Sobre “"contra o culto dos livros”"

VI. A VITÓRIA NA LUTA REVOLUCIONÁRIA NA CHINA DEPENDE DO CONHECIMENTO QUE POSSUAM OS CAMARADAS CHINESES SOBRE A SITUAÇÃO DO PAIS
 
     O objectivo da nossa luta consiste em passar da democracia burguesa ao socialismo. Nessa tarefa, a primeira coisa a fazer é levar até ao fim a revolução democrática, ganhando a maioria da classe operária e sublevando as massas camponesas e os indigentes das cidades para derrubar a classe dos senhores de terras, o imperialismo e o regime do Kuomintang. Depois, com o desenvolvimento dessa luta, teremos que realizar a revolução socialista. A realização dessa grande tarefa revolucionária não é coisa simples e fácil; ela depende inteiramente da justeza e da firmeza da táctica de luta seguida pelo Partido do Proletariado. Se essa táctica é errada ou vacilante, a revolução sofre inevitavelmente uma derrota temporária. Há que estar inteiramente consciente de que os partidos burgueses discutem também dia a dia a sua táctica de luta. Para eles, a questão é saber como propagar as ideias reformistas entre as fileiras da classe operária, para enganá-la e subtraí-la à direcção do Partido Comunista; como ganhar os camponeses ricos, para liquidar as insurreições dos camponeses pobres; como organizar vagabundos para reprimir a revolução, etc. Quando a luta de classes se torna mais e mais encarniçada e assume a forma dum corpo a corpo, para alcançar a vitória o proletariado baseia-se inteiramente na justeza e na firmeza da táctica de luta do seu Partido, o Partido Comunista. A táctica de luta justa e firme dum Partido Comunista jamais poderá ser elaborada por um punhado de pessoas encerradas entre quatro paredes; ela só pode resultar duma luta de massas, quer dizer, da experiência prática. E por isso que nós devemos, sempre, estar ao corrente do estado da sociedade e fazer investigações sobre a realidade. Os camaradas de espírito rotineiro, conservador, formalista e infundadamente optimista, crêem que a táctica de luta adoptada hoje é a melhor que pode existir, e que os "livros" [5] publicados pela VI Congresso do Partido garantem para sempre a nossa vitória, bastando conformar-se às decisões tomadas para vencer em toda a linha. Essa maneira de ver é completamente falsa. Ela é incompatível com a ideia de que, pela luta, os comunistas devem criar situações novas; ela não representa mais do que uma linha puramente conservadora. Se não for totalmente rejeitada essa linha conservadora causará graves prejuízos quer à revolução quer a esses mesmos camaradas. Efectivamente, há certos camaradas do Exército Vermelho que estão felizes por ficarem por aí, não procuram conhecer o fundo das coisas, são dum optimismo vago e propagam a falsa ideia de que "isso é que é proletariado". Eles não fazem mais do que comer e beber o dia inteiro, passa o tempo a dormir nos gabinetes e jamais aceitam meter os pés na 
sociedade, no seio das massas, a fim de procederem a uma investigação. Quando se dirigem às pessoas é sempre a mesma cantilena enfadonha. Para acordarmos tais camaradas há que gritar-lhes:
Desembaracem-se o mais depressa possível do vosso espírito conservador! Substituam-no por um espírito activo, progressista e comunista! Entrem na luta!

 Ide às massas para investigar sobre a realidade!

VII. A TÉCNICA DA INVESTIGAÇÃO

1) Fazer reuniões de informação e proceder a investigações pela discussão.

 

     Essa é a única maneira de se ir aproximando da verdade e chegar a uma conclusão. Limitar-se aos relatórios feitos per um indivíduo que parte apenas da sua própria experiência, não realizar reuniões de informação nem proceder a uma investigação por meio de discussões, é um método sujeito a erros. Por outro lado, o método de, nas reuniões, levantar apenas umas quantas questões surgidas ao acaso, e não discutir os problemas essenciais, tão pouco permite chegar conclusões relativamente correctas.


2) Quem deve participar nas reuniões de informação?

     Aqueles que conhecem perfeitamente a situação social e económica. Do ponto de vista da idade, devem preferir-se as pessoas idosas, pois elas têm grande experiência e conhecem não apenas o estado actual das coisas, mas ainda as suas causas e efeitos. Os jovens com experiência de luta também devem participar, já que eles têm ideias progressistas e um sentido agudo de observação. Do ponto de vista das profissões, podem convocar-se operários camponeses, comerciantes, intelectuais e, por vezes, soldados e mesmo vagabundos. Naturalmente, quando a investigação recai sobre um assunto bem determinado, não é necessário fazer intervir estranhos à questão; por exemplo, os operários, os camponeses e os estudantes não precisam de estar presentes quando se trate de determinadas investigações sobre comércio.
 
3) O que é preferível, uma grande ou uma pequena reunião de informação?

     Isso depende da capacidade, de quem faz a investigação, para dirigir a reunião. Para um investigador *capaz, *o número de participantes pode ultrapassar a dezena, ou mesmo a vintena. Uma reunião numerosa tem as suas vantagens: permite estabelecer estatísticas relativamente exactas (por exemplo, quando se quer conhecer a percentagem de camponeses pobres em relação ao número total de camponeses) e chegar a conclusões relativamente correctas (por exemplo, quando se quer saber se a distribuição por igual das terras é preferível à distribuição diferenciada). Como é óbvio, uma reunião numerosa tem também os seus inconvenientes: os que não sabem dirigi-la não podem manter a ordem. Assim, o número dos participantes depende da competência de quem faz a investigação. Todavia, uma reunião deve contar, pelo menos, três pessoas, senão as informações são limitadas de mais para reflectirem a verdade.


4) Estabelecer um plano de investigação.

     É preciso dispor dum plano bem preparado. O que investiga deve fazer perguntas segundo a ordem prevista no plano, respondendo os participantes de viva voz. Os pontos obscuros ou duvidosos devem submeter-se a debate. "O plano de investigação" deve dividir-se em capítulos e sub-capítulos; por exemplo, no capítulo "comércio", os "tecidos", os "cereais", os "artigos" diversos", as "plantas medicinais", constituem outros tantos sub-capítulos, o sub-capítulo 
"tecidos" subdivide-se por sua vez em "tecidos produzidos nas fábricas", "tecidos de fabrico caseiro", "sedas", etc.
 
5) Participar pessoalmente na investigação.

 

     Aqueles que ocupam um posto de direcção, desde o chefe de circunscrição ao Presidente do Governo Central, desde o chefe de destacamento até ao comandante em chefe, e desde o secretário de célula até ao Secretário-geral do Partido, devem, sem excepção, inquirir pessoalmente sobre a realidade social e económica, não devendo confiar unicamente nos relatórios escritos, pois uma coisa é investigar pessoalmente e outra, ler relatórios.
 
6) Aprofundar a matéria.

     Todos os que se iniciam no trabalho de investigação devem proceder a uma ou
duas investigações aprofundadas, quer dizer, conhecer perfeitamente uma localidade (uma aldeia, uma cidade) ou uma questão (cereais, moeda). O conhecimento aprofundado duma localidade ou questão permitir-lhes-á orientar-se mais facilmente nas investigações ulteriores sobre outras localidades e questões.
 
7) Tomar pessoalmente notas.
 
     O que procede à investigação deve não só presidir pessoalmente a reunião de informação, e dirigi-la convenientemente, mas ainda tomar ele próprio as suas notas, a fim de registar os resultados da investigação. Não se deve confiar a outros esse trabalho.
 
NOTAS

 
*[1]
Ver *Palestras de Confúcio, *livro lll "Payi": "Assim que entrava no Templo dos Antepassados, o Mestre fazia perguntas a respeito de tudo".*
 

*[2] Herói do célebre romance chinês *Qiuei Hu Tchbuan *(A *Borda d'Água A *onde se descreve a guerra camponesa dos fins da dinastia Sum do Norte (960-1127). Esse personagem conhecido pela sua franqueza e devoção à revolução camponesa, bem como pela rudeza do seu carácter.

*[3] Mao Tsé-Tung dedicou sempre uma grande importância ao trabalho de investigação, considerando o inquérito social como uma tarefa primordial no trabalho de direcção e como a base da elaboração de qualquer política. Por sua iniciativa, o trabalho de investigação foi progressivamente desenvolvido no IV Corpo do Exército Vermelho. Além disso ele fez do inquérito social uma regra de trabalho; o Departamento Político do Exército Vermelho elaborou um questionário detalhado, comportando os títulos seguintes: situação da luta das massas, situação dos reaccionários, vida económica das populações, terras possuídas pelas diferentes classes no campo, etc. Assim, sempre que chegava a uma região, o Exército Vermelho começava por determinar as relações de classes li existentes, para só depois formular palavras de ordem que correspondessem às necessidades das massas.

*[4] Por montanha, o autor entende a região das montanhas Tchincam, situada aos confins das províncias de Quiansie Hunan, e, por planície, a parte meridional do Quiansi e a parte ocidental do Fuquien. Em Janeiro de 1929, à frente das forças principais do IV Corpo do Exército Vermelho, Mão Tsé-Tung saiu das montanhas Tchincam, avançando em direcção da parte sul do Quiansi e da parte oeste do Fuquien, a fim de estabelecer ai duas importantes bases revolucionárias. 

*[5] Trata-se das resoluções adoptadas em Julho de 1928 no VI Congresso do Partido Comunista da China: resolução política e resoluções sobre a questão camponesa, a questão agrária, a organização do poder, etc. No princípio de 1929, o Comité da Frente do IV Corpo do Exército Vermelho imprimiu essas resoluções em brochura e distribuiu-a pelas organizações do Partido no Exército Vermelho, assim como pelas organizações locais do Partido.*

 

                                                                                                        Mao Tsé-Tung

 

(O texto foi retirado do Blogue Que Cem Flores Desabrochem! Que Cem Escolas Rivalizem!)



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