Lenine - Que Fazer?

Mas, existirá uma só classe da população onde não haja homens, círculos e grupos descontentes com o jugo e a arbitrariedade e, portanto, acessíveis à propaganda do social-democrata, intérprete das mais prementes aspirações democráticas? Para quem quiser ter uma ideia concreta dessa agitação política do social-democrata em todas as classes e categorias da população, indicaremos as revelações políticas, no sentido amplo da palavra, como principal meio dessa agitação (porém não o único, bem entendido). "Devemos" - escrevia no meu artigo "Por Onde Começar?" (Iskra, nº4, Maio de 1901) de que falaremos mais adiante em detalhe - "despertar em todos os elementos minimamente conscientes da população, a paixão pelas revelações políticas. Não nos inquietemos se, na política, as vozes acusadoras são ainda tão débeis, tão raras, tão tímidas. A causa não consiste, de modo algum, numa resignação geral à arbitrariedade policial. A causa é que os homens capazes de acusar e dispostos a fazê-lo não têm uma tribuna do alto da qual possam falar, não têm um auditório que escute avidamente, encorajando os oradores, e não vêem em parte alguma do povo uma força para a qual valha a pena dirigir as suas queixas contra o governo "todo-poderoso" ... Temos hoje os meios e o dever de oferecer a todo o povo uma tribuna para denunciar o governo czarista: essa tribuna deve ser um jornal social-democrata". Esse auditório ideal para as revelações políticas é precisamente a classe operária, que tem necessidade, antes e sobretudo, de conhecimentos políticos amplos e vivos, e que é a mais capaz de aproveitar esses conhecimentos para empreender uma luta activa, mesmo que não prometa qualquer "resultado tangível". Ora, a tribuna para essas revelações diante de todo o povo, só pode ser um jornal para toda a Rússia. "Sem um órgão político, não seria possível conceber na Europa actual um movimento merecendo o nome de movimento político". E a Rússia, inegavelmente, também está incluída na Europa actual, em relação a esse facto. Desde há muito que a imprensa se tornou uma força entre nós; se não o governo não dispenderia dezenas de milhares de rublos para comprar e subvencionar todas as espécies de Katkovs e de Mechtcherskis. E não é novo o facto de, na Rússia autocrática, a imprensa ilegal romper as barreiras da censura e obrigar os órgãos legais e conservadores a falar dela abertamente. Assim aconteceu entre 1870 e 1880, e mesmo entre 1850 e 1880. Ora, hoje são mais amplas e profundas as camadas populares que poderiam ler, voluntariamente, a imprensa ilegal para aí aprender "a viver e a morrer", para empregar a expressão de um operário, autor de uma carta endereçada ao Iskra (nº7). As revelações políticas constituem uma declaração de guerra ao governo, da mesma forma que as revelações económicas constituem uma declaração de guerra aos fabricantes. E essa declaração de guerra tem um significado moral tanto maior quanto mais vasta e vigorosa for a campanha de denúncias, quanto mais decidida e numerosa for a classe social que declara a guerra para começar a guerra. Por isso, as revelações políticas constituem, por si próprias, um meio poderoso para desagregar o regime contrário, separar o inimigo dos seus aliados fortuitos ou temporários, semear a hostilidade e a desconfiança entre os participantes permanentes do poder autocrático. Apenas o partido que organize verdadeiramente as revelações visando o povo inteiro poderá tornar-se, nos nosso dias, a vanguarda das forças revolucionárias. Ora, tais palavras - "visando o povo inteiro" - têm um conteúdo muito amplo. A imensa maioria dos reveladores, que não pertencem à classe operária (pois para ser vanguarda é preciso justamente integrar outras classes), são políticos lúcidos e homens de sangue-frio e senso prático. Sabem perfeitamente como é perigoso "queixar-se" mesmo de um pequeno funcionário, quanto mais do "omnipotente" governo russo. E não nos dirigirão as suas queixas, a não ser quando virem que realmente estas podem ter efeito, e que nós somos uma força política. Para que nos tornemos aos olhos do público uma força política não basta colar o rótulo "vanguarda" sobre uma teoria e uma prática de "retaguarda": é preciso trabalhar muito e com firmeza para elevar a nossa consciência, o nosso espírito de iniciativa e a nossa energia. Porém, o partidário cioso da "estreita ligação orgânica com a luta proletária" perguntar-nos-á, e já nos pergunta: se nos devemos encarregar de organizar contra o governo as revelações que verdadeiramente visam o povo inteiro, em que, pois, se manifestará o carácter de classe do nosso movimento? - Ora, justamente no facto de que a organização dessas revelações constituirá uma obra nossa, de sociais-democratas; de que todos os problemas levantados pelo trabalho de agitação serão esclarecidos dentro de um espírito social-democrata constante e sem a menor tolerância para com as deformações, voluntárias ou não, do marxismo, de que essa ampla agitação política será conduzida por um partido unindo num todo coerente a ofensiva contra o governo, em nome de todo o povo, da educação revolucionária do proletariado, salvaguardando, ao mesmo tempo, a sua independência política, a direcção da luta económica da classe operária, a utilização dos seus conflitos espontâneos com os seus exploradores, conflitos que levantam e conduzem sem cessar, para o nosso campo, novas camadas do Proletariado! Mas, um dos traços mais característicos do "economismo" é exactamente não compreender essa ligação, melhor ainda, essa coincidência da necessidade mais urgente do proletariado (educação política sob todas as suas formas, por meio das denúncias e da agitação política) com as necessidades do movimento democrático como um todo. Essa incompreensão aparece não apenas nas frases "à Martynov", mas também nas diferentes passagens de significação absolutamente idêntica, onde os "economistas" se referem a um pretenso ponto de vista de classe. Eis, por exemplo, como se exprimem os autores da carta "economista" publicada no nº12 do Iskra: "Este mesmo defeito essencial do Iskra (sobrestimarão da ideologia) é a causa da sua inconsequência na questão da social-democracia com as diversas classes e tendências sociais. Tendo decidido, por meio de cálculos teóricos"... (e não em decorrência do "crescimento das tarefas do Partido que aumentam ao mesmo tempo que ele" ... ) "o problema da deflagração imediata da luta contra o absolutismo é sentindo, provavelmente, toda a dificuldade dessa tarefa para os operários, no estado actual das coisas"... (não somente sentindo, mas sabendo muito bem que esta tarefa parece menos difícil aos operários do que aos intelectuais "economistas" - que os tratam como crianças pequenas - pois os operários estão prontos a lutarem de facto pelas reivindicações que não prometem, para falar a língua do inolvidável Martynov, nenhum "resultado tangível")... "mas não tendo a paciência de esperar a acumulação de forças necessárias para essa luta, o Iskra começa a procurar os aliados nas fileiras dos liberais e dos intelectuais"... Sim, sim, de facto perdemos toda a "paciência" para "esperar" os dias felizes que nos prometem de há muito os "conciliadores"' de toda espécie, onde os nossos "economistas" deixarão de lançar a culpa de seu próprio atraso sobre os operários, de justificar a sua própria falta de energia pela pretensa insuficiência de forças entre os operários. Em que deve consistir a "acumulação de forças pelos operários em vista dessa luta"? perguntaremos aos nossos "economistas". Não é evidente que consiste na educação política dos operários, na denúncia, diante deles, de todos os aspectos da nossa odiosa autocracia? E não está claro que, justamente para esse trabalho, precisamos de "aliados nas fileiras dos liberais e dos intelectuais", "aliados" prontos a trazer-nos as suas denúncias sobre a campanha política conduzida contra os elementos activos dos zemstvos, dos professores, dos estatísticos, dos estudantes etc.? É assim tão difícil compreender esta "mecânica erudita"? P. Axelrod não lhes repete, desde 1897, que "a conquista pelos sociais-democratas russos de partidários e aliados directos ou indirectos entre as classes não proletárias é determinada, antes de tudo e principalmente, pelo carácter que a propaganda assume entre o próprio proletariado?" Ora, Martynov e os outros "economistas" ainda acham, agora, que primeiro os operários devem acumular forças "através da luta económica contra os patrões e o governo" (para a política sindical) e, em seguida, apenas "passar" - sem dúvida da "educação" sindical da "actividade", à actividade social-democrata! " ... Nas suas pesquisas, continuam os "economistas", o Iskra abandona com demasiada frequência o ponto de vista de classe, encobre os antagonismos de classe e coloca em primeiro plano o descontentamento comum contra o governo, apesar das causas e do grau deste descontentamento serem muito diferentes entre os "aliados". Essas são, por exemplo, as relações do Iskra com os zemstvos"... O Iskra pretensamente "promete aos nobres descontentes com as esmolas governamentais, o apoio da classe operária, sem dizer uma palavra sobre o antagonismo de classe que separa essas duas categorias da população". Que o leitor se reporte aos artigos "A Autocracia e os Zemtvos" (nºs 2 e 4 do Iskra) aos quais, parece, os autores dessa carta fazem alusão, e verá que esses artigos são dedicados à atitude do governo em relação "à agitação inofensiva do zemstvo burocrático censitário", em relação "à iniciativa das próprias classes proprietárias". Nesse artigo diz-se que o operário não poderia permanecer indiferente à atitude do governo contra o zemstvo, e os elementos activos dos zemstvos são convidados a deixar de lado os seus discursos inofensivos e a pronunciar palavras firmes e categóricas, quando a social-democracia revolucionária se levantar com toda sua força diante do governo. Com o que não estão de acordo os autores da carta? Não seria possível dizê-lo. Pensam que o operário "não compreenderá" as palavras "classes possuidoras" e "zemstvo burocrático censitário"? que o facto de pressionar os elementos activos dos zemstvos a abandonar os discursos inofensivos pelas palavras firmes seja uma "sobrestimarão da ideologia"? Imaginam que os operários podem "acumular forças" para a luta contra o absolutismo, se não conhecem a atitude do absolutismo também em relação ao zemstvo? Mais uma vez, não seria possível dizê-lo. Uma coisa está clara: os autores têm apenas uma ideia muito vaga das tarefas políticas da social-democracia. Isso sobressai ainda com maior clareza na frase seguinte: "Essa é igualmente (isto é, "encobrindo também os antagonismos de classe") a atitude do Iskra em relação ao movimento dos estudantes". Em lugar de exortar os operários a afirmar através de uma manifestação pública que o verdadeiro foco de violências, de arbitrariedade e de delírio não é a juventude universitária, mas o governo russo (Iskra, nº2), deveríamos, ao que parece, publicar as análises inspiradas da Rabótchaia Mysl! E são essas as opiniões expressas pelos sociais-democratas no Outono de 1901, após os acontecimentos de Fevereiro e de Março, nas vésperas de um novo impulso do movimento estudantil, impulso que mostra bem que, também nesse aspecto, o protesto "espontâneo" contra a autocracia ultrapassa a direcção consciente do movimento pela social-democracia. O impulso instintivo, que leva os operários a interceder em favor dos estudantes espancados pela polícia e pelos cossacos, ultrapassa a actividade consciente da organização social-democrata! "Entretanto, noutros artigos", continuam os autores da carta, "o Iskra condena severamente todo o compromisso e toma a defesa, por exemplo, do comportamento intolerável dos guesdistas". Aconselhamos àqueles que sustentam comummente, com tanta presunção e ligeireza, que as divergências de ponto de vista entre os sociais-democratas de hoje, não são, parece, essenciais e não justificam uma cisão, que meditem seriamente nessas palavras. As pessoas que afirmam que o esforço que empreendemos ainda é ridiculamente insuficiente para mostrar a hostilidade da autocracia em relação às mais diferentes classes, para revelar aos operários a oposição das mais diferentes categorias da população à autocracia, podem trabalhar eficazmente, numa mesma organização, com pessoas que vêem nessa tarefa "um compromisso", evidentemente um compromisso com a teoria da "luta económica contra os patrões e o governo"? No quadragésimo aniversário da emancipação dos camponeses, falámos da necessidade de introduzir a luta de classes nos campos (nº3) e, a propósito do relatório secreto de Witte, da incompatibilidade que existe entre a autonomia administrativa e a autocracia (nº4); combatemos, a propósito da nova lei, o feudalismo dos proprietários de terras e do governo que os serve (nº8), e saudámos o congresso ilegal dos zemstvos, encorajando os elementos dos zemstvos a abandonar os procedimentos humilhantes para passar à luta (nº8); encorajámos os estudantes que começavam a compreender a necessidade da luta política e a empreenderam (nº3) e, ao mesmo tempo, fustigámos a "inteligência extremada" dos partidários do movimento "exclusivamente estudantil", que exortavam os estudantes a não participar das manifestações de rua (nº3, a propósito da mensagem do Comité executivo dos estudantes de Moscovo, de 25 de Fevereiro); denunciámos os "sonhos insensatos", a "mentira e a hipocrisia" dos velhacos liberais do jornal Rossia (nº5), e ao mesmo tempo assinalámos a fúria do governo de carcereiros que "ajustavam contas com pacíficos literatos, velhos professores e cientistas, conhecidos liberais dos zemstvos" (nº5: "Um Ataque da Polícia Contra a Literatura"); revelámos o verdadeiro sentido do programa "de assistência do Estado para a melhoria das condições de vida dos operários", e saudámos o "consentimento precioso": "mais vale prevenir com reformas do alto as reivindicações de baixo, do que esperar por estas" (nº6); - encorajámos os estatísticos no seu protesto (nº7) e condenámos os estatísticos furadores da greve (nº7). Ver nesta táctica um obscurecimento da consciência de classe do proletariado e um compromisso com o liberalismo é mostrar que não se compreende absolutamente nada do verdadeiro programa do Credo, e é aplicar, de facto, precisamente esse programa, por mais que seja repudiado! Realmente, por isso mesmo, arrasta-se a democracia à "luta económica entre os patrões e o governo", e inclina-se a bandeira diante do liberalismo, renunciando-se a intervir activamente e a definir a própria atitude, a atitude social-democrata, em cada questão "liberal".

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