Lenine - Que Fazer?

Que fazer? III-1- Política sindical e política social-democrata

     Mais uma vez, começaremos elogiando o Rabótcheie Dielo. "Literatura de Denúncia e Luta Proletária", assim denominou Martynov o seu artigo do Rabótcheie Dielo (n.º. 10), sobre as divergências com o Iskra "Não podemos limitar-nos a denunciar o regime que entrava o seu desenvolvimento (do partido operário). Devemos, igualmente, fazer de nós o eco dos interesses correntes e urgentes do proletariado" (p. 63). É assim que Martynov formula a essência dessas divergências. "...O Iskra.... é efectivamente o órgão da oposição revolucionária que denuncia o nosso regime e principalmente o nosso regime político... Trabalhamos e trabalharemos, no que nos diz respeito, pela causa operária, em estreita ligação orgânica com a luta proletária". (Ibid.). Não é possível deixar de agradecer a Martynov por essa formulação. Ela adquire um grande interesse geral, pelo facto de abranger, no fundo, não somente as nossas divergências de pontos de vista com o Rabótcheie Dielo, mas todas as divergências que existem, de maneira geral, entre nós e os "economistas" sobre a questão da luta política. Já mostramos que os "economistas" não negam absolutamente a "política", mas que se desviam constantemente da concepção social-democrata em direcção à concepção sindical da política. É exactamente assim que o faz Martynov; e por isso queremos tomá-lo como espécime dos erros "economistas" na questão de que nos ocupamos. Tentaremos demonstrar que nem os autores do "Suplemento especial da Rabótchaia Mysl", nem os da declaração do "Grupo da Auto libertação", nem tampouco os da carta económica do n.º. 12 do Iskra têm o direito de nos reprovar tal escolha.  

a) A agitação política e o seu estreitamento pelos "Economistas"

     Ninguém ignora que a extensão e a consolidação da luta económica dos operários russos marcharam de par com a eclosão da "literatura" de denúncia económica (referente às fábricas e à vida profissional). As "folhas volantes" denunciavam principalmente o regime das fábricas, e  isso deu origem imediatamente a uma verdadeira paixão pelas denúncias entre os operários. Quando estes últimos viram que os círculos sociais-democratas queriam e podiam fornecer-lhes "folhas volantes" de um novo género, dizendo toda a verdade sobre a sua vida miserável, o seu trabalho fatigante e a sua servidão, fizeram, de certo modo, chover cartas das fábricas e das oficinas. Esta "literatura de denúncia" fez sensação não somente na fábrica, cuja "folha volante" fustigava o regime, mas em todas as empresas onde havia rumores dos factos denunciados. Ora, como as necessidades e a miséria dos operários de diferentes empresas e profissões têm muitos pontos comuns, a "verdade sobre a vida operária" maravilhou todo o mundo. Uma verdadeira paixão de "aparecer em letra de forma" tomou conta dos operários mais atrasados, nobre paixão por essa forma embrionária de guerra contra toda a ordem de coisas existente, baseada na pilhagem e na opressão. E as "folhas volantes" constituíram, efectivamente, na imensa maioria dos casos, uma declaração de guerra, porque o que divulgavam entusiasmava vivamente os operários, impelia-os a reclamar a supressão dos abusos mais gritantes e a apoiar as suas reivindicações através de greves. Os próprios donos das fábricas foram, afinal, obrigados a reconhecer nesses panfletos uma declaração de guerra a ponto de muitas vezes não desejarem sequer aguardar a própria guerra. Como sempre, simplesmente através da sua publicação, tais revelações adquiriram vigor e exerceram forte pressão moral. Não era raro o facto de a simples aparição de um panfleto obter a satisfação total ou parcial das reivindicações dos operários. Numa palavra, as denúncias económicas (nas fábricas) eram e continuam a ser uma poderosa alavanca da luta económica. E assim o será, enquanto existir o capitalismo, que impele necessariamente os operários à autodefesa. Nos países europeus mais avançados, pode-se ainda agora observar que a denúncia de condições escandalosas de trabalho em algum "oficio" em desuso, ou em um ramo de trabalho no domicílio esquecido de todos, leva ao despertar da consciência de classe, à luta sindical, e à difusão do socialismo. A grande maioria dos sociais-democratas russos, nesses últimos tempos, foi quase inteiramente absorvida pela organização dessas denúncias nas fábricas. Basta lembrar a Rabótchaia Mysl para se ver a que ponto chegou tal absorção; esquecia-se que, no fundo, essa actividade não era ainda em si mesma social-democrata, mas apenas sindical. As denúncias referiam-se, no fundo, somente às relações dos operários de uma determinada profissão com os seus patrões, e não tiveram, outro resultado senão o de ensinar àqueles que vendiam sua força de trabalho, a vender esta "mercadoria" de forma mais vantajosa, e a lutar contra o comprador no terreno de uma transacção puramente comercial.Essas denúncias (na condição de serem convenientemente utilizadas pela organização dos revolucionários) podiam servir de ponto de partida e de elemento constitutivo da acção social-democrata; mas também podiam (e até deviam, quando se inclinavam diante da espontaneidade) conduzir à luta "exclusivamente profissional" e a um movimento operário, não social-democrata. A social-democracia dirige a luta da classe operária, não apenas para obter condições vantajosas na venda da força de trabalho, mas, também, pela abolição da ordem social, que obriga os não possuidores a se venderem aos ricos. A social-democracia representa a classe operária nas suas relações não apenas com um determinado grupo de empregadores, mas com todas as classes da sociedade contemporânea, com o Estado como força política organizada. Consequentemente, portanto, os sociais-democratas não podem limitar-se à luta económica, mas, também não podem admitir que a organização das denúncias económicas constitua sua actividade mais definida. Devemos empreender activamente a educação política da classe operária, trabalhar para desenvolver a sua consciência política.   Quanto a esse ponto, após a primeira ofensiva da Zaria e do Iskra contra o "economismo", agora "todos estão de acordo" (acordo por vezes apenas verbal, como o veremos em seguida). A questão que se coloca é: em que, portanto, deve consistir a educação política? Podemos limitar-nos a difundir a ideia de que a classe operária é hostil à autocracia? Naturalmente, não. Não é suficiente esclarecer os operários sobre sua opressão política (como não o seria esclarecê-los sobre a oposição dos seus interesses em relação aos dos seus patrões). É necessário fazer a agitação a propósito de cada manifestação concreta desta opressão (como fizemos em relação às manifestações concretas da opressão económica). Ora, como esta opressão se exerce sobre as mais diversas classes da sociedade, manifesta-se nos mais diversos aspectos da vida e da actividade profissional, civil, privada, familiar, religiosa, científica etc. etc., não se torna evidente que não realizaremos a nossa tarefa que é desenvolver a consciência política dos operários, se não nos encarregarmos de organizar uma ampla campanha política de denúncia da autocracia? De facto, para fazer a agitação sobre as manifestações concretas da opressão, é preciso denunciar essas manifestações (da mesma forma que para conduzir a agitação económica, era preciso denunciar os abusos cometidos nas fábricas). Acho que isto está claro. Mas verifica-se justamente que a necessidade de desenvolver amplamente a consciência política não é reconhecida "por todos", senão em palavras. Verifica-se, por exemplo, que o Rabótcheie Dielo longe de se encarregar de organizar, ele próprio, uma ampla campanha de denúncias políticas (ou de tomar a iniciativa com vistas a essa organização) põe-se a puxar para trás o Iskra, que já tinha iniciado essa tarefa. Escutem: "A luta política da classe operária é apenas" (justamente ela não é "apenas") "a forma mais desenvolvida, a forma maior e mais efectiva da luta económica" (programa do Rabótcheie Dielo, R D., n.º. 1, p. 3). "Agora, para os sociais-democratas trata-se de saber como conferir à própria luta económica, sempre que possível, um carácter político" (Martynov, no número 10, p. 42). "A luta económica é o meio mais amplamente aplicável para levar as massas à luta política activa" (resolução do Congresso da União e "emendas": Dois Congressos, p.11 e 17). O Rabótcheie Dielo, como se vê, desde o seu nascimento até as últimas "instruções à redacção", esteve sempre impregnado dessas teses, que evidentemente exprimem, todas, um único ponto de vista sobre a agitação e a luta políticas. Considerem este ponto de vista sob o ângulo da opinião que prevalece entre todos os "economistas", opinião segundo a qual à agitação política deve seguir a agitação económica. Será verdade que a luta económica é, em geral, "o meio mais amplamente aplicável" para levar as massas à luta política? Isto é absolutamente falso. Todas as manifestações, quaisquer que sejam elas, da opressão policial e do arbitrarismo absolutista, e não apenas as ligadas à luta económica, constituem um meio não menos "amplamente aplicável" para tal "integração". Por que os zemskie natchaIniki e os castigos corporais infligidos aos camponeses, a corrupção dos funcionários e a maneira como a polícia trata a "plebe" das cidades, a luta contra os famintos, a campanha repelindo a aspiração do povo à instrução e à ciência, a extorsão dos impostos, a perseguição às seitas, o adestramento dos soldados e o regime de caserna imposto aos estudantes e aos intelectuais liberais - por que todas essas manifestações de opressão, e milhares de outras mais, não directamente ligadas à luta "económica", constituem em geral os meios e as ocasiões menos "amplamente aplicáveis" de agitação política, de integração da massa à luta política? Muito pelo contrário; na soma total dos casos quotidianos em que o operário sofre (ele próprio, ou os ligados a ele) a servidão, a arbitrariedade e a violência, os casos de opressão policial que se aplicam precisamente à luta profissional não constituem, certamente, senão uma pequena minoria. Por que, então, restringir de antemão a amplitude da propaganda política, proclamando como "o mais amplamente aplicável" apenas um único meio, ao lado do qual, para o social-democrata, deveria haver outros que, de forma geral, não são menos "amplamente aplicáveis?" Em época já muito remota (há um ano! ... ), o Rabótcheie Dielo escrevia: "As reivindicações políticas imediatas tornam-se acessíveis à massa após uma, ou na pior das hipóteses, após várias greves", "desde que o governo utilize a polícia e o corpo policial" (n.º. 7, p. 15, Agosto de 1900). Essa teoria oportunista dos estádios foi rejeitada pela União, que nos faz uma concessão declarando: "não há nenhuma necessidade, desde o início, de se fazer a agitação política exclusivamente no terreno económico" (Dois Congressos, p. 11). Esta única negação pela União de uma parte de seus antigos erros mostrará ao futuro historiador da social-democracia russa, melhor do que toda a espécie de longas dissertações, a que ponto os nossos "economistas" rebaixaram o socialismo! Mas, que ingenuidade da União imaginar que, a troco do abandono de uma forma de estreitamento da política, poderia fazer-nos aceitar outra forma de estreitamento! Não teria sido mais lógico dizer, também, que é preciso sustentar uma luta económica, da forma mais ampla possível; que é preciso sempre utilizá-la para os fins de agitação política, mas que "não há nenhuma necessidade' de se considerar a luta económica como o meio mais amplamente aplicável para integrar a massa à luta política activa? A União considera importante o facto de ter substituído a expressão "o meio mais amplamente aplicável", pela expressão "o melhor meio", que figura na resolução correspondente ao Quarto Congresso da União Operária Judaica (Bud). Na verdade, seria embaraçoso para nós dizer qual dessas duas resoluções é a melhor: em nossa opinião são as duas piores. Tanto a União como o Bund perdem-se no que diz respeito a uma interpretação economista, sindical da política (em parte, talvez inconscientemente, sob a influência da tradição). No fundo, a questão em nada se altera, quer se empregue as palavras "o melhor", ou "o mais amplamente aplicável". Se a União tivesse dito que "a agitação política no terreno económico" constitui o meio mais amplamente aplicado (e não "aplicável") teria razão quanto a certo período de desenvolvimento de nosso movimento social-democrata. Teria razão precisamente no que concerne aos "economistas", no que diz respeito a muitos (senão a maior parte) dos militantes práticos de 1898-1901; de facto, esses "economistas" práticos aplicaram a agitação política (se é que a aplicaram de algum modo), quase exclusivamente no terreno económico. Como vimos, a Rabótchaia Mysl e o "Grupo da Auto libertação" admitiam, também eles, e até recomendavam uma agitação política desse género! O "Rabótcheie Dielo" devia condenar resolutamente o facto de a agitação económica, útil em si mesma, ter sido acompanhada de uma restrição prejudicial da luta política; ora, ao invés disso, declara o meio mais aplicado (pelos "economistas") como o mais aplicável! Não é de se surpreender que, quando damos a esses homens o nome de "economistas", não lhes resta senão insultarem-nos, chamando-nos de "mistificadores" e "desorganizadores", e de, "núncios do papa" e "caluniadores", de se lamentarem diante de todos que lhes fizemos uma afronta atroz, e declarar, quase jurando aos seus grandes deuses: "decididamente, hoje, nenhuma organização social-democrata está contaminada pelo economismo". Ali! Esses caluniadores, esses políticos malévolos! Não terão eles inventado todo esse "economismo" para infringir às pessoas, por simples ódio à humanidade, afrontas atrozes? Qual é o sentido concreto, real da tarefa que Martynov atribui à social-democracia: "Conferir à própria luta económica um carácter político"?    A luta económica é a luta colectiva dos operários contra os patrões, para vender vantajosamente a sua força de trabalho, para melhorar suas condições de trabalho e de existência. Essa luta é necessariamente uma luta profissional, porque as condições de trabalho são extremamente variadas, de acordo com as profissões e, portanto, a luta pela melhoria de suas condições deve ser forçosamente conduzida pela profissão (pelos sindicatos no Ocidente, pelas uniões profissionais provisórias, por intermédio das "folhas volantes" na Rússia etc.). Conferir "à própria luta económica um carácter político significa, portanto, procurar conseguir as mesmas reivindicações profissionais, melhorar as condições de trabalho em cada profissão através de "medidas legislativas e administrativas" (como se exprime Martynov, à página seguinte - 43 -de seu artigo). É exactamente o que fazem e sempre fizeram os sindicatos operários. Leiam a obra dos seus profundos conhecedores (e de "profundos" oportunistas), como o casal Webb, e verão que há muito os sindicatos operários da Inglaterra compreenderam e realizam a tarefa de "conferir à própria luta económica um carácter político": que há muito e muito tempo lutam pela liberdade das greves, pela supressão dos obstáculos jurídicos de todo género e de toda ordem, ao movimento cooperativista e sindical, pela promulgação de leis para a protecção da mulher e da criança, pela melhoria das condições do trabalho através de uma legislação sanitária, industrial etc. Assim, pois, sob um aspecto "terrivelmente" profundo e revolucionário, a frase pomposa - "Conferir à própria luta económica um carácter político" - dissimula na realidade a tendência tradicional de rebaixar a política social-democrata ao nível da política sindical! Sob o pretexto de corrigir a estreiteza do Iskra, que prefere - vejam vocês; "revolucionar o dogma do que revolucionar a vida", servem-nos como novidade a luta pelas reformas económicas. Na realidade, a frase - "Conferir à própria luta económica um carácter político" - implica apenas a luta pelas reformas económicas. E o próprio Martynov poderia ter chegado a essa conclusão pouco subtil, se tivesse meditado profundamente nas suas próprias palavras. "O nosso partido", diz ele apontando sua arma mais terrível contra o Iskra, "poderia e deveria exigir do governo medidas legislativas e administrativas concretas contra a exploração económica, o desemprego, a fome etc. "(Rabótcheie Dielo. N.º. 10, p. 42-43). Reivindicar medidas concretas não significa reivindicar reformas sociais? E mais uma vez tomamos o testemunho do leitor imparcial: caluniamos nós os rabotchediélentsi - perdoem-me esta infeliz palavra em voga! - qualificando-os de bernsteinianos disfarçados, quando pretendem que seu desacordo com o Iskra repousa na necessidade de lutar por reformas económicas? A social-democracia revolucionária sempre compreendeu e compreende na sua actividade a luta pelas reformas. Usa, porém, a agitação "económica" não somente para exigir do governo medidas de toda espécie, mas, também (e sobretudo), para dele exigir que deixe de ser um governo autocrático. Além disso, acredita dever apresentar ao governo essa reivindicação não somente no terreno da luta económica, mas também no terreno de todas as manifestações, quaisquer que sejam, da vida política e social. Numa palavra, subordina a luta pelas reformas, como a parte ao todo, à luta revolucionária pela liberdade e pelo socialismo. Martynov ressuscita sob uma forma diferente a teoria dos estádios e tenta prescrever à luta política que torne resolutamente um caminho por assim dizer económico. Preconizando, desde o impulso revolucionário, a luta pelas reformas como uma "tarefa" pretensamente especial, arrasta o partido para trás, e faz o jogo do oportunismo "economista" e liberal. Prossigamos. Após ter dissimulado pudicamente a luta pelas reformas sob a frase pomposa "Conferir à própria luta económica um carácter político" -, Martynov apresentou, simplesmente, como algo de particular as reformas económicas (e mesmo as simples reformas no interior da fábrica). Por que teria feito isso? Ignoramos. Talvez por negligência? Mas se não tivesse considerado unicamente as reformas "fabris", toda a sua tese, que acabamos de mencionar acima, perderia seu sentido. Talvez porque, da parte do governo, julgue possíveis e prováveis apenas as "concessões" no aspecto económico? Se a resposta for sim, isto constitui um erro estranho: as concessões são possíveis e também se fazem no aspecto legislativo, quando se trata de aplicar a chibata, quando se trata de passaportes, de resgates, de seitas, da censura etc, etc. As concessões (ou pseudo-concessões) "económicas" são evidentemente as menos dispendiosas e as mais vantajosas para o governo, pois, dessa forma, espera ganhar a confiança das massas operárias. Mas é precisamente por isso que nós, os sociais-democratas, não devemos de forma alguma e por motivo algum ceder a essa opinião (ou a um mal-entendido) de que as reformas económicas pretensamente nos agradam, e que as consideramos as mais importantes etc. "Tais reivindicações" - diz Martynov falando das medidas legislativas e administrativas concretas que mencionou anteriormente - "não seriam uma frase oca, porque, prometendo resultados tangíveis, poderiam ser apoiadas activamente pela massa operária"... Não somos "economistas", oh, não! Simplesmente prostramo-nos diante da "tangibilidade" dos resultados concretos, tão servilmente como o fazem os senhores Bernstein, Prokopovitch, Struve, R. M., e tutti quanti. Simplesmente damos a entender (com Narciso Tuporilov) que tudo o que "não promete resultados tangíveis" não é mais do que uma "frase oca"! Simplesmente expressamo-nos como se a massa operária fosse incapaz (e não provou até agora sua capacidade, a despeito daqueles que atiram sobre ela seu próprio filistinismo) de apoiar activamente todo o protesto contra a autocracia, mesmo aquele que não lhe promete absolutamente qualquer resultado tangível! Tomemos os mesmos exemplos lembrados pelo próprio Martynov, relativos às "medidas" contra o desemprego e a fome. Enquanto o Rabótcheie Dielo trabalhava, segundo fazia crer, para elaborar e desenvolver "reivindicações concretas (sob a forma de projectos de lei?) referentes a medidas legislativas e administrativas", "prometendo resultados tangíveis", o Iskra, que "prefere invariavelmente revolucionar o dogma do que revolucionar a vida", dedicava-se a explicar a ligação estreita entre o desemprego e o regime capitalista, advertindo que a "fome se aproxima", denunciando a "luta contra as famintos" desencadeada pela polícia e os escandalosos "regulamentos provisórios draconianos", e a Zaria lançava em tiragem especial, como folheto de propaganda, uma parte da Revista da Situação Interior, dedicada à fome. Mas, meu Deus, como foram "unilaterais", nesse caso, os ortodoxos incorrigivelmente estreitos, os dogmáticos surdos às injunções da - "própria vida"! Nenhum de seus artigos contém - que horror! - nem uma única, vejam bem, "reivindicação concreta", "prometendo resultados tangíveis"! Os infelizes dogmáticos! É preciso enviá-los à escola de Kritchévski e Martynov para convencê-los; de que a táctica é um processo de crescimento, do que cresce etc., e que é preciso conferir à própria luta económica um carácter político!  "Além de sua importância revolucionária directa, a luta económica dos operários contra os patrões e o governo ("a luta económica contra o governo"!!) apresenta ainda a utilidade de incitar os operários a pensar constantemente que estão frustrados nos seus direitos políticos" (Martynov, p. 44). Citamos essa frase não a fim de repetir pela centésima ou milésima vez o que dissemos acima, mas a fim de agradecer muito particularmente a Martynov por essa nova e excelente frase: "A luta económica dos operários contra os patrões e o governo". Que maravilha! Com que talento inimitável, com que magistral eliminação de todas as diferenças parciais, de todas as variedades de matizes entre "economistas", encontra-se expressa aqui, numa proposição breve e límpida, toda a essência do "economismo", desde o apelo instigando os operários à "luta política que conduzem no interesse geral, a fim de melhorar a sorte de todos os operários", passando pela teoria dos estádios, para finalizar com a resolução do congresso sobre o "meio mais amplamente aplicável" etc. "A luta económica contra o governo" constitui exactamente a política sindical, que ainda se encontra muito e muito longe da política social-democrata.

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