Sobre “"contra o culto dos livros”"

mao_tse-tung2.jpg     O texto que apresentamos data de Maio de 1930, o retiramos de uma versão em português (Colecção Teoria Hoje 1, Filosofia de Mao Tse-Tung, Editora Boitempo Ltda, 1979, 2º Edição em português) e o comparamos com outra versão em espanhol (Textos Escogidos de Mao Tsetung, Ediciones em lenguas estranjeras, Pekin, 1976).

     O combate às práticas revisionistas e seus desvios oportunistas e putchistas nos exigem reler várias vezes este texto para retirarmos para o nosso trabalho os princípios da prática revolucionária.

     Extirpar dos meios revolucionários a prática cega e o seu reverso dogmático nos exige entender a realidade como ela é. Exige uma investigação militante, olhar pela/na luta as múltiplas contradições que compõe a realidade. Como diz o texto:

 

Mao Tse-Tung - 1930
I. SEM INVESTIGAÇÃO NÃO SE TEM DIREITO À PALAVRA

     Se, quando não se investigou sobre um problema, se fica privado do direito de falar sobre ele, acaso deverá isso ser considerado muito brutal? Não, de maneira nenhuma. Uma vez que não se investigou sobre o estado actual e a história do problema, e se lhe ignora o fundo, é evidente que sobre ele só podem dizer-se disparates. Ora, como todos sabem, com disparates não se podem resolver problemas. O que há pois de injusto em se recusar então o direito à palavra em tal caso? Efectivamente, há muitos camaradas que se limitam a divagar de olhos fechados o dia inteiro, o que é uma vergonha para um comunista. Como é que um comunista pode falar assim no ar, de olhos fechados?
É inadmissível! É inadmissível! Façam investigações! Não digam disparates!

II. INVESTIGAR SOBRE UM PROBLEMA É RESOLVÊ-LO

     Não podem resolver um problema? Pois bem, informem-se sobre o seu estado actual e sobre a sua história! Assim que essa investigação tiver possibilitado a elucidação de tudo vocês saberão como resolve-lo. As conclusões extraem-se no fim da investigação e não no seu começo. Apenas os tolos se lançam sós, ou em grupo, na tortura mental de "encontrar uma solução", "descobrir uma ideia", sem proceder a investigações. Agir assim, note-se bem, não poderá de maneira alguma levar a soluções eficazes nem a ideias proveitosas. Por outras palavras, tais tolos não podem chegar senão a uma má solução, a uma ideia incorrecta.

     Não são raros os nossos inspectores, comandantes de guerrilhas, quadros recentemente instalados que, assim que chegam, gostam de fazer declarações políticas e, na base de simples aparências, a propósito dum detalhe ínfimo, desatam a censurar isto, a condenar aquilo, com gestos autoritários. Na verdade, nada é mais detestável do que essa maneira, tão puramente subjectivista, de "dizer disparates". Essas pessoas estão condenadas a estragar tudo, a perder o apoio das massas e a não poder resolver o mais pequeno problema.

     São numerosos os dirigentes que não fazem senão suspirar perante as questões difíceis, ficando sem poder resolvê-las. Acabando por perder a paciência, pedem para mudar de posto, alegando "pouca capacidade para desempenhar-se das tarefas". É a linguagem dos cobardes. Mexam-se um pouco! Dêem uma volta pelos sectores e localidades que são da vossa competência e façam como Confúcio, que "fazia perguntas a respeito de tudo"![1] Por muito pouca capacidade que se tenha acaba-se sempre por resolver todos os problemas, pois se é verdade que ao sair-se de casa ainda se tinha a cabeça vazia, o mesmo não acontece no regresso, pois nessa altura o cérebro estará munido de todos os dados necessários para a solução dos problemas, os quais serão então resolvidos. E será sempre necessário sair de casa? Não necessariamente. É possível convocar para uma reunião de informação pessoas bem informadas, e ir assim até às "origens" daquilo que se diz ser um problema difícil, esclarecendo-se sobre o seu "estado actual", passando então a ser mais fácil resolver o tal problema difícil.

     A investigação é comparável aos longos meses de gestação, enquanto que a solução do problema compara-se no dia do parto. Investigar sobre um problema é resolvê-lo.

III. CONTRA O CULTO DO LIVRO

     Tudo que vem nos livros é correcto, ainda é hoje a concepção dos camponeses da China que estão culturalmente atrasados. O surpreendente, porém, é que nas discussões no seio do Partido Comunista se encontram igualmente pessoas que, a propósito de tudo, dizem: "Mostra-me isso no teu livro!" Quando dizemos que as directivas dos órgãos superiores são justas, não é puramente porque provêem dum "órgão superior", mas sim porque o seu "conteúdo" corresponde às condições objectivas e subjectivas da luta e satisfaz as respectivas necessidades. Executar cegamente as directivas, sem as discutir nem examinar à luz das condições existentes, eis o enorme erro da atitude formalista, exclusivamente ditada pela noção de "órgão superior". Foi precisamente por causa desse formalismo que a táctica e a linha do Partido não puderam, até aqui, penetrar profundamente nas massas. Executar cegamente, aparentemente sem qualquer objecção, as directivas dum órgão superior, não é realmente uma execução, mas antes a maneira mais hábil de opor-se a elas ou sabotá-las.

     Em ciências sociais, igualmente, o método que consiste em estudar exclusivamente a partir dos livros é o mais perigoso que se pode imaginar, podendo até conduzir à contra-revolução. A melhor prova está no facto de muitos comunistas chineses, que no seu estudo das ciências sociais se limitaram apenas aos livros, terem acabado, uns após outros, por tornar-se contra-revolucionários. Quando dizemos que o Marxismo é uma teoria justa, é evidente que não é por Marx ter sido um "profeta", mas sim porque a sua teoria se revelou correcta ao longo da nossa prática, da nossa luta. Nós temos necessidade do Marxismo na nossa luta. Aceitando essa teoria, nós não temos em mente qualquer ideia formalista, ou mesmo mística, como essa das "profecias". Entre os que leram 'livros" marxistas, muitos tornaram-se renegados da revolução, ao passo que os operários iletrados são frequentemente capazes de assimilar bem o Marxismo. É preciso estudar os 'livros" marxistas, claro, mas sem deixar de ligá-los à realidade do nosso país. Nós temos necessidade de "livros", mas devemos absolutamente desembaraçar-nos do culto que, com desprezo da realidade, se devota a esses livros.


     Como desembaraçar-nos disso? O único meio é fazer investigações sobre o estado real da situação.


IV. A AUSÊNCIA DE INVESTIGAÇÕES SOBRE A REALIDADE DÁ LUGAR A UMA APRECIAÇÃO IDEALISTA DAS FORÇAS DE CLASSE E A UMA DIRECÇÃO IDEALISTA DO TRABALHO, O QUE CONDUZ AO OPORTUNISMO OU AO PUTCHISMO

     Não acreditam nesta conclusão? Os factos obrigar-vos-ão a acreditar. Experimentem apreciar uma situação política ou dirigir uma luta sem qualquer investigação sobre a realidade e vejam se a vossa apreciação ou direcção é ou não é vã, idealista, e se tal maneira vã e idealista de fazer apreciações políticas ou dirigir os trabalhos conduz ou não a erros oportunistas o putchistas. Seguramente que sim. E isso não será assim pelo facto de se não ter tido o necessário cuidado de preparar antecipadamente um plano, mas sim porque não se procurou conhecer a situação real da sociedade antes de elaborar tal plano, como acontece aliás, frequentemente, entre as unidades de guerrilhas do Exército Vermelho. Os oficiais do género Li Cuei [2] castigam sem discernimento os seus homens logo que estes cometem uma falta. O resultado é que os culpados queixam-se, as querelas continuam e os dirigentes perdem todo o seu prestígio. Não é isso que acontece frequentemente no Exército Vermelho?

     Só desembaraçando-nos do idealismo e evitando cometer erros oportunistas ou putchistas nós poderemos ganhar as massas e vencer o inimigo. Ora, para nos desembaraçarmos do idealismo, devemos esforçar-nos por fazer investigações sobre a realidade.


V. A INVESTIGAÇÃO SOBRE AS CONDIÇÕES SOCIAIS E ECONÓMICAS TÊM POR FIM CHEGAR A UMA JUSTA APRECIAÇÃO DAS FORÇAS DE CLASSE, PARA DEFINIR DEPOIS UMA JUSTA TÁCTICA DE LUTA

     Tal é a nossa resposta à pergunta: Qual é o fim duma investigação sobre as condições sociais e económicas? O que constitui o objecto da investigação são pois as diferentes classes sociais, e não fenómenos sociais fragmentários. Desde algum tempo para cá, os camaradas do IV Corpo do Exército Vermelho prestam, em geral, atenção ao trabalho de investigação [3], mas o método de muitos deles é errado. O resultado da sua investigação parece a contabilidade dum merceeiro, faz lembrar essa quantidade de histórias sensacionais que certo camponês ouviu contar na cidade, ou então recorda uma cidade populosa vista de longe, do alto duma montanha. Uma investigação feita assim é de pouca utilidade e não nos permite atingir o objectivo principal, que é conhecer a situação política e económica das diferentes classes da sociedade. A investigação deve poder dar-nos como conclusão o quadro da situação actual de cada classe, assim como os altos e baixos do seu desenvolvimento. Por exemplo, quando fazemos uma investigação sobre a composição das massas camponesas, não devemos informar-nos apenas sobre o número de caponeses-proprietários, camponeses semi-proprietários e rendeiros, distintos uns dos outros quanto à questão do arrendamento das terras, mas devemos, sobretudo, conhecer o número de camponeses ricos, médios e pobres, os quais se distinguem por diferenças de classe ou de camada social. Quando procedemos a uma investigação sobre a composição dos comerciantes, não devemos apenas conhecer o número de pessoas que se ocupam do comércio de cereais, vestuário, plantas medicinais, etc, mas informar-nos sobretudo do número de pequenos comerciantes, comerciantes médios e grandes comerciantes. Nós devemos inquirir não só sobre a situação de cada ramo, mas também, e especialmente, sobre a respectiva composição de classe. Devemos inquirir não só sobre as relações entre os diferentes ramos, mas sobretudo sobre as relações entre as diferentes classes. O nosso principal método de investigação consiste em dissecar as diferentes classes sociais, e o nosso fim último é conhecer as suas relações mútuas e chegar a uma justa apreciação das forças de classe, para definir depois uma justa táctica na nossa luta, determinando que classes formam as nossas forças principais na luta revolucionária, quais devemos ganhar como aliadas e quais devemos, derrubar. Eis todo o nosso objectivo.


Quais são as classes sociais que devem constituir objecto de investigação?

São as seguintes:
 
- o proletariado industrial,
- o operariado artesanal,
- os assalariados agrícolas,
- os camponeses pobres,

- os indigentes das cidades,
- o *lumpen-proletariado,*

- os proprietários de empresas artesanais,
- os pequenos comerciantes,
- os camponeses médios,

- os camponeses ricos,

- a classe dos senhores de terras,

- a burguesia comercial,
- a burguesia industrial.
 
     Durante a investigação devemos dirigir a nossa atenção sobre a situação de todas essas classes (ou camadas sociais). Na região onde trabalhamos neste momento, apenas não existem o proletariado industrial e a burguesia industrial, o resto é-nos familiar. A nossa táctica de luta não é outra senão a que adoptamos com relação a todas essas classes e camadas sociais. No nosso trabalho de investigação regista-se uma outra insuficiência séria: nós ocupamo-nos mais das regiões rurais, em prejuízo das cidades, de maneira que um certo número de camaradas teve sempre uma ideia bastante vaga sobre a táctica a adoptar com relação aos indigentes das cidades e à burguesia comercial. O desenvolvimento da luta fez-nos abandonar a montanha pela planície [4], fisicamente, nós descemos desde há muito das alturas mas, mentalmente, ainda continuamos lá. Devemos conhecer tanto a cidade como campo; doutra maneira não poderemos responder às necessidades da luta revolucionária.

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