mas cerca de quatro vezes por mês). As relações entre cidades quanto às necessidades da causa revolucionária são, hoje, muito raras e, quando existem, constituem excepção; tornar-se-iam, então, uma regra e assegurariam, bem entendido, não apenas a difusão do jornal, mas também (o que é mais importante) a troca de experiências, documentação, forças e recursos. O trabalho de organização assumiria amplitude muito mais considerável, e o sucesso obtido numa localidade encorajaria constantemente o aperfeiçoamento do trabalho, incitaria ao aproveitamento da experiência já adquirida pelos camaradas que militassem noutro ponto do país. O trabalho local ganharia infinitamente em extensão e variedade; as revelações políticas e económicas recolhidas em toda a Rússia forneceriam o alimento intelectual aos operários de todas as profissões e de todos os graus de desenvolvimento; forneceriam material e oportunidade para debates e conferências sobre as mais variadas questões, suscitadas, também, pelas alusões da imprensa legal, pelas conversas em sociedade e pelos "tímidos" comunicados do governo. Cada explosão, cada manifestação seriam apreciadas e examinadas sob todos os seus aspectos, em todos os pontos da Rússia; provocaria o desejo de não se ficar atrás dos outros, de se fazer melhor que os outros - (nós, socialistas, não recusamos absolutamente qualquer forma de emulação e "competição"!) - de preparar conscientemente o que antes fora feito de forma espontânea, de aproveitar as circunstâncias favoráveis de tempo ou de lugar para modificar o plano de ataque etc. Além disso, essa reanimação do trabalho local não conduziria a essa tensão desesperada, in extremis, de todas as forças, a esse estado de alerta de todos os nossos homens, a que nos obriga ordinariamente, hoje, toda a manifestação ou número de jornal local: de um lado, a polícia teria muito mais dificuldade para descobrir as "raízes", não sabendo em que localidade procurá-las; de outro, o trabalho comum regular ensinaria os homens a adequar um determinado ataque ao estado das forças deste ou daquele destacamento do nosso exército comum (o que, hoje, quase ninguém pensa, pois, em cada dez ataques, nove produzem-se espontaneamente) e facilitaria o "transporte" não apenas da literatura de propaganda, mas também de forças revolucionárias, de um lugar ao outro. Actualmente, na sua maioria, essas forças são exauridas no estreito campo de acção do trabalho local. Mas, nessas outras circunstâncias, haveria a possibilidade e a oportunidade constantes de transferir de um extremo ao outro do país todo o agitador ou organizador por menos capaz que fosse. Após terem começado por pequenas viagens para tratar de assuntos do Partido, às custas do Partido, os militantes estariam habituados a viver inteiramente por conta do Partido; tornar-se-iam revolucionários profissionais e preparar-se-iam para o papel de verdadeiros chefes políticos. E se realmente chegássemos a obter que a totalidade ou a maior parte dos comités, grupos e círculos locais se associassem activamente para a obra comum, poderíamos em breve elaborar um semanário, regularmente divulgado em dezenas de milhares de exemplares por toda a Rússia. Esse jornal seria parte de um gigantesco fole de uma forja que atiçasse cada fagulha da luta de classes e da indignação popular, para daí fazer surgir um grande incêndio. Em torno dessa obra, em si ainda inofensiva e pequena, mas regular e comum no pleno sentido da palavra, um exército permanente de lutadores experimentados seria sistematicamente recrutado e instruído. Sobre os andaimes e cavaletes dessa organização comum em construção, logo veríamos subir, saídos das fileiras dos nossos revolucionários, os Jeliabov sociais-democratas e, saídos das fileiras dos nossos operários, os Bebel russos que, à frente desse exército mobilizado, levantariam todo o povo para fazer justiça à vergonha e à maldição que pesam sobre a Rússia. É com isto que precisamos sonhar! "É preciso sonhar!" Escrevo estas palavras e de repente tenho medo. Imagino-me sentado no "congresso da unificação", tendo à minha frente os redactores e colaboradores do Rabótcheie Dielo. E eis que se levanta o camarada Martynov e, ameaçador, dirige-me a palavra: "Mas, permita-me perguntar! Uma redacção autónoma ainda tem o direito de sonhar sem ter comunicado tal facto aos comités do Partido?" Depois, é o camarada Kritchévskí que se dirige a mim e (aprofundando filosoficamente o camarada Martynov, que há muito tempo já aprofundara o camarada Plekhanov) continua ainda mais ameaçador: "Irei mais longe. Pergunto-lhe: um marxista tem, em geral, o direito de sonhar, se ainda não esqueceu que, segundo Marx, à humanidade sempre se põem tarefas realizáveis, e que a táctica é um processo de crescimento das tarefas do Partido, que crescem junto com o Partido?" À simples lembrança destas questões ameaçadoras sinto um calafrio, e penso apenas numa coisa: onde me vou esconder. Talvez atrás de Pissarev. "Há desacordos e desacordos", escrevia Pissarev sobre o desacordo entre o sonho e a realidade. "O meu sonho pode ultrapassar o curso natural dos acontecimentos ou desviar-se para uma direcção onde o curso natural dos acontecimentos jamais poderá conduzir. No primeiro caso, o sonho não produz nenhum mal; pode até sustentar e reforçar a energia do trabalhador... Em tais sonhos, nada pode corromper ou paralisar a força de trabalho. Pelo contrário. Se o homem fosse completamente desprovido da faculdade de sonhar assim, se não pudesse de vez em quando adiantar-se ao presente e contemplar em imaginação o quadro lógico e inteiramente acabado da obra que apenas se esboça nas suas mãos, eu não poderia decididamente compreender o que levaria o homem a empreender e a realizar vastos e fatigantes trabalhos na arte, na ciência e na vida prática... O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o homem acredita seriamente no seu sonho, se observa atentamente a vida, compara as suas observações com os seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização do seu sonho. Quando existe contacto entre o sonho e a vida, tudo vai bem". Infelizmente há poucos sonhos dessa espécie no nosso movimento. E a culpa é sobretudo dos nossos representantes da crítica legal e do "seguidismo" ilegal, que se gabam de ponderação, do seu "senso" do "concreto". 


Que fazer? V-2- Plano de um jornal público para toda a Rússia

 

c) Qual o tipo de organização de que necessitamos?

     O leitor pode ver, pelo que foi dito anteriormente, que a nossa "táctica-plano" consiste em recusar o apelo imediato à ofensiva, em exigir a organização de um "assédio ordenado da fortaleza inimiga", ou dito de outra forma: em exigir a concentração de todos os esforços para recrutar, organizar e mobilizar um exército permanente. Quando zombamos do Rabótcheie Dielo, que de um salto abandonou o "economismo" para se atirar aos gritos sobre a necessidade da ofensiva (gritos que irromperam em Abril de 1901, no nº' 6 do Listok do "Rabótcheie Dielo"), este jornal naturalmente nos atacou, acusando-nos de "doutrinarismo", de incompreensão do dever revolucionário, de apelo à prudência etc. Naturalmente, tais acusações, na boca dessa gente, não nos surpreenderam absolutamente, pois, não tendo essas pessoas princípios estáveis, escondem-se atrás da profunda "táctica processo"; também não nos surpreenderam as acusações de Nadejdine, que manifesta apenas o mais soberbo desprezo pelos princípios firmes de programa e de táctica. Diz-se que a história não se repete. Nadjdine esforça-se de todas as maneiras para repeti-la e imita com ardor Tkatchev, denegrindo "a educação revolucionária", clamando sobre a necessidade de "fazer soar o toque de rebate", pregando o "ponto de vista particular da aurora da revolução" etc. Ao que parece, Nadejdine esquece a conhecida frase que diz: se o original de um acontecimento histórico é uma tragédia, a sua cópia é apenas uma farsa. A tentativa de tomada do poder, preparada pela propaganda de Tkatchev e realizada pelo terror, instrumento de "intimidação" e que realmente intimidava nessa época, era majestosa, enquanto o terrorismo "excitativo" desse Tkatchev em ponto pequeno é simplesmente ridículo, e ridículo sobretudo quando se combina com o seu projecto de organização dos trabalhadores médios. "Se o Iskra", escreve Nadejdine, "saísse da esfera da literatura falsificada, veria que tais coisas (por exemplo, a carta de um operário publicada no nº 7 do Iskra etc.) são sintomas que atestam que a "ofensiva"' está muito, muito próxima, e que falar agora (sic) de uma organização onde todos os fios estariam unidos a um jornal para toda a Rússia, é produzir ideias abstractas e trabalho de gabinete em profusão." Vejam um pouco essa confusão inimaginável! De um lado, prega-se o terrorismo excitativo e "a organização dos trabalhadores médios", declarando que isso "será feito de modo muito mais rápido pelo agrupamento em torno de algo "mais concreto", por exemplo, em torno de jornais locais; de outro lado, pretende-se que falar "agora" de uma organização para toda a Rússia, é produzir em profusão ideias abstractas, isto é, para ser mais franco e simples, que "agora" já é muito tarde! E também não será muito tarde, respeitável L.Nadejdini para uma "organização ampla de jornais locais"? Comparem a isso o ponto de vista e a táctica do Iskra: o terrorismo excitativo é uma infantilidade; falar da organização particular dos trabalhadores médios e de uma ampla organização de jornais locais é escancarar as portas ao "economismo". É preciso falar de uma única organização de revolucionários para toda a Rússia, e não será tarde para falar dela mesmo no próprio momento em que começar a verdadeira ofensiva, e não uma ofensiva formulada no papel: "sim", prossegue Nadejdine, "no que diz respeito à organização, a nossa situação está longe de ser brilhante; sim, o Iskra tem toda a razão em dizer que o grosso das nossas forças militares é constituído de voluntários e insurrectos... Está certo que considerem efectivamente o estado das nossas forças. Mas, por que se esquecem que a multidão não está de forma alguma connosco e que, por conseguinte, não nos perguntará quando será preciso abrir as hostilidades e lançar-se ao 'motim'... Quando a própria multidão intervier com a sua força destrutiva espontânea, será capaz de triturar, de esmagar o "exército regular", onde foi proposto que se procedesse a uma organização rigorosamente sistemática, que não houve tempo de se realizar". (O grifo é nosso). Lógica espantosa! Precisamente porque "a multidão não está connosco?", é pouco razoável e inconveniente proclamar "a ofensiva" imediata, pois a ofensiva significa o ataque de um exército regular, e não a explosão espontânea de uma multidão. Precisamente porque a multidão é capaz de triturar e esmagar o exército regular, é absolutamente necessário que o nosso trabalho de "organização rigorosamente sistemática", no exército regular, "se combine" com o impulso espontâneo, pois haverá maiores oportunidades para que o exército regular não seja esmagado pela multidão, mas marche à sua frente, se nos apressarmos em proceder a essa organização. Nadejdine, engana-se, porque imagina que esse exército organizado sistematicamente age de forma a afastar-se da multidão, enquanto, na realidade, se ocupa de uma agitação política intensificada e multiforme, isto é, de um trabalho que tende justamente a aproximar e fundir num todo a força destrutiva espontânea da multidão e a força destrutiva consciente da organização dos revolucionários. A verdade é que os senhores atribuem aos outros as vossas próprias faltas; e é precisamente o grupo Svoboda que, introduzindo o terrorismo no programa, exorta assim à criação de uma organização de terroristas, ora, tal organização impediria na verdade o nosso exército de se aproximar da multidão que, infelizmente, ainda não está connosco, e, infelizmente, não nos pergunta ou raramente nos pergunta, como e quando é preciso abrir as hostilidades. "Não veremos chegar a revolução", continua Nadejdine ameaçando o Iskra, "da mesma forma que não vimos chegar os acontecimentos actuais, acontecimentos que nos apanharam de surpresa". Esta frase, juntamente com as citadas anteriormente, demonstra-nos claramente o absurdo do "ponto de vista da aurora da revolução", elaborado pela Svoboda. Esse "ponto de vista" especial reduz-se, propriamente, a proclamar que "agora" é muito tarde para decidir e para a preparação. Mas, então, respeitável inimigo da "literatura falsificada", por que escrever 132 páginas impressas sobre "os problemas de teoria e de táctica"? Será que não percebem que, do "ponto de vista da aurora da revolução" seria melhor lançar 132.000 folhas volantes com esse breve apelo: "Abaixo o inimigo!"? Aqueles que como o Iskra colocam a agitação política entre todo o povo na base do seu programa, da sua táctica e do seu trabalho de organização, correm menos riscos de deixar a revolução acontecer sem percebê-la. As pessoas que, em toda a Rússia, se ocupam em entrançar os fios de uma organização, fios a serem ligados a um jornal para toda a Rússia, não deixaram de perceber os acontecimentos da Primavera; pelo contrário, ofereceram-nos a possibilidade de predizê-los. Não deixaram passar desapercebidas as manifestações descritas nos números 13 e 14 do Iskra: pelo contrário, compreendendo o seu dever de auxiliar o impulso espontâneo da multidão, participaram nessas manifestações e, ao mesmo tempo, contribuíram através do seu jornal para que todos os camaradas russos percebessem o seu carácter e utilizassem a sua experiência. Se continuarem vivos, verão acontecer a revolução que exigirá de todos nós, antes e acima de tudo, a experiência em matéria de agitação, e que saibamos sustentar (à maneira social-democrata) todos os protestos, dirigir o movimento espontâneo e preservá-lo dos erros dos seus amigos e ciladas dos seus inimigos! Chegamos, assim, à última consideração que nos força a insistir, de forma particular, no plano de organização em torno de um jornal para toda a Rússia, através da colaboração de todos para esse jornal comum. Apenas essa organização poderá assegurar, ao empreendimento de combate social-democrata, a flexibilidade indispensável, isto é, a faculdade "de evitar a batalha em terreno descoberto com um inimigo numericamente superior, que concentrou as forças num único ponto e a faculdade de aproveitar a incapacidade do inimigo, quanto à estratégia militar, para atacá-lo onde e quando menos o espera". Seria um gravíssimo erro estruturar a organização do Partido contando apenas com as manifestações e combates de rua, ou com "a marcha progressiva da obscura luta quotidiana". Devemos realizar sempre o nosso trabalho quotidiano e devemos estar sempre prontos para tudo, porque com muita frequência é quase impossível prever a alternância dos períodos de explosão e dos períodos de calma momentânea; e quando é possível prevê-los, não se pode tirar partido disso para reorientar a organização pois num país autocrático a situação muda com assombrosa rapidez: às vezes basta uma rusga nocturna dos janízaros czaristas. E não seria possível imaginar a própria revolução sob a forma de um acto único (como parece fazer Nadejdine): a revolução será uma sucessão rápida de explosões mais ou menos violentas, alternadas com algumas fases de calma momentânea mais ou menos profunda. Por isso, a actividade essencial do nosso Partido, o palco da sua actividade, deve consistir num trabalho que seja possível e necessário tanto nos períodos de mais violenta explosão como nos de calma absoluta, isto é, deve consistir num trabalho de agitação política unificada para toda a Rússia, que ilumine todos os aspectos da vida e se dirija às massas em geral. Ora, esse trabalho é inconcebível na Rússia actual sem um jornal que interesse a todo o país e apareça com bastante frequência. A organização a ser constituída por si mesma em torno desse jornal, a organização dos seus colaboradores (no sentido amplo de palavra, isto é, todos aqueles que trabalham para ele) estará pronta para tudo, para salvar a honra, o prestígio e a continuidade no trabalho do Partido nos momentos de grande "depressão" dos revolucionários, e para preparar, determinar o início e realizar a insurreição armada do povo. Suponhamos que ocorram prisões, o que é muito comum entre nós, numa ou várias localidades. Como todas as organizações locais não trabalham numa única obra comum e regular, essas detenções são seguidas, frequentemente, pela suspensão da actividade por vários meses. Mas, se todas trabalhassem para uma obra comum, mesmo que as detenções fossem muitas, bastaria algumas semanas e duas ou três pessoas enérgicas para restabelecer o contacto dos novos círculos de jovens com o organismo central, círculos esses que, mesmo agora, surgem de maneira muito rápida, e que surgiriam e estabeleceriam ligações com esse centro de modo ainda muito mais rápido se essa obra comum, que sofre as consequências das detenções, fosse bem conhecida de todos. Suponhamos, por outro lado, que houvesse uma insurreição popular. Sem dúvida que hoje todos concordam que devemos pensar e preparar-nos para isso. Mas como preparar-nos? Terá um comité central que designar agentes em todas as localidades para preparar a insurreição? Mesmo que tivéssemos um comité central que tomasse essa medida, nada poderia obter nas condições actuais da Rússia. Ao contrário, uma rede de agentes que se formasse por si própria trabalhando para a criação e a difusão de um jornal comum, não "esperaria de braços cruzados" a palavra de ordem de insurreição; realizaria exactamente uma obra regular, que lhe permitiria maiores hipóteses de sucesso em caso de insurreição. Obra essa que reforçaria os laços com as massas operárias, em geral, e com todas as camadas da população descontentes com a autocracia, o que é tão importante para a insurreição. É fazendo esse trabalho que aprenderíamos a avaliar,  com exactidão,  a situação política geral e, por conseguinte, a escolher o momento favorável à insurreição. É nesta espécie de acção que todas as organizações locais aprenderiam a reagir simultaneamente aos problemas, incidentes ou acontecimentos políticos que apaixonam toda a Rússia, a responder a esses "acontecimentos" da forma mais enérgica, uniforme e racional possível. Pois, no fundo, a insurreição constitui a "resposta" mais enérgica, uniforme e racional de todo o povo ao governo. Tal acção ensinaria, de forma precisa, a todas as organizações revolucionárias, em todos os pontos da Rússia, a manter entre si relações mais regulares e, ao mesmo tempo, mais clandestinas, relações que dariam origem à unidade efectiva do Partido, e sem as quais é impossível discutir colectivamente o plano de insurreição e tomar, às vésperas dessa insurreição, as medidas preparatórias necessárias, que devem ser mantidas no mais rigoroso sigilo. Numa palavra, o "plano de um jornal político para toda a Rússia" não é fruto de um trabalho de gabinete, realizado por pessoas corrompidas pelo doutrinarismo e pela "literatura falsificada" (como pareceu a pessoas que não reflectiram o bastante sobre ele); pelo contrário, é um plano principalmente prático  para que nos possamos preparar para a insurreição, imediatamente e de todos os lados, sem que o trabalho normal e quotidiano seja esquecido por um instante. 

 

Que fazer? - Conclusão

 

     A história da social-democracia russa divide-se nitidamente em três períodos. O primeiro abrange uma dezena de anos, aproximadamente de 1884 a 1894. Foi o período do nascimento e consolidação da teoria e do programa da social-democracia. Os partidários da nova orientação na Rússia contavam-se pelos dedos. A social-democracia existia sem o movimento operário e atravessava, como partido político, um período de gestação. O segundo período estende-se por três ou quatro anos, de 1894 a 1898. A social-democracia vem ao mundo como movimento social, como ascensão das massas populares, como partido político. É o período da infância e da adolescência. Com a rapidez de uma epidemia, o entusiasmo geral pela luta contra o populismo propaga-se entre os intelectuais, que vão aos operários, bem corno se difunde o entusiasmo geral dos operários pelas greves. O movimento faz enormes progressos. A maior parte dos dirigentes é constituída por jovens, que ainda não atingiram e ainda estão longe "dos trinta e cinco anos", que o Sr. N. Mikhailóvski considerava como uma espécie de limite natural. Por causa da sua juventude, revelam-se pouco preparados para o trabalho prático e saem de cena com muita rapidez. Na maioria das vezes, porém, o seu trabalho apresentava grande amplitude. Muitos de entre eles tinham começado a pensar como revolucionários, como Narodovoltsy. Quase todos,  na sua primeira juventude, haviam cultivado o heroísmo do terror. Para subtraí-los à sedução dessa tradição heróica, foi preciso lutar, romper com pessoas que queriam a qualquer custo permanecer fiéis à "Narodnaia Volia", e a quem os jovens sociais-democratas tinham em alta estima. A luta impunha que se instruíssem, que lessem obras ilegais de todas as tendências, que se ocupassem intensamente dos problemas do populismo legal. Formados nessa luta, os sociais-democratas iam ao movimento operário, sem esquecer "um instante" a teoria marxista, que os iluminava como uma luz brilhante,  nem o objectivo de derrubar a autocracia. A formação de um Partido, na primavera de 1898, foi o facto mais marcante e ao mesmo tempo o último acto dos sociais-democratas desse período. O terceiro período anuncia-se, como vimos, em 1897 e substitui em definitivo o segundo período em 1898 (1898-?). É um período de dispersão, de desagregação, de vacilação. Tal como entre os adolescentes ocorre a mudança de voz, também a voz da social-democracia russa desse período começou a mudar, a soar a falso - de um lado, nas obras dos senhores Struve e Prokopovitch, Bulgakov e Berdiaiev; de outro,  nas de V.I. e R. M., entre B. Kritchévski e Martynov. Mas os únicos a errar foram os dirigentes, cada um da sua maneira, e a retroceder: o movimento continuava a estender-se, a avançar a passos de gigante. A luta proletária ganhava novas camadas de operárias e propagava-se através da Rússia, contribuindo ao mesmo tempo, indirectamente, para reanimar o espírito democrático entre os estudantes e as outras categorias da população. Mas se a consciência dos dirigentes cedeu diante da grandeza e força do impulso espontâneo, entre os militantes sociais-democratas já predominava uma outra fase, porque alimentados quase que unicamente pela literatura marxista "legal", esta se revelava cada vez mais insuficiente,  uma vez que a espontaneidade das massas exigia desses militantes um cada vez maior grau de consciência. Os dirigentes não apenas ficaram para trás no plano teórico ("liberdade de critica"), como também no plano prático ("métodos artesanais de trabalho"), e ainda procuraram justificar o seu atraso com toda espécie de argumentos grandiloquentes. A social-democracia foi rebaixada ao nível do sindicalismo, tanto pelos brenstanistas da literatura legal como pelos seguidores da literatura ilegal. O programa do Credo começou a realizar-se, principalmente quando o "trabalho artesanal" dos sociais-democratas, reanimou as tendências revolucionárias não sociais-democratas. E se o leitor me recrimina por ter me ocupado demasiadamente de um jornal como o Rabótcheie Dielo, responderei: O Rabótcheie Dielo assumiu importância "histórica", porque traduziu da forma mais relevante o "espírito" desse terceiro período.

     Não era o consequente R. M., mas Kritchévski e Martynov que giravam como cata-ventos e que podiam exprimir da melhor forma a dispersão e as oscilações, o empenho em fazer concessões à "crítica", ao "economismo" e ao terrorismo. Não é o majestoso desdém pela prática, de um admirador qualquer do "absoluto" que caracteriza esse período, mas exactamente a conjugação de um praticismo mesquinho e da mais completa despreocupação em relação à teoria. Os heróis desse período não se preocuparam tanto em negar directamente as "grandes frases" como em banalizá-las: o socialismo científico deixou de ser um corpo de doutrina revolucionária e tornou-se uma mistura confusa, à qual foi acrescentado "livremente" o conteúdo de qualquer manual alemão novo; a palavra de ordem, "luta de classes", não conduzia a uma acção cada vez mais extensa e enérgica - servia de desvanecedor, pois a "luta económica está indissoluvelmente ligada à luta política", a ideia de partido não estimulava a criação de uma organização revolucionária de combate, justificando uma espécie de "burocratismo revolucionário" e uma tendência pueril em brincar com as formas "democráticas". Ignoramos quando terminará o terceiro período e terá início o quarto (que, em todo caso, já se anuncia por numerosos sintomas). Do domínio da história, passamos aqui para o domínio do tempo presente e, em parte, para o do futuro. Mas temos a firme convicção que o quarto período conduzirá à consolidação do marxismo militante; que a social-democracia russa sairá da crise mais forte e viril; que a retaguarda dos oportunistas será "rendida"pela verdadeira vanguarda da mais revolucionária das classes. Exortando para que se faça essa "rendição" e resumindo tudo o que foi exposto anteriormente, podemos dar à pergunta "Que fazer?" uma breve resposta: Liquidar o terceiro período.

                                                                                             Lenine  

  

 

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