Lenine - Que Fazer?

Não sei por onde começar a análise do imbróglio oferecido pela Svoboda. Para maior clareza, tentarei começar por um exemplo: tomemos os alemães. Espero que não neguem que, entre eles, a organização abrange a multidão, que tudo vem da multidão, que o movimento operário, na Alemanha, aprendeu a marchar sozinho. E contudo, como essa multidão de milhões de homens sabe apreciar a "dezena" dos seus experimentados chefes políticos, e como os apoiam! Mais de uma vez, no Parlamento, os deputados dos partidos adversários atormentaram os socialistas dizendo: "Que belos democratas são vocês! O movimento da classe operária, para vocês, existe apenas em palavras: na realidade, é sempre o mesmo grupo de chefes que faz tudo. Durante anos, durante dezenas de anos, é sempre o mesmo Bebel, o mesmo Liebknecht! Mas os seus delegados, pretensamente eleitos pelos operários, são mais permanentes que os funcionários nomeados pelo imperador!" Mas os alemães acolhem com um sorriso de desprezo essas tentativas demagógicas de opor a "multidão" aos "dirigentes", de acender nela os maus instintos de vaidade e de privar o movimento de solidez e estabilidade, arruinando a confiança da massa nessa "dezena de cabeças dotadas de inteligência". Os alemães são bastante desenvolvidos politicamente, têm suficiente experiência política para compreender que, sem uma "dezena" de chefes capazes (os espíritos capazes não surgem às centenas), experimentados, profissionalmente preparados e instruídos por uma longa aprendizagem, perfeitamente de acordo entre si, nenhuma classe da sociedade moderna pode conduzir resolutamente a luta. Os alemães também tiveram os seus demagogos, que adulavam as "centenas de imbecis" colocando-os acima das "dezenas de cabeças dotadas de inteligência"; que adulavam o "punho musculoso" da massa, empurravam (como Most ou Hasselmann) essa massa a actos "revolucionários" irreflectidos, e semeavam a desconfiança em relação aos chefes firmes e resolutos. E foi apenas graças a uma luta obstinada, implacável, contra os elementos demagógicos de toda espécie e de toda ordem no seio do socialismo, que o socialismo alemão cresceu tanto e se fortaleceu. Ora, neste período onde toda a crise da social-democracia russa se explica pelo facto de as massas espontaneamente despertadas não terem dirigentes suficientemente preparados, desenvolvidos e experimentados, os nossos sabichões vêm dizer-nos sentenciosamente, com a profundidade de pensamento de um Gribouille "é deplorável quando um movimento não vem de baixo!" "Um comité de estudantes não nos convém, porque é instável." Perfeitamente correcto. Mas a conclusão a extrair é que é necessário um comité de revolucionários profissionais, operários ou estudantes, pouco importa, que saibam proceder à sua educação de revolucionários profissionais. Enquanto que a conclusão que os senhores tiram, é que não é necessário estimular o movimento operário a partir do exterior! Com esta ingenuidade política, nem mesmo notam que assim fazem o jogo dos nossos "economistas" e utilizam os nossos métodos artesanais. Permitam-me colocar uma questão: como é que os nossos estudantes "estimularam" os nossos operários? Unicamente levando-lhes o pouco conhecimento político que eles próprios tinham, os fragmentos de ideias socialistas que puderam recolher (pois o principal alimento espiritual do estudante contemporâneo, o marxismo legal, não lhe pode oferecer senão o á-bê-cê e os fragmentos). Esse estímulo de fora não foi oferecido em abundância, ao contrário, no nosso movimento esse estímulo foi escandalosa e vergonhosamente insignificante; pois, até aqui, não fizemos mais do que "cozinharmo-nos mais do que o necessário no nosso próprio molho", inclinando-nos servilmente diante da "elementar luta económica dos operários contra os patrões e o governo". Nós, revolucionários de profissão, devemos ocupar-nos cem vezes mais desse "estímulo", e é o que faremos. Mas, justamente porque os senhores, empregam essa odiosa expressão, "estímulo a partir do exterior", que inevitavelmente inspira o operário (pelo menos o operário tão pouco desenvolvido como os senhores) a desconfiar de todos aqueles que lhe trazem de fora os conhecimentos políticos e a experiência revolucionária, e suscita nele o desejo instintivo de mandar passear todas as pessoas desse tipo - os senhores mostram-se como demagogos; ora, os demagogos são os piores inimigos da classe operária. Perfeitamente! E não se apressem a gritar contra os procedimentos "inadmissíveis entre camaradas" da minha discussão! Nem penso em suspeitar da pureza das intenções; já disse que é possível qualquer um tornar-se demagogo unicamente através da ingenuidade política. Mas mostrei que os senhores se deixaram levar até à demagogia. E jamais deixarei de repetir que os demagogos são os piores inimigos da classe operária. Os piores, precisamente, porque acendem os maus instintos da multidão, e é impossível para os operários pouco desenvolvidos reconhecer esses inimigos que se apresentam, e às vezes sinceramente, como seus amigos. Os piores porque, num período de dispersão e de hesitação, quando o nosso movimento ainda busca encontrar-se, nada mais fácil do que arrastar demagogicamente a multidão, que só as provações mais amargas poderão, depois, convencer do erro em que incorreram. Eis por que a palavra de ordem do momento para os sociais-democratas russos deve ser a luta resoluta contra a Svoboda, que se deixa levar à demagogia, e contra o Rabótcheie Dielo, que também assim procede (ainda voltaremos a isso). "É mais fácil caçar uma dezena de cabeças dotadas de inteligência do que uma centena de imbecis". Essa grande verdade (que sempre receberá o aplauso da centena de imbecis) parece evidente apenas porque, no curso do raciocínio, os senhores pularam de uma questão a outra. Começaram e continuam a falar da captura do "Comité", da "organização", e depois passam a uma outra questão, à captura das "raízes"' do movimento "em profundidade". Certamente, nosso movimento é apreensível, porque tem centenas de milhares de profundas raízes, mas não é essa a questão, de modo algum. Mesmo agora, apesar de todos os nossos métodos artesanais, e impossível "apreendermos" as nossas "profundas raízes" e todavia, todos deploramos, e não podemos deixar de deplorar, a captura das "organizações", o que impede toda continuidade no movimento. Ora, se os senhores colocam a questão da captura das organizações, e se a prendem a essa questão, dir-lhes-ei que é muito mais difícil apreender uma dezena de cabeças dotadas de inteligência do que uma centena de imbecis. E sustentarei esta tese, não importa o que façam para excitar a multidão contra meu "anti-democratismo" etc. É preciso entender por "cabeças inteligentes", em matéria de organização, como já mencionei em várias ocasiões, unicamente os revolucionários profissionais, estudantes ou operários de origem, pouco importa. Ora, eu afirmo: 1º) que não seria possível haver movimento revolucionário sólido sem uma organização estável de dirigentes, que assegure a continuidade do trabalho; 2º) que quanto maior a massa espontaneamente integrada à luta, formando a base do movimento e dele participando, mais imperiosa é a necessidade de se ter tal organização, e mais sólida deve ser essa organização (senão será mais fácil para os demagogos arrastar as camadas incultas da massa); 3º) que tal organização deve ser composta principalmente de homens tendo por profissão a actividade revolucionária; 4º) que, num país autocrático, só se o recrutamento for tão restringido ao ponto de não serem aceites na organização senão os revolucionários de profissão que fizeram a aprendizagem da arte de enfrentar a polícia política, é que será difícil "capturar" tal organização e 5º) mais numerosos serão os operários e os elementos das outras classes sociais, que poderão participar do movimento e nele militar de forma activa. Convido os nossos "economistas", os nossos terroristas, e os nossos "economistas terroristas" a refutar essas teses, das quais, neste momento, desenvolverei apenas as duas últimas. A questão de saber se é mais fácil capturar uma "dezena de cabeças dotadas de inteligência" ou uma "centena de imbecis" reconduz à questão que analisei mais acima: é possível uma organização de massa estabelecer-se com base num regimento estritamente clandestino? Jamais poderemos dar a uma grande organização um carácter clandestino, sem o qual não seria possível falar de uma luta firme contra o governo e cuja continuidade fosse assegurada. A concentração de todas as funções clandestinas entre as mãos do menor número possível de revolucionários profissionais não significa absolutamente que esses "pensarão por todos", que a multidão não tomará parte activa no movimento. Ao contrário, a multidão fará surgir esses revolucionários profissionais em número sempre maior, pois saberá, então, que não basta alguns estudantes e alguns operários, que conduzem a luta económica, reunirem-se para constituir um "comité", mas é necessário, durante anos, que procedam à sua educação de revolucionário profissional; e a multidão não "pensará" unicamente no trabalho artesanal, mas exactamente nessa educação.  

 

     A centralização das funções clandestinas da organização não significa absolutamente a centralização de todas as funções do movimento. Longe de diminuir, a colaboração activa na maior parte da literatura ilegal multiplicar-se-á dez vezes, quando uma "dezena" de revolucionários profissionais centralizar nas suas mãos a edição clandestina dessa literatura. Então, e somente então, conseguiremos que a leitura das publicações ilegais, a colaboração nessas publicações e mesmo, até certo ponto, a sua difusão, deixem (quase) de ser clandestinas: a polícia logo terá compreendido o absurdo e a impossibilidade de perseguição judicial e administrativa a propósito de cada exemplar de publicações distribuídas aos milhares. E isto é verdade, não somente para a imprensa, mas também para todas as funções do movimento, inclusive as manifestações. A participação mais activa e maior da massa em manifestações, longe de sofrer, ganhará mais se uma "dezena" de revolucionários experimentados, e pelo menos tão bem preparados profissionalmente como a nossa polícia, centralizar todos os aspectos clandestinos: elaboração de panfletos, de um plano aproximado, nomeação de um grupo de dirigentes para cada bairro da cidade, cada grupo de fábricas, cada estabelecimento de ensino etc. (Sei que poderão objectar que os meus pontos de vista "nada têm de democrático", mas responderei a tal objecção, mais adiante, e em detalhe, que nada é menos inteligente). A centralização das funções mais clandestinas pela organização dos revolucionários, longe de enfraquecer, enriquecerá e alargará a acção de uma multidão de outras organizações que se dirigem ao grande público e que, por razões que lhes são próprias, também são tão pouco regulamentadas e clandestinas quanto possível: associações profissionais de operários, círculos operários de instrução e de leitura de publicações ilegais, círculos socialistas e também círculos democráticos para todas as outras camadas da população etc. etc. Esses círculos, associações profissionais de operários e organizações são necessários em toda a parte; é preciso que sejam mais numerosos e que suas funções sejam as mais variadas; mas é absurdo e prejudicial confundi-las com a organização de revolucionários, apagar a linha de demarcação que existe entre elas, extinguir na massa o sentimento já incrivelmente adormecido de que, para "servir" um movimento de massa, é preciso ter homens que se dediquem especial e integralmente à actividade social-democrata, e que, paciente e obstinadamente, procedam à sua educação de revolucionários profissionais. Sim, esse sentimento está incrivelmente adormecido. Através dos nossos métodos artesanais, comprometemos o prestígio dos revolucionários na Rússia; é o nosso pecado capital em matéria de organização. Um revolucionário sem energia, hesitante nos problemas teóricos, com horizontes limitados, justificando a sua inércia pela espontaneidade do movimento de massa; mais semelhante a um secretário de sindicato que a um tribuno popular, incapaz de apresentar um plano amplo e corajoso que imponha respeito aos adversários, um revolucionário sem experiência e pouco hábil na sua arte profissional - a luta contra a polícia política - será um revolucionário? Não, não passa de um artesão digno de piedade. Que nenhum prático se ofenda com esse epíteto severo, pois, no que diz respeito à falta de preparação, aplico esse epíteto a mim mesmo, antes de todos. Trabalhei num círculo que atribuía a si próprio, tarefas muito amplas e múltiplas; todos nós, membros desse círculo, sofremos muito ao percebermos que éramos apenas os artesãos naquele momento histórico em que se poderia dizer, parafraseando a célebre máxima: dêem-nos uma organização de revolucionários e revolucionaremos a Rússia! E quanto mais me recordo desse agudo sentimento de vergonha que então experimentei, mais sinto aumentar em mim a amargura contra esses pseudo-sociais-democratas, cuja propaganda "desonra o título de revolucionário", e que não compreendem que a nossa tarefa não é defender o rebaixamento do revolucionário ao nível dos artesãos, mas de elevar os artesãos ao nível dos revolucionários. 

 

d) Envergadura do trabalho de organização 

 

     Como já vimos, B-v fala da "escassez de forças revolucionárias aptas para a acção, que se faz sentir não apenas em Petersburgo, mas em toda a Rússia". Não creio que se encontre alguém para contestar esse facto. Trata-se, porém, de saber como explicá-lo. B-v escreve: "não vamos aprofundar as razões históricas desse fenómeno; diremos somente que, desmoralizada por uma prolongada reacção política e dividida pelas mudanças económicas que se processaram e ainda se processam, a sociedade fornece apenas um número infinitamente restrito de pessoas aptas para o trabalho revolucionário; a classe operária, fornecendo os operários revolucionários, completa em parte as fileiras das organizações ilegais, porém, o número desses revolucionários não corresponde às necessidades da época. Tanto mais que o operário, pela sua própria situação, pois está ocupado onze horas e meia por dia na fábrica, pode apenas preencher funda mentalmente as funções de agitador, enquanto a propaganda e a organização, a reprodução e a distribuição de literatura ilegal, a publicação de proclamações etc., constituem forçosamente, na maior parte dos casos, as funções de um número ínfimo de intelectuais" (Rabótcheie Dielo, nº6, p. 38-39). Não estamos de acordo com essa opinião de B-v em relação a vários pontos, e salientamos especialmente os que mostram de forma relevante que, tendo sofrido muito por causa do nosso trabalho artesanal (como todo militante que pensa um pouco), B-v, subjugado pelo "economismo", não consegue encontrar um meio de sair dessa situação intolerável. Não, a sociedade fornece um número muito grande de homens aptos para o "trabalho", mas não sabemos utilizá-los a todos. O estado crítico, o estado transitório do nosso movimento nesse aspecto pode ser assim formulado: há falta de homens embora os homens existam em grande quantidade. Os homens existem em grande quantidade porque a classe operária e camadas cada vez mais variadas da sociedade fornecem, a cada ano, um número sempre maior de descontentes, desejosos de protestar, prontos a cooperar de acordo com suas forças na luta contra o absolutismo, cujo carácter intolerável ainda não foi reconhecido por toda a gente, mas é cada vez mais vivamente sentido por uma massa cada vez maior. E, ao mesmo tempo, há falta de homens, porque não há dirigentes, chefes políticos, organizadores capacitados para realizar um trabalho simultaneamente amplo, coordenado e harmonioso, que permita utilizar todas as forças, mesmo as mais insignificantes. "O crescimento e o desenvolvimento das organizações revolucionárias" retardam não apenas o crescimento do movimento operário - como o reconhece o próprio B-v -, mas também o crescimento do conjunto do movimento democrático em todas as camadas do povo. (Aliás, é provável que hoje B-v subscrevesse tal complemento da sua conclusão). O quadro do trabalho revolucionário é demasiado restrito em relação à grande base espontânea do movimento, e está demasiado comprimido pela precária teoria da "luta económica contra os patrões e o governo". Ora, hoje, não são apenas os agitadores políticos, mas também os sociais-democratas organizadores que devem "ir a todas as classes da população". Os sociais-democratas poderão perfeitamente repartir as inúmeras funções fragmentárias do trabalho de organização entre os representantes das mais diversas classes: nenhum militante, creio eu, duvidará disso. A falta de especialização, que B-v lamenta amargamente e com tanta razão, constitui um dos maiores defeitos dos nossos procedimentos técnicos. Quanto menores forem as diferentes "operações" da acção comum, tanto maior será o número de pessoas capazes de executá-las que poderão ser encontradas (e, na maior parte dos casos, completamente incapazes de se tornarem revolucionários profissionais); quanto mais difícil for para a polícia "marcar" todos esses "militantes especializa dos", mais difícil será montar, com o delito insignificante de um indivíduo, um "caso" de importância que justifique as verbas despendidas pelo Estado com a "segurança". Quanto ao número de pessoas, prontas a fornecer-nos cooperação, já observámos, no capítulo precedente, a grande mudança que se processou a esse respeito, somente nos últimos cinco anos. Mas, por outro lado, para agrupar todas essas mínimas fracções num só todo e para não fragmentar o próprio movimento juntamente com as funções, para inspirar no executante das pequenas funções a fé na necessidade e na importância do seu trabalho, sem a qual jamais realizará nada , para tudo isto é preciso ter uma forte organização de revolucionários experimentados. Com tal organização, a fé na força do partido será fortalecida e expandir-se-á de forma cada vez mais intensa quanto mais essa organização for clandestina; ora, na guerra, todos nós sabemos que o que importa acima de tudo não é apenas inspirar no exército a confiança nas suas próprias forças, mas também impô-la ao inimigo e a todos os elementos neutros; por vezes uma neutralidade benevolente pode decidir a vitória. Com tal organização fundamentada em base teórica bastante firme e dispondo de um órgão social-democrata, nada haverá a recear quanto ao facto de o movimento poder ser desviado pelos numerosos elementos de "fora", que a ele tenham aderido (ao contrário, é exactamente agora com o trabalho artesanal que predomina entre nós, que vemos inúmeros sociais-democratas empurrarem o movimento em direcção ao Credo, pretendendo serem os únicos sociais-democratas). Numa palavra, a especialização implica necessariamente a centralização, exigindo-a de forma absoluta. Mas o próprio B-v, que tão bem demonstrou toda a necessidade da especialização, não avalia suficientemente o seu valor, conforme nos parece, na segunda parte do raciocínio citado. Diz ele que o número de revolucionários saídos dos meios operários é insuficiente. Essa observação é perfeitamente correcta, e mais uma vez sublinhamos que a "preciosa informação de um observador directo" confirma inteiramente o nosso ponto de vista sobre as causas da crise actual da social-democracia e, portanto, sobre os meios de remediá-la. Não são apenas os revolucionários que, em geral, estão atrasados em relação ao impulso espontâneo das massas operárias. E esse facto confirma com toda a evidência, mesmo do ponto de vista "prático", não apenas o absurdo, mas também o carácter político reaccionário da "pedagogia" com que somos obsequiados frequentemente a propósito dos nossos deveres em relação aos operários. Atesta que a nossa primeira e imperiosa obrigação é contribuir para formar revolucionários operários, que estejam no mesmo nível dos revolucionários intelectuais em relação à actividade no Partido. (Salientamos "em relação à actividade no Partido", pois, em relação aos outros aspectos, atingir esse mesmo nível constitui, para os operários, algo muito menos fácil e muito menos urgente, embora necessário). Por isso, é preciso que nos dediquemos principalmente a elevar os operários ao nível dos revolucionários, e nunca devemos descer, nós próprios, ao nível da "massa operária" como desejam os "economistas", ao nível do "operário médio" como quer a Svoboda (que, sob esse aspecto, eleva ao quadrado a "pedagogia" economista). Longe de mim negar a necessidade de uma literatura popular para os operários, e de uma outra especialmente popular (mas não uma literatura de má qualidade) para os operários mais atrasados. Mas o que me revolta é essa tendência de se unir a pedagogia às questões de política, às questões de organização. Porque, afinal, os senhores que se arvoram em defensores do "operário médio", insultam antes de tudo esse operário, sempre que manifestam o desejo de se inclinarem na sua direcção, ao invés de lhe falarem de política operária ou de organização operária. Corrijam-se, portanto, e falem de coisas sérias, deixando a pedagogia aos pedagogos, e não aos políticos e aos organizadores! Não existem também entre os intelectuais elementos avançados, elementos "médios" e uma "massa"? Não reconhecem todos a necessidade de uma literatura popular para os intelectuais, e não se publica essa literatura? Mas imaginem que, num artigo sobre a organização de estudantes universitários ou liceais, o autor, em tom de quem faz uma descoberta, fica repisando inutilmente que, antes de mais nada, é preciso uma organização de "estudantes médios". Com toda a certeza, e justamente, tal autor seria ridicularizado. Mas, poderão dizer-lhe: dê-nos algumas ideias sobre a organização, se é que as tem, e deixe-nos a tarefa de ver quais são entre nós os elementos médios, os superiores ou os inferiores; se não tiver, porém, ideias próprias sobre a organização, todos os seus discursos sobre "a massa" e sobre os elementos "médios" serão simplesmente fastidiosos. Portanto, as questões de "política" e de "organização" são em si mesmas tão sérias, que somente podem ser tratadas seriamente: pode-se e deve-se preparar os operários (e também os estudantes universitários e liceais) de modo a que se possa abordar diante deles essas questões, mas, uma vez abordadas, dêem-lhes uma resposta verdadeira, não façam marcha à ré em direcção aos "médios" ou à "massa", não se considerem dispensados com frases ou anedotas. A fim de se preparar integralmente para essa tarefa, o operário revolucionário deve tornar-se também um revolucionário profissional. Por isso, B-v não tem razão ao dizer que, estando o operário ocupado durante onze horas e meia na fábrica, as outras funções revolucionárias (salvo a agitação) "devem estar a cargo forçosamente de um número ínfimo de intelectuais". De forma alguma isto acontece "forçosamente", mas, sim em consequência de nosso atraso; porque não compreendemos o nosso dever, que é ajudar todo o operário que se faz notar pelas suas capacidades a tornar-se agitador, organizador, propagandista, divulgador profissional etc. etc. Em relação a este aspecto, desperdiçamos vergonhosamente as nossas forças, pois não sabemos cuidar do que precisa ser cultivado e desenvolvido com o maior desvelo. Vejam os alemães: têm cem vezes mais forças que nós, mas compreendem perfeitamente que os operários "médios" não fornecem com muita frequência agitadores verdadeiramente capazes etc. Por isso, tomam a peito a questão de colocar imediatamente todo operário capaz em condições que lhe permitam desenvolver a fundo e aplicar as suas aptidões; fazem dele um agitador profissional, encorajam-no a alargar o seu campo de acção, a estendê-lo de uma única fábrica a toda a profissão, de uma única localidade a todo o país. Assim, adquire a experiência e a habilidade na sua profissão; alarga o seu horizonte e os seus conhecimentos, observa de perto os chefes políticos eminentes de outras localidades e de outros partidos; esforça-se por elevar-se ao nível de tais chefes e aliar o conhecimento do meio operário e o ardor da fé socialista à competência profissional, sem a qual o proletariado não pode empreender uma luta tenaz contra um inimigo perfeitamente preparado. É assim, e apenas assim, que surgem os Bebel e os Auer da massa operária. Mas aquilo que num país politicamente livre é feito por si só, entre nós deve ser realizado sistematicamente pelas nossas organizações. Todo o agitador operário, um pouco dotado e em quem se "deposite esperanças", não deve trabalhar onze horas na fábrica. Devemos cuidar para que viva por conta do partido e possa, no momento desejado, passar à acção clandestina, mudar de localidade, pois, de outro modo, não adquirirá grande experiência, não alargará o seu horizonte, não se poderá manter sequer por alguns anos na luta contra a polícia. Quanto mais amplo e profundo se tornar o impulso espontâneo das massas operárias, mais serão colocados em destaque os agitadores com talento, e também os organizadores e propagandistas talentosos e "práticos" no melhor sentido da palavra (que são tão poucos entre os nossos intelectuais, na sua maioria tão apáticos e indolentes à maneira russa). Quando tivermos destacamentos de operários revolucionários especialmente preparados (e, bem entendido, de "todas as armas" da acção revolucionária) por uma longa aprendizagem, nenhuma polícia política do mundo poderá derrubá-los, porque esses destacamentos de homens devotados de corpo e alma à revolução gozarão da confiança ilimitada das massas operárias. E cometemos um erro não "empurrando" bastante os operários para esse caminho, comum tanto a eles como aos intelectuais, o caminho da aprendizagem revolucionária profissional, e, pelo contrário, arrastando-os com muita frequência para trás com os nossos discursos estúpidos sobre o que é "acessível" à massa operária, aos "operários médios" etc. Também sob esse aspecto, a estreiteza do trabalho de organização apresenta uma conexão inegável, íntima (embora a imensa maioria dos "economistas" e dos práticos novatos não tenham consciência disso) com as nossas fraquezas teóricas e o nosso atraso nas tarefas políticas. O culto da espontaneidade faz com que, de certa forma, tenhamos medo de nos afastarmos, nem que seja um só passo, daquilo que é "acessível" à massa; de nos elevarmos muito acima da simples satisfação das suas necessidades directas e imediatas. Nada temam, senhores! Lembrem-se que em matéria de organização estamos num tão baixo nível que é até absurdo pensar que poderíamos subir tão alto! 

Luta Popular on line

Aceda ao Luta Popular e fique
a par das últimas noticias:

Biblioteca Vermelha

Um redobrado empenho no estudo do marxismo, dos textos em que se condensa a experiência histórica das revoluções passadas e também daqueles em que se perspectivam novos combates pelo socialismo e pelo comunismo, constitui hoje um dever indeclinável de todos os revolucionários.

Entrar na Biblioteca Vermelha

 

Ribeiro Santos

A morte de Ribeiro Santos (durante uma reunião de estudantes contra a repressão fascista de Caetano, realizada em 12 de Outubro de 1972 na Faculdade de Ciências Económicas e Financeiras de Lisboa) constituiu um marco decisivo e de viragem no movimento popular e revolucionário contra a ditadura e a guerra colonial-imperialista que viria a atingir o seu auge em 1974.